Carta ao Senhor, que nunca chamei de senhor

STILL LIFE / REPORTER'S DESK WITH TYPEWRITER & BOX CAMERA

São Paulo, 29 de junho de 2015

Sem formalidades…

Eu gosto de ser honesta. Não. É verdade que eu gosto sê-lo, mas, mais do que gostar, é basicamente uma condição. Honesta, sincera, direta, sem jogos ou meio termos. É como eu falo e como eu me envolvo nas coisas. Caso contrário prefiro me exilar no silêncio e tudo é caminho. Por isso, talvez, tantos contratempos quando devo agir apenas pela necessidade. E neste momento, é o que acontece. Silenciar-me não é o problema. Desse aspecto misterioso da fala sou íntima. Estava indo tudo bem: emoções contidas, desejos domados, tudo por um objetivo que vale a pena. De um processo de inversão consegui transformar meus anseios em lealdade. Até que, num vacilo, você me abalou a segurança que alimentava minha resignação: a do não.

A possibilidade duvidosa abala mais as estruturas do que a impossibilidade posta. A maldição da Caixa de Pandora segundo Nietzsche: a esperança. Conformar-se com o que não é possível é o que nos resta para tocar a vida em frente. Mas calar-se e estagnar-se diante de uma possibilidade, ainda que incerta, isso corrói.

Como se a vida te pegasse pra fantoche, e então brincasse comigo tão parecida com a sua figura, você recuou. Não houve explicação, resquício de acontecimento, sim ou não. Os dias correm como se nada houvesse acontecido. E nada aconteceu de fato. Uma aproximação vacilante recuada, fora o mistério, no silêncio, a tantas outras experiências se iguala: dessas que não servem para nada, a não ser aprender a desconfiar.

Você não se incomoda? Não se incomoda com essa cultura de ausência de resposta, de diálogo, de uma troca qualquer que ao menos alivie a ausência de sentido nas ações alheias? Não se incomoda de não poder dizer algo a alguém em determinados contextos, algo que seria totalmente honesto ao seu desejo e livre de maldade, por medo de que essas palavras em ouvidos errados e línguas afiadas pudessem fazer desmoronar tudo o que levou tantos anos para construir? Não te incomoda sua natureza tão livre e jovem esporada por direções aprisionadoras e mumificantes?

Eu me incomodo, e por isso talvez você seja e sempre será aquele que estará acima. Tenho me conformado com o fato de que escolher a liberdade exija uma certa disposição para parecer fracassado, e ocupar lugares menos ambiciosos. Bem, já isso, não me incomoda. Aprendi cedo, ainda adolescente, que não mudarei todo um sistema apenas porque ele me incomoda. Aprendi a responsabilizar-me por escolhas difíceis sabendo das consequências com suas raras exceções, sabendo que posso ser uma exceção ou não. Corro riscos já que a consciência de que a vida tem apenas um fim, seja como for e que hora for que ele venha, pulsa viva e fixa em minha alma. Carma ou construção, com o tempo ela é o que permanece.

Sei que não posso obrigar, e geralmente sequer persuadir, alguém a viver conforme esse princípio aparentemente apocalíptico, e concretamente fatídico da finitude da nossa existência. Não vejo mal, já que a isso não proponho uma total desordem, apenas uma honestidade com os desejos que não condenam ninguém a não ser por sua ignorância ou amargura, o que lhes impele ao lugar de juízes. Penso inclusive, que estou exercendo minha licença de romantismo ao pensar que se trata disso: de um recuo pensado e medido, tolhendo um desejo honesto em detrimento de um bem maior. Ao contrário, poderia apenas, em um momento de impulso, estar buscando por uma aventura de uma noite no lugar mais inadequado possível. Pois bem, minha lealdade não me autoriza a pensar o pior de você.

Vencidas as emoções frágeis muito antes do acontecido, tenho a certeza da solidez do que resta. Eu que me faço água para seguir meus caminhos, tenho lá algumas densidades de pedra que me dão curso. Já ouvi, há algum tempo atrás, que uma manifestação espontânea das emoções que se agitam por outra pessoa se caracteriza por vexame. Pobre coitado daquele que o disse! Espero que um dia descubra que abrir-se e fazer-se conhecer no íntimo, é a única forma de convocar o outro a revelar seu lugar nisso para além da nossa própria fantasia. É uma pena que assim como ele, a grande maioria das pessoas não se prestem a se revelar de maneira alguma. Não me surpreende que a maioria dos diálogos mais interessantes da minha vida estejam nos livros que li – o autor, conversando só, despudoriza todos os seus personagens da indisposição para trocar, do desinteresse pelo que o outro tem a dizer ou precisa ouvir, para que a literatura não seja feita de tédio.

Pode ser que você só me deixe no silêncio, e que os dias corram para todos como se nenhuma palavra houvesse sido dita – para todos, exceto para mim. Pode ser que escolha apenas me tirar de cena por tentar perturbar o seu silêncio. Mas se tornou urgente que eu manifestasse minha humilde posição de quem quer apenas entender o ocorrido, uma posição de quem não te julgará caso fosse apenas um impulso desmiolado de quem se abala por uma atração física, ou um desejo de aproximação desinteressado, ou o que quer que seja.

A verdade de toda essa labuta verbal na qual me embrenhei, é que gostaria de fazer-me conhecer para além das tarefas cumpridas, e quando pareceu possível o meu desejo, dei-me com seu fim como quem corre para uma porta aberta que ante a proximidade se fecha em seu nariz. A verdade dessa labuta verbal, é que ando precisando lidar com ataduras para um nariz quebrado.

Novamente: sem formalidades.

Linda.

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>>Carta não enviada por Linda Soares ao seu superior.

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