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Me parece que nossa cultura sofre de uma anorexia dialogal. Sim. É que falamos demais, interagimos demais, mas raramente escutamos, trocamos ou damos vazão ao que estamos, de fato, sentindo ou pensando. Tememos que nos achem estúpidos, que nos repreendam, que nos julguem, que nos ignorem. Nesta perspectiva de busca pela aceitação, acabamos por nos isolar em monólogos ou silêncios. O sentimento de vazio é constante e corriqueiro, seja em ambientes formais ou pessoais. Quantas vezes ficamos mudos enquanto a alma grita?

Houve um tempo em que as pessoas se expressavam através das cartas: o que não era possível ser dito cara a cara, fosse pela distância ou pela dificuldade em se expressar na fala, era escrito e enviado ou entregue ao interlocutor. Uma forma singular de troca, atualmente obsoleta, que permitia a elaboração dos pensamentos e da mensagem, sem interrupções ou das armadilhas da timidez.

O diálogo quando escrito, possibilita recursos que não são facilmente executáveis na fala, e o trabalho no papel permite ainda outras formas de expressão através de imagens, símbolos, neologismos, citações, pontuações, dentre outras versatilidades que se manifestam para além da língua falada. O próprio cuidado com a escolha do papel, seus ornamentos, cores, envelope, selagem, enfim, um acervo de significados que fala, as vezes, mais que as próprias palavras.

Por algum tempo os e-mails também exerceram função parecida ou semelhante a da carta, diferenciando-se pela velocidade com que as mensagens eram recebidas. Talvez, por nos acostumarmos com a fluidez permeando o cotidiano, com a correria ou com a cultura que nos persuade a “não dizer”, mesmo o hábito de um e-mail-carta tornou-se raro. Mensagens rápidas, com poucas palavras, diálogos treinados com perguntas e respostas basicamente preestabelecidas é o que nos restou da prática escrita de troca com o outro. E sabe-se lá quem ainda tem a sorte de ter mais do que isso em diálogos “falados”.

Nostalgias à parte, desejando brincar com o saudosismo pelas trocas dialogais, pela poesia nas conversas, pelas declarações apaixonadas ou manifestos indignados, por tudo o que há a dizer e que não é mais dito, Cartas Voadoras propõe tratar de diversos assuntos, temáticas e situações no formato de cartas fictícias, que mesclam situações reais com fantasiosas.

Cartas que não escrevemos, mensagens que não enviamos, palavras que nunca falamos, sentimentos que não revelamos, posições que não assumimos, sapos engolidos, entalamentos, engasgos e afins. Para tudo isso: as palavras com asas, pois mesmo que não cheguem aos seus destinatários, nos deixam livre algum lugar para respirar.

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