Carta de despedida de um Ideal

Ouro Preto, 14 de março de 2014

Não. Eu não posso ser essa pessoa que você acredita que eu seja.
O que você vê trata-se apenas de uma possibilidade no universo de um ser.

Essa nuance que você escolheu enxergar, talvez a mais frágil dentre tantas outras, não compete se não em uma fina mucosa superficial, exibindo combinações reluzentes e híbridas de tantas outras camadas que, desordenadamente não respeitam hierarquia alguma: trocam de lugar, se misturam, se extinguem criando novidades.

Esta pessoa que você enxerga é apenas o vislumbre de um momento que já foi. Aquele no qual você pôde se deslumbrar e se deliciar, mas que desintegrou-se ante a vasta consciência que captura até mesmos os mínimos gestos, as mais sutis vibrações de uma variação energética no ambiente. O mais sutil tremor de um átomo que seja.

Esta imagem voluptuosa que criastes ao me ver, ao entrar em contato com a minha infantil e ingênua alegria de pessoa aparentemente despreocupada, na verdade, não passa de um espasmo de ilusão que lhe cativou os olhos, cegando-te de todo o resto… Talvez por isso tenha ignorado minhas sutis insinuações para além das formas carnais, para além do romance adolescente. Sondando as fronteiras dos seus possíveis interesses, me dei conta que começavam com as carícias e morriam com os últimos gemidos de gozo.

E então, foram-se extinguindo os sorrisos, e toda aquela criatividade que sua presença me instigava, tão genuína quanto quando estou só. Pois essas peripécias do meu modo de ser que tanto apreciava, vinham da mesma fonte daquilo que com preconceito arrogante preferiu ignorar. O que para mim havia de mais importante, e pelo qual vivia, recebia seu silêncio de expectador restritamente clássico.

Eu que já fui longe demais para voltar a conceber a vida como uma tragédia, e que já cruzei alguns mares duvidosos para me limitar aos dramas de Shakespeare, percebo que logo, e tão cedo já manifestou-se o crepúsculo de nossa paixão. Este tão fácil que logo te cansa, este tão rápido que nos instala o medo, este não falar que nos deixa na escuridão, este não ver que nos impede o reconhecimento um do outro.

Permanecemos como cegos nos tateando no escuro, insuflando prazeres sem cor. No entanto, o instante findo, minhas pálpebras desesperadas por novas cores inebriantes recusaram-se a permanecerem fechadas, e como todo o meu corpo é errante, é inevitável que eu parta.

Preciso de cores, cores vivas, cores mortas, cores múltiplas, novas formas. Não poderia permanecer acorrentada vendo-me presa só, como estão todas as presas. A princípio pensam que se conectam ao outro, mas logo o veem correndo ao largo, enquanto permanecem sufocadas e estáticas, penduradas à uma armadilha que as posicionam de cara com o olhar delimitado do precipício.

Esta presa frágil que desejas que eu seja, não poderia nunca ser. Vejo tantas que se desfazem da leveza alegre e ambígua da liberdade, e sucateiam sua brandura pela amargura de se instalarem em uma gaiola de promessas fictícias. Perdem suas subjetividades pela aceitação de tentar ser a imagem do objeto que fantasiaram acerca de si, tudo por um pouco de amor que nunca chega. Que nunca chega porque nunca basta e nunca é. Nunca estaremos satisfeitos enquanto buscamos no outro o alimento oriundo do introspecto.

Por isso eu vou, mas não sem alguma tristeza. Pois pude vislumbrar todos os brilhos e fagulhas resultantes das nossas misturas. E poderiam ser tanto, e poderiam ter criado tantos outros universos! E como eu gostaria de explorar, e quem sabe habitar um pouco outros universos. Mas eu, inacessível diante da sua recusa em ver, oculta pelo ideal que como muralha entre nós se interpunha, jamais teria passagem para este novo, o novo que jamais viria então, pois ideais são descartáveis demais para criar.

Vou, mas não sem algum pesar, e faço conhecer a deixa, de que continuarei sólida, visível e difusa, com todas as minhas cores confusas e que trocam de lugar, com todos os meus doces e amargores que as vezes se misturam em humor perverso, com todos os meus mistérios de sempre e revelações de uma noite, para quem sabe, os seus olhos livres dessa alucinação de mim, me encontrem por aí.

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>> Carta nunca enviada por Sophia F. a Willian. Minutos depois que ela terminou de escrever recebeu uma mensagem do seu potencial destinatário, e através de uma breve conversa, ele a convenceu a encontrá-lo naquela noite.

Carta ao Senhor, que nunca chamei de senhor

São Paulo, 29 de junho de 2015

Sem formalidades…

Eu gosto de ser honesta. Não. É verdade que eu gosto sê-lo, mas, mais do que gostar, é basicamente uma condição. Honesta, sincera, direta, sem jogos ou meio termos. É como eu falo e como eu me envolvo nas coisas. Caso contrário prefiro me exilar no silêncio e tudo é caminho. Por isso, talvez, tantos contratempos quando devo agir apenas pela necessidade. E neste momento, é o que acontece. Silenciar-me não é o problema. Desse aspecto misterioso da fala sou íntima. Estava indo tudo bem: emoções contidas, desejos domados, tudo por um objetivo que vale a pena. De um processo de inversão consegui transformar meus anseios em lealdade. Até que, num vacilo, você me abalou a segurança que alimentava minha resignação: a do não.

A possibilidade duvidosa abala mais as estruturas do que a impossibilidade posta. A maldição da Caixa de Pandora segundo Nietzsche: a esperança. Conformar-se com o que não é possível é o que nos resta para tocar a vida em frente. Mas calar-se e estagnar-se diante de uma possibilidade, ainda que incerta, isso corrói.

Como se a vida te pegasse pra fantoche, e então brincasse comigo tão parecida com a sua figura, você recuou. Não houve explicação, resquício de acontecimento, sim ou não. Os dias correm como se nada houvesse acontecido. E nada aconteceu de fato. Uma aproximação vacilante recuada, fora o mistério, no silêncio, a tantas outras experiências se iguala: dessas que não servem para nada, a não ser aprender a desconfiar.

Você não se incomoda? Não se incomoda com essa cultura de ausência de resposta, de diálogo, de uma troca qualquer que ao menos alivie a ausência de sentido nas ações alheias? Não se incomoda de não poder dizer algo a alguém em determinados contextos, algo que seria totalmente honesto ao seu desejo e livre de maldade, por medo de que essas palavras em ouvidos errados e línguas afiadas pudessem fazer desmoronar tudo o que levou tantos anos para construir? Não te incomoda sua natureza tão livre e jovem esporada por direções aprisionadoras e mumificantes?

Eu me incomodo, e por isso talvez você seja e sempre será aquele que estará acima. Tenho me conformado com o fato de que escolher a liberdade exija uma certa disposição para parecer fracassado, e ocupar lugares menos ambiciosos. Bem, já isso, não me incomoda. Aprendi cedo, ainda adolescente, que não mudarei todo um sistema apenas porque ele me incomoda. Aprendi a responsabilizar-me por escolhas difíceis sabendo das consequências com suas raras exceções, sabendo que posso ser uma exceção ou não. Corro riscos já que a consciência de que a vida tem apenas um fim, seja como for e que hora for que ele venha, pulsa viva e fixa em minha alma. Carma ou construção, com o tempo ela é o que permanece.

Sei que não posso obrigar, e geralmente sequer persuadir, alguém a viver conforme esse princípio aparentemente apocalíptico, e concretamente fatídico da finitude da nossa existência. Não vejo mal, já que a isso não proponho uma total desordem, apenas uma honestidade com os desejos que não condenam ninguém a não ser por sua ignorância ou amargura, o que lhes impele ao lugar de juízes. Penso inclusive, que estou exercendo minha licença de romantismo ao pensar que se trata disso: de um recuo pensado e medido, tolhendo um desejo honesto em detrimento de um bem maior. Ao contrário, poderia apenas, em um momento de impulso, estar buscando por uma aventura de uma noite no lugar mais inadequado possível. Pois bem, minha lealdade não me autoriza a pensar o pior de você.

Vencidas as emoções frágeis muito antes do acontecido, tenho a certeza da solidez do que resta. Eu que me faço água para seguir meus caminhos, tenho lá algumas densidades de pedra que me dão curso. Já ouvi, há algum tempo atrás, que uma manifestação espontânea das emoções que se agitam por outra pessoa se caracteriza por vexame. Pobre coitado daquele que o disse! Espero que um dia descubra que abrir-se e fazer-se conhecer no íntimo, é a única forma de convocar o outro a revelar seu lugar nisso para além da nossa própria fantasia. É uma pena que assim como ele, a grande maioria das pessoas não se prestem a se revelar de maneira alguma. Não me surpreende que a maioria dos diálogos mais interessantes da minha vida estejam nos livros que li – o autor, conversando só, despudoriza todos os seus personagens da indisposição para trocar, do desinteresse pelo que o outro tem a dizer ou precisa ouvir, para que a literatura não seja feita de tédio.

Pode ser que você só me deixe no silêncio, e que os dias corram para todos como se nenhuma palavra houvesse sido dita – para todos, exceto para mim. Pode ser que escolha apenas me tirar de cena por tentar perturbar o seu silêncio. Mas se tornou urgente que eu manifestasse minha humilde posição de quem quer apenas entender o ocorrido, uma posição de quem não te julgará caso fosse apenas um impulso desmiolado de quem se abala por uma atração física, ou um desejo de aproximação desinteressado, ou o que quer que seja.

A verdade de toda essa labuta verbal na qual me embrenhei, é que gostaria de fazer-me conhecer para além das tarefas cumpridas, e quando pareceu possível o meu desejo, dei-me com seu fim como quem corre para uma porta aberta que ante a proximidade se fecha em seu nariz. A verdade dessa labuta verbal, é que ando precisando lidar com ataduras para um nariz quebrado.

Novamente: sem formalidades.

Linda.

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>>Carta não enviada por Linda Soares ao seu superior.