Aos encontros desencontrados

desencontro

Não sei como começar esta carta. Tão absorvido que estou, tenho diante do papel em branco a sensação de já não saber mais escrever. Não sei fazer introdução, nem mesmo escolher um assunto. Gostaria de escrever algo sobre o tempo, sobre os erros, sobre a dor, sobre o amor, sobre qualquer dessas coisas que agora comemoram em tumulto por trás da minha máscara de ausência.

Não sei chorar ou rir da ironia de que me tenha tomado as palavras o que tanto me fez escrever. Não sei chorar ou rir da teimosia dessa intuição imperiosa que me diz que algo não foi dito, não foi resolvido, não ficou claro – algo no ar. Tentando substituir todos os meus pensamentos por música, tenho agora um novo vício, consumiram-me as palavras, creio que agora terei que me tornar músico. Dançarino talvez.

Até mesmo a música se impregnou de você, na serenidade das notas, despretensiosas, livres, soltas, irregulares, narrando algo sobre estar perdido, pedindo calma, pedindo tempo, pedindo silêncio, finalmente te escuto, finalmente te encontro. Posso até mesmo dançar você, e não sei de que outra forma estaria tão próximo, tanto o desencontro da nossa vida.

Talvez fosse tudo uma questão de tempo – se tivéssemos nascido em outro tempo, se tivéssemos nos conhecido em outro tempo, ou se eu tivesse dado tempo ao tempo. Essa ludicidade irresponsável que me faz querer brincar de deus tentando tomar o curso de todas as coisas. Esse medo de perder tempo esperando. Perco. Novamente perco. Tenho ainda as vibrações do som para me perder.

Repito os minutos de melodia, volto logo quando ela termina, como se quisesse parar o tempo para não sucumbir ao desalento de não ver sentido em seguir em frente. Sinto que nem mesmo estive em algum lugar que me permitisse seguir para outro qualquer. Estou suspenso. Nesse universo onde as palavras não entram, ando brigado com essas línguas que nunca me ensinaram o poder de comunicar quando realmente preciso.

Ando suspenso nesse universo onde as palavras não saem. Creio que entendo porque repito, repito e repito a música onde encontrei você. Não há nada para ser entendido. Nestas letras onde as melhores intensões podem se tornar malditas, me dei conta de que não há nada que possa ser dito, esclarecido ou explicado sem equívocos.

Permaneço aqui absorto, me empenhando em ser absorvido pelo som, para transformar-me em som, e me levar pelo vento, pelo espaço, pelo tempo, pelo ritmo, ao seu encontro, como se encontra aqui comigo. No tempo das coisas, tempo que não poderia ser outro, tempo que faz única cada melodia. Só consigo pensar que há algo certo, algo que não pode ser dito. Apenas sentido.

________________________

Carta de um homem que perdeu um encontro por muito tempo almejado, por estar perdido em si mesmo.

Uma carta para desfazer inversões

amelie auto sabotagem

Apesar de você dizer que não se importa, de se fazer de indiferente e autossuficiente, eu gostaria de poder, de alguma forma, desfazer os equívocos de outrora. Eu devo te confundir com o meu jeito estranho de agir, ao ver-me aos poucos tirando o véu das reservas ostensivas diante de todos, exceto diante de você. E então, mesmo quando estivemos menos rodeados de intrusos dessa cumplicidade silenciosa que temos, minha atenção não lhe alcançou.

Esforcei em distrair-me, foquei em todos os focos que nos mantivessem distantes apesar das cadeiras lado a lado. Ouvi e ri de suas piadas, fui expectadora sua, como estivéssemos um no palco, outro na plateia, e por vezes trocávamos de papel, eu falava, mas nunca falava para você. Falava para outro, enquanto tentava entender o que eu estava fazendo. Elaborei involuntárias escapadelas dos seus gracejos, eles tentavam quebrar o gelo, eu quebrava todas as possibilidades, quebrava as pontes que nos abrandariam a lonjura.

Me afogo em angústia ante sua frieza, reprovação, hostilidade e principalmente: indiferença. Por outro lado, nego os elogios, fujo do calor, escorrego dos toques, desvio dos olhares. Só te encaro de longe, de espreita, de onde não possa me ver olhar-te. Quando você está, eu falo para você fingindo falar com os outros, ignoro sua presença ao mesmo tempo em que a convido de forma transviada. Tanto absurdo, que ao tomar consciência dessa fuga desenfreada que empenhei desde o primeiro contato, senti meus golpes em fúria contra minha própria estupidez.

Todo meu elenco de tragédias se desfez em um monólogo ininterrupto e eloquente das memórias de uma pessoa que se auto sabotava. Narrava para mim mesma passo a passo como fui desmembrando cada tentativa de laço. Descobri-me rainha das conquistas vazias, das ilusões febris, das relações efêmeras. Tudo o quanto investi sem medo e que, portanto, houve algum acerto, era tudo o que não queria. De fato, não me entendo, será que tenho medo de realizar-me? Escapar do beijo sonhado, enrijecer-me no abraço querido, silenciar-me ante o diálogo esperado, negar-me a conhecer o desejado mistério das suas histórias protegidas atrás de uma armadura de ouro…

Depois me lamento, como fosse injustiçada, não ter uma segunda via de acesso a este caminho desconhecido. Depois da porta aberta, vacilar, sair em disparada após trancar a fechadura e jogar a chave por baixo da fresta. Depois lamento que continue lá trancado enquanto eu vago pelo vale tempestuoso das minhas emoções desvairadas. Como se tudo já não fosse suficientemente complicado. Tentei me consolar invocando meu passado, minhas decepções, os medos, os atrasos, os percalços que me desenharam feridas rendadas nos pés descalçados. Interrompi-me para os suspiros e peguei-me distraída lendo as linhas desses símbolos misteriosos que a vida pintou em minha pele. Descobri sobre esse impulso de levar meus pés às pedras pontiagudas, tão habituados à ferida, penso dependerem delas para continuar caminhando, para continuar a criar.

Todavia, sinto superficial sua indiferença, assim como minha teimosia. Apesar delas eu vejo atrás do meu véu o desejo da nudez, atrás da sua armadura o desejo da leveza. Não somos assim tão estranhos em nossas defesas. Talvez indefesos pudéssemos nos encontrar. É a minha confissão presunçosa conjecturando a sua. Em palavras simples o acontecido: fujo de uma aproximação sua pelo intenso desejo de me aproximar, por saber que não haverá volta, que não haverá esquecimento, que não haverá indiferença. Me escondo nas dores conhecidas pelo medo de novas dores.

Gostaria que essa iluminação sobre minha voluntária expiação fosse suficiente para resignar-me diante dessas atitudes invertidas. Que na minha rudeza lhe fosse desvelada a estima, que na minha distância lhe fosse revelado o desejo de lançar-me, que na minha frieza lhe tocasse o calor dos meus afetos. Mas da consciência ao acontecimento há um longo trajeto. Queria tornar-me, só pelo intelecto, uma guerreira. Sabotar o treinamento para chegar até lá. Acabei por sabotar a mim mesma. Assim é a vida. O que se revela no pensamento não é o suficiente para aprender a viver. E numa brecha sua talvez eu venha a me empenhar. Talvez, novamente, eu involuntariamente, deixe pra lá. Me deixe pra lá. Continue pra lá. Pudera você também fosse pra lá, comigo…

A Carta de um centavo – R$ 00,01

Charlie Chaplin (1889-1977) in

Percebo que você fica fazendo questão de me lembrar sempre que possível do quanto eu não tenho valor. Eu não valho nada, não cheguei a lugar nenhum, sou um torto na estrada, um zé ninguém, sem mérito algum. Minha opinião, é claro, em que te interessa? Em que te afeta? Eu sei que nada não, nem quis que fosse, nem há razão que tenha para opinar. Verdade, nem sei de onde vem essas supostas conclusões que me atribui. O que penso também é desvalido. Como bobo seu, como bobo do mundo, apenas brinco com trocadilhos. E o que sinto então, essa coisa fraca como poesia, afeto meu vale o quê? Não vale nada também não. Muito Não bumerangado, jogado vindo do outro lado, me acertando de raspão para voltar para suas mãos e novamente ser lançado. Gostaria de dizer que eu já entendi, não precisa continuar com esse jogo de ferir.

De tentar, de desejar, de sentir, não penso que eu estivesse errado. Errado de falar, de demonstrar destrambelhado, de pensar em me desculpar. Culpa de quê? De que vale afinal meu afeto, minhas desculpas, minha correção?

Você é dessas pessoas tão preciosas, que acumula razões como fossem diamantes, coleciona relações condecoradas nesse coração grande, guarda na gaveta as aventuras, juntos aos anéis e às canetas. Diante de tanta ostentação de valor, fico pequeno, mínguo esguio e mindinho diante da frieza dos seus olhos remexidos por alguma coisa: alguma dor, algum ódio, algum rancor? O que causa esse involuntário tremor? Eu saio me perguntando, mergulhando em minha angústia sem valor.

Feito o que há de ser feito, finjo indiferença, vou sorrindo, com as mãos no bolso e furos no coração. Permito-me perder em algum som, atravessando o rio da desorientada multidão. Alguns minutos de paz e solidão. Que no meu canto não há silêncio, meu pensamento é compadre das emoções, fica caçando razões, garimpando entendimento, conjecturando sobre esses sinais sutis de efeitos tão violentos: seria então, o que causa o seu tremor nos olhos o mesmo que me causa o tremor nas mãos? Não, é claro que não. Esse papo de compadres entre meus Eus e afins, perdição, sejam bons ou ruins, conclusão, só ilusão.

Pego a tesoura para cortar meus pensamentos, cortar meus laços, minhas expectativas, meus desejos, minhas frustrações. Faço bonecos de papel entrelaçados. Sem valor. Papel branco pautado, vazio de sentidos, de formas repetidas. Penso nessa reviravolta que é a vida. Montanha russa de todos os dias. Ando tonto, girando peões, perigosas voltas derrapando no desprezo. Sinto o fedor dos meus esforços queimados, das minhas investidas desgastadas, das esperanças carecas.

do amor desafeto

Já não me resta pretensão para amargura ou ira. Também não para alegria. Tristeza calma, quase sábia. Amadurecendo, então? Esmaecendo em vão. Amanhecendo, já tenho o sono perdido. Noites de sono sem valor. Fico pensando enternecido sobre os corpos adormecidos que resistiram ao conforto de uma posição pelo conforto de um abraço matinal. Não abraço qualquer, abraço escolhido, abraçado amado, abraço das noites anteriores. Abraços pesados em afetos e não em méritos. Abraços sem valor. Essa vulnerabilidade que é preciso assumir para receber o afeto do outro. Aos fortes demais e sempre, resta transformar o que vêm em ouro. Eu  sendo outro, sou meio embrutecido.

Dessa bruteza dos sentimentos, dos sonhos ingênuos, das esperas eternas, dos sonhos acordado, das cartas de amor. É dessa bruteza que das minhas mãos vem o tremor, nervosas de não poderem tecer redes nessa terra perdida. Seca? Estou sendo injusto? Que importa, não tenho valor, não vale minha opinião, ou afeto, ou pensamento. Não valem para você então me sinto isento, podendo falar o que quero, desenhando minhas feridas no teto do seu apartamento decorado – telepático o faço, do meu canto provisório e bagunçado.

Apesar disso, teimoso maldito, me doo e de dor não me importo, desse valor que não inspiro e nem me atropela às ambições. Eu sou um equilibrista de meio fio, ambicioso de sair voando, de ser livre para viver sonhos, de desviar das sombras de dúvida nos meus caminhos marginais, me embaraçar em soluções de levezas. Sou ambicioso de amor, de afeto desatento e desinteressado, mas sentido e cheio de ornamento. Ambicioso dessas relações que se marcam mais de infinito do que de contrato, mais de pinturas do que de retratos, mais de encontros do que de artefatos. Eu sou antigo, dos ritos da colheita e pela colheita, e não desses modernos algozes da terra.

Mas que importa o ser desse ser sem valor? Uma luz artificial, tremula – como estiveram seus olhos – se apagando diante nascer do sol me conta: não era você. Não é problema seu, não é defeito seu, não é maldade sua. Continuo engasgado de amor porque entendo seus medos, suas heresias contra os seus próprios sentimentos, suas defesas disfarçadas de firmeza. Entendo que apenas foge dessa opressão, que só seres sem valor, como eu, sentem-se livres para viver, por não terem do que perder nada a temer. Mas sofro pela sua perda, dessas coisas sem valor tão escassas que a minha experiência vagabunda de malícias poderia oferecer. E talvez só agora eu esteja sendo pouco modesto, por acreditar que nisso alguma coisa poderia te amolecer.

Da cabeça confusa, interrompo a lambuja imaginária para não adoecer. Com as noites em claro vão-se os sonhos. Com o silêncio a divagação. Com a realidade as expectativas. Eu sigo todos os dias, e não me importo, continuo a esperar alguma coisa sem valor da vida, pois só me nutro da certeza de que no fim, quando o corpo em greve ou interrompido se deixa desfalecer, todos nós, cheios de valor ou sem valor nenhum, teremos um encontro simbólico através do único destino comum entre todos os mortais. Enquanto vivo, eu tento só ser eterno. E quem sabe, nessa eternidade, deteriorados no tempo pela decomposição os seus valores, ainda possa me encontrar de fato com você.

___________________________________________

De um João Ninguém para uma Maria Alguém. – Dessas desajustadas declarações de amor, que só encontram espaço no esquecimento.

Carta na esquina

Esquina

Hoje eu acordei me lembrando do menino invisível, datilografando cartas à um estranho em sua máquina de escrever, improvisando seu blog itinerante, encontrou outros transparentes, aprendeu a ser infinito. Acordei querendo ser invisível, como se fosse possível querer o que já é, como se não fosse. Ignorando a realidade, mergulhei na lembrança do livro, um patê de emoções, gosto e afeto, poucas palavras de boca cheia. Decidi escrever a um estranho qualquer. Sem máquina de escrever, sem tinta a postos para impressão, foi à mão, que conversava imagens dos meus sonhos de ontem.

Bem, eu já não espero ser infinito, foi tudo finito demais. Já não há amigos passando no vestibular, todos formamos, agora deformados vamos, vamos às seis da manhã, vamos às dezoito, vamos sempre, vivos ou mortos, nunca voltamos, que diferença faz? Tudo se afasta, finda, a vida parece infinita no vazio. Sou finito na vida infinita, tento me conformar. Ainda posso jogar uma carta da janela, e saber que ela vai parar na esquina, é meio como é o rumo da minha vida. Nada de meios e caminhos retos, nada certo, tudo esquina, encruzilhada de caminhos quaisquer.

Fui abraçando o papel, tocando, sentindo, pensando como seria, quem encontraria, quem leria as palavras de um desconhecido, quem lhe daria atenção, mais do que aos vendedores da rua? Ainda que a carta límpida, embrulhada em envelope, com palavras curiosas, cera de vela imitando passado, marca de anel de alumínio como se fosse cobre. Ainda que… Quem curvaria ao chão, para pegar uma carta baldia, caída de um andar esquecido, escrita por um qualquer? Não importa.

Pensei em falar da minha vida, mas não conseguia deixar de pensar na reação do estranho a quem destino essa escrita. Qual seria seu sexo, seu nome, sua cor, seus gestos para alcançar o misterioso papel, tocá-lo, abrir o envelope. Que diferença faria em sua vida? Diante das informações em demasia, às vezes acho todo mundo parecido nas palavras bem pensadas, nos impulsos todos muito diversos, é fato, impulsos não há como premeditar, não rola identificação, só momento, só descarga de sentimento.

Crio as imagens da diferença que não iria ver, do envolvimento que não iria tocar, do movimento dos olhos que não iria enxergar. Crio imagens. Palavras foram vazando cores e formas e eu não saberia expressar a não ser por desenhos toscos lembrados dos meus seis ou sete anos. Palavras foram fugindo, transformaram-se em som, em todo meio de expressão que eu não sabia, em tudo o que não poderia chegar a ninguém. Senti o calor do asfalto aquecido por todo o dia tocando a carta, queimando sua brancura, derretendo sua frieza, desvirginando-a da solidão.

Quis eu mesmo tornar-me carta e me jogar pela janela, na esquina, nesta encruzilhada de caminhos, ser pisado, esquecido, estranhado, milhões de estranhos passando por mim enquanto me deterioro e sinto o universo de baixo. Como se fosse possível querer o que já é, como se não fosse. Queria ser encontrado por um estranho, levado para o desconhecido, me sentir mais infinito e menos invisível.

____________________________________________________________

Apenas uma carta na esquina, de uma pessoa qualquer, encontrada na esquina, numa encruzilhada de caminhos.

Carta à moça da outra mesa

coffee-690417_640

Algum Lugar com Pretensões Cosmopolitas e Realidade Provinciana,

14 de março de 2012

O Café Belas Artes é o lugar para onde vou quando quero me alhear do mundo. Não gosto de parecer taciturno ou distante na companhia de amigos, de família ou de namorada. Prefiro reservar-lhes o que tenho de melhor, corrijo, aquilo que eles entendem como sendo o melhor que tenho.  É que essa calmaria aparente que colore meus olhos quando me volto para dentro, intensificando o verde tão admirado, externo – internamente é caos e escuridão. Nestes momentos eu vou para o Café, peço um expresso ou uma cerveja, pego um livro e fico fingindo que me concentro na leitura. Mas são as palavras externas, ruídos desconexos, o movimento das pessoas ao redor que me interessam. É a forma que tenho de ceder diálogo aberto aos meus pensamentos, que penso, pensamento também, já não interessam a ninguém.

Contemplação, deixo-me perder nos borrões de gente, tantos também alheios, sinto-me acompanhado dessas pessoas solitárias, imaginando que também estão ali fazendo exatamente o mesmo que eu. Que todos têm dessa necessidade de solidão na vida, que vez ou outra, precisam escapar do ninho para algum lugar perdido, e beber dessa consciência de estar perdido entre pessoas perdidas. Distante – é tudo tão amável, é tão fácil gostar desses lugares e dessas pessoas com as quais não precisamos conviver, das quais não precisamos conhecer em detalhes os defeitos que carregam como cruz e defendem como filhos, você não acha?

Acontece que desse quadro que contemplo sempre de longe, distraído, descontraído, quase embriagado na beleza do vazio que encaro como expectador descomprometido, desinteressado, dia desses, duas mesas à frente, logo após os dois círculos de madeira tingida de negro, eu admirava outra arte. Não mais tela em movimento, quase me esqueci que estava  no café do cinema, pensei-me no café de um teatro, que você deve saber, não existe por aqui. Foi nesse universo de impossível que sua presença me lançou: arte viva, logo a frente, sentada diante de um expresso, lendo um livro – como eu fingia que fazia. Seus gestos lentos, sutis, quase imperceptíveis, seu piscar de olhos, sua postura, sua aparente ausência. Parecia representar para mim a peça da minha vida. Me senti naquele momento culminante de uma estória em que um encontro muda o curso dos acontecimentos.

Imaginei-me personagem de um desses livros cuja narrativa acontece lentamente, tecendo detalhes da rotina, daquela vida comum da qual não há muito o que contar, e repentinamente, uma decisão aparentemente inocente, resulta no encontro que mudará tudo, transformará a banalidade em aventura – chama de vela que inicia incêndios, chuvisco que evolui para tempestade, mar ligeiramente agitado que se converte em ondas gigantescas. Meu barco não está preparado, era só o que pensava. Por outro lado, eu poderia nadar. Vindo dessa calmaria da qual às vezes precisava escapar, não sabia se queria me livrar dela ou se era nela exatamente onde gostaria de estar. Você ali, naquela pose, naquele ato, naquela performance, parecia me desafiar. Eu sei, se me aproximasse uma vez, se ficasse, não voltaria a ter essa paz, mas teria outras. Uma paz vez ou outra talvez.

Quando me dei conta já não olhava para o livro, já não fingia, olhava diretamente para você, que logo percebeu, mas foi tão discreta. Percebi um sorriso sutil, desses que são bem medidos, contidos, que só aparecem nas pessoas que são donas de si, e sabem bem quando gargalhar, quando levar a ponta dos lábios às orelhas, ou quando confundir alguém através de um gesto breve, delicado e escondido. Um sorriso por trás do véu. Nesse momento eu peguei minha caderneta, e me pus a escrever para você. Não queria estragar o instante, toda essa genialidade do acaso que possibilita transformar a vida em obra de arte. Só havia na minha frente, você e o futuro. Esqueci tudo o que deixei para trás. Não sabia seu nome, não sabia nada sobre você, mas estava decidido.

Nos momentos de encontro estamos sempre decididos, pode ser que alguns dias depois mudemos de ideia, mas aquele é o momento onde a dúvida não existe: estava diante da mulher da minha vida. Não foi a sua beleza que me desestabilizou de tal forma, nem falarei dela, deve estar cansada desses elogios piegas que te descrevem o que está cansada de ver ao espelho todos os dias. Vê ainda mais que os outros, já que para si cada um pode mostrar toda a verdade das formas e detalhes do corpo. Mas como se estivesse mesmo num teatro, diante de uma peça, de um monólogo idiossincrático, foi a sua presença que me atraiu. Uma presença potente, um magnetismo do qual não pude me desvincular, nem mesmo enquanto escrevia aquelas palavras.

Pensava ao mesmo tempo em que escrevia como lhe faria chegar a carta. Se pediria a um garçom que a entregasse, se deixaria discretamente em sua mesa quando estivesse distraída, se esperaria em “minha mesa”, se lhe pediria um lugar à mesa, se iria embora deixando um endereço para contato.  Pensava, perdido entre a coragem e a falta dela, já infectado pelas responsabilidades deixadas em casa, responsabilidades com nome e registro em cartório… Levantei novamente os olhos do papel, como fazia brevemente enquanto escrevia para não perder por completo a delícia imagética da sua presença. Então me dei conta que nestes breves segundos em que meu pensamento se perdeu, já não havia ninguém na mesa. Você poderia simplesmente ter partido, ou poderia estar em qualquer uma das salas de cinema. Poderia estar em qualquer lugar.

Pensei em fazer-me ainda mais louco e ingerir cada nota de sabor desse momento insano que é o encontro, entrar em cada sala de cinema, verificar na penumbra cada rosto para ver se encontrava o seu. Dei ainda uma volta nos arredores após pagar o meu café, para ver se te encontrava na livraria ou na loja de souvenires. Demorei um pouco mais longo mesa onde você esteve, para ver se encontrava algum vestígio da sua existência. Nada além do cheiro e da sensação, e não consegui me fazer tão louco quanto gostaria. Simplesmente fui para fora fumar um cigarro e seguir com a minha vida. Estranhei que a sua presença ainda estivesse ali, e atentei-me para o fato de que não era necessariamente porque seu corpo se encontrasse nos arredores, era apenas a sua presença que continuava em mim, continuava comigo, e seguiria comigo para os próximos dias, sabe-se lá até quando, talvez até um novo encontro.

Miguel

_____________________________________________________

Essa não é a carta a qual Miguel se refere, escrita no café enquanto ele admirava “A Moça”. A carta do café foi entregue a Pedro, um garçom do lugar, junto ao pedido de que, caso ele voltasse a ver A Moça, deixasse a carta com ela. A improbabilidade disso era conhecida de ambos, e nunca antes Pedro vira aquela moça por ali, ao contrário, Miguel ele via sempre. Por amizade e carisma que se tem por aqueles que tão pouco se conhece, mas que a empatia conecta, Pedro permaneceu com a carta, e realmente se esforçou em reconhecer A Moça para entregá-la o papel escrito e endereçado na devida ocasião. Enquanto isso, Miguel não conseguiu se conter, e criou um blog apenas para escrever cartas para A Moça, sendo que o escrito acima foi o primeiro exemplar dessa nova obsessão. Algum tempo depois a namorada de Miguel descobriu sobre o blog, e mesmo que seu autor alegasse que fosse ficção, ela pediu que ele acabasse com isso ou o namoro estaria acabado. Ele continua escrevendo para A Moça, agora com menos uma responsabilidade “com nome e registro em cartório”. Todavia, A Moça ainda não apareceu… Dia ou outro Miguel pensa que inventou A Moça só para dar algum gosto diferente à vida.

Carta-desabafo de uma jovem que não queria ser comida como um pão

Comfreak on Pixabay - https://pixabay.com/pt/homem-corpo-nu-humanos-humano-845847/

enviado em 29 de março de 2012 1:39

“Não precisa fazer cu doce, eu só quero te comer.”

Essas foram as suas palavras de ontem. Em um segundo me lembrei de como nos conhecemos. Sim, foi algo recente, mas vou te lembrar: estávamos em uma festa, na qual eu não conhecia ninguém, recém chegada na cidade, tentava não ceder ao isolamento, embora nada ali me fizesse gosto de fato. Você iniciou uma conversa, me concedeu elogios pouco gourmetizados em comparação à declaração citada: inteligente, interessante, diferente, blá blá blá. Contou-me sobre seu receio da mediocridade, sobre sua família, sobre seu cachorro, sobre seus sonhos, suas frustrações. Eu ouvi e pensei que estava conversando com uma pessoa.

Passado um ou outro dia nos encontramos por aí, conversamos, conquistou-me até, um jeito estranho, parecia ter algo de uma pessoa que não fosse “mais um” seguindo as normas de negligenciar o outro em detrimento de morais ou egoísmos, os quais, honestamente, para mim, ocupam o mesmo piso. Eu, que não me prendo a velhos valores, convidei-o para tomar um vinho, mostrar meus livros, filmes, trocar estas experiências humanas, que até então pareciam lhe interessar. A mim interessavam. A mim interessa o humano. Vivo dessa ilusão de que ainda posso encontrar algo de humano em meio aos clichês comportamentais nos quais os homens tendem a se camuflar.

Te percebi um pouco impaciente, mas ignorei. Tudo bem até o beijo, não nego que me agradava a ideia, e então você veio além e te interrompi. Foi aí que você revelou a sua verdade: a de um homem faminto, a de um homem vazio. Meu caro colega, se você queria apenas me comer, para que se deu tanto ao trabalho de toda essa lorota sentimentalista e intimista na qual se embrenhou? Por acaso, também queria algumas sessões de terapia gratuitas, e se envergonhou em assumir? Se queria apenas me comer, tivesse sido claro desde o início, e teria logo uma resposta objetiva para o seu desejo objetivo.

Não vejo problema no sexo, acho natural, acho humano: isso não significa que eu esteja interessada em ter essa experiência com qualquer um e de qualquer jeito. Se isso é tudo o que você queria, dessa forma fria e vazia, bastaria ter me falado. Respeito que alguns estejam restritos a esse tipo de envolvimento, e às vezes isso é tudo o que uma pessoa precisa, no entanto, que fosse honesto em não subestimar minha capacidade de julgamento. Penso que como tantos, você é hipócrita demais para ser tão direto sobre as suas intensões.

Quer comer? Fale, assuma, isso te faria de fato uma pessoa interessante. Agora, desrespeitar meu tempo, minhas impressões, meus sentimentos, ou o de qualquer outra pessoa dessa forma, isso é doentio. O pior é que dessa doença epidêmica que assola as relações, as consequências não afetam apenas os seus hospedeiros, mas também aqueles com os quais eles entram em contato. Sinto-me doente, e dessa doença, tenho sofrido a dor de uma certa incapacidade de sentir. Sentir para quê, se no fim das contas só querem te comer?

Lembro-me que já pude sentir tanto, e por mais confuso e desastroso que fossem todos os resultados, todos os atos, todos os pensamentos, ainda assim eram, simplesmente naturais. No entanto, sentir é troca, e com o tempo, essa capacidade se deteriora quanto desgastada em aventuras unilaterais. De certa forma, essa sua expressão maquínica e caricatural, colocou-me em contato comigo mesma, com minhas experiências mais longínquas que me levaram a essa afetuosidade intelectual. Desse esconder-me no conhecimento para não correr o risco de perder os resquícios da minha capacidade em me afetar pelos homens.

Percebo que agora, envolvo-me em discursos e perco as pessoas no meio do caminho. Perco os afetos. Estendo os braços para eles, e não os alcanço. Longe de mais. Estou longe de mais. Não se mede em quilômetros essa distância. É um pacto diabólico consigo mesmo de não sentir. Para quê? Para proteger os sentimentos de pessoas como você. Para não se ferir, para não se fazer vulnerável.

Por outro lado, me dou conta de que mesmo depois de todo esse tempo, continuo frágil – ainda vulnerável, ainda instável, ainda impulsiva. Fui acumulando meus erros com nomes registrados em cartório, com rostos que logo se perderam na memória. Uma memória que já não funciona como deveria. Fisiológico? Psicológico? Não sei. E não poderia dizer – não ainda, – que agrido o meu corpo com tanta assiduidade para tê-lo deteriorado tanto. Às vezes tenho a impressão, de que minha memória se perde para proteger-me da autodestruição, e continuar errando na vida, até encontrar alguém que tenha uma alma, que tenha algo para ser compartilhado, e não para ser consumido como um pão.

Quando escuto um outro dizendo que quer me comer, enxergo-o como um zumbi, um ser que uma vez foi vivo, uma vez foi humano, mas que perdeu toda a sua capacidade para além das necessidades animalescas tão primitivas, que nem aos animais se compara mais. Um morto-vivo, que amargurado na sua perda de humanidade, incapaz de viver ou de morrer, se empenha também em tentar tornar assim os outros ao seu redor.

Essa indiferenciação objetificante nos ancorando à rótulos. Nos distribui em prateleiras de supermercados, com código de barras e tudo, afinal, é preciso saber identificar o valor de cada um. Todos ali, prontos a receber o julgamento dos consumidores, que também são produtos. Nessa lógica de consumo do outro, compreendo sua indignação à minha recusa em ser consumida por você, tão digno disso!

– Querem te comer. Querem te usar. Querem te vender. Querem te comprar. Querem te moldar. Querem te descartar. – Conte-me o que prefere? Como se ser objeto já não fosse suficientemente indigno de qualquer pessoa que preserve – e ame – o seu resquício de humanidade.

Quem quer te amar?

Falam de amor – falo também -, falam de idades – falo também -, falam de gêneros – falo também -, falam de sexo – falo também. Falam de tudo falicamente. Não há discussão ou pretexto que convença o troco do falado. Falas aleatórias. Quem pratica? Exceto pela diversão em discutir com quem sabe fazê-lo divertidamente, descomprometidamente – tão raros, desses que não nos magoam com as mais cruéis objeções, ou ainda aqueles que o fazem honestamente, sem bajulações e dissimulações; as relações são como um tribunal: réus, juízes, jures, público, – circo. Somos tudo isso ao mesmo tempo. Argumentamos para conseguir o que queremos – momentaneamente. Quem precisa se responsabilizar pelo que diz afinal? Adultos? O que é isto?

Argumentos. Para sermos advogados de nós mesmos, temos como arma principal tocar nas feridas alheias. Aquelas que podemos ver. Aquelas que podemos sentir. – Por que sentir o que há de pior nas pessoas? Que carma perverso escolhemos para nós mesmos! – Como se precisássemos ser adultos para termos instintos, como se precisássemos ser adultos para desejar, para ceder a um impulso – é preciso ser adulto para comer? Esse é o seu melhor argumento? Somos adultos! É prazeroso ver as coisas acontecerem como quem não se importa, como quem não se incomoda? Ver até onde as pessoas podem chegar, usando-se como instrumento, consumidor e produto de si mesmo? Deprimente!

Não é de surpreender que o resultado seja uma deficiência de serotonina. – Pode ser suprida com pílulas relativamente baratas. Talvez o grande problema seja o fato de estar acostumado a conviver com pílulas, as quais ingere e lhe dão um prazer momentâneo sem objeções. Essas pílulas te fazem homem? Te fazem humano? Qual é a ilusão que te consola, por trás da frieza a qual se esforça em esboçar na dissimulação?

Parece fácil viver uma vida que tenha um preço, que tenha um objetivo – objetivo de suprir-se de suprimentos para substituir algo que velhos poetas – velhos amigos – chamavam de alma. Um videogame, prostitutas, um computador, religião, uma TV – uma grande TV, última geração de equipamentos sonoros, álcool, internet, “food”, jogos, drogas, jogos, sexo, jogos… Fosse a vida um jogo onde pudéssemos ter vidas enquanto quiséssemos para recomeçar e fazer melhor…

A mim, a vida mais se parece com o teatro – apresentação única -, onde tudo não é o que parece, nada parece o que é, e não há como corrigir erros, camuflar esquecimentos – a não ser por improvisos. A vida mesmo, é como uma peça improvisada. (Qual o papel que escolheu para si, meu caro? O de comedor? É tudo o que te resta no palco da vida?)

No fim das contas, não me importa, afinal é tua escolha ser assim. Gostaria apenas que você fosse mais honesto, gostaria que tantos outros fossem mais honestos. Mas vocês são espertos. Me dou conta do quanto minha honestidade é fonte de problemas. Ninguém quer lidar com a verdade, ninguém quer encarar os próprios demônios, mas eu descobri que quero: esta é a minha doença e a minha cura contra investiduras como a sua. Você não me feriu, mas me abriu para a minha dor esquecida, para a minha humanidade quase marmorizada em versos. Este era o golpe que me faltava para enxergar, que por poucos passos eu acabaria como algo assim – uma caricatura de mim mesma.

Volto a sentir em explosões, e dos meus atos, pensamentos e ações, alguns dirão que preciso de um deus no coração, alguns dirão que preciso resolver questões familiares, outros dirão que preciso de um analista ou de um terapeuta, outros dirão que preciso de um médico, outros dirão que irei rir de tudo isso um dia. Tantos dirão…

Sim! Muitos acabarão assim. Com um deus no coração, resolvendo problemas familiares, procurando analistas, fazendo terapias, consultando médicos, rindo de tudo isso. Rindo e trabalhando, rindo e levando os dias, rindo e deixando os dias passarem, rindo e se escondendo das suas desgraças, rindo e ignorando os sonhos, rindo e se esquecendo de quem são, rindo e adoecendo, rindo e morrendo sem ter vivido. E enquanto riem-se, esperam encontrar por alguém que os entenda, mas nunca encontrarão, por se esconderam de si mesmos. Temem revelar-se para além dos figurinos desgastados. Tem que ser assim?

Eu pensei nesse ato de escrita e direcionamento como um desabafo, mas no fim das contas, tudo continua muito entalado e sufocante. Uma bulimia emocional não é opcional, é mais como uma vocação. Ó senhor! Estou curada? Ou condenada à enfermidade de sentir?

P.S.: Isso sim, meu caro, é um drama.

Passe bem.

Bárbara

______________________________

E-mail enviado por Bárbara a Gustavo, uma das primeiras pessoas que conheceu em uma cidade isolada, onde fora para trabalhar por algum tempo e tentar juntar dinheiro. Recebeu como resposta do seu interlocutor o seguinte comentário: “Você escreve muito bem, parabéns! Minha única observação é que você, se fosse um filme, seria algo do Godard, e eu prefiro filmes comerciais americanos.”. Quando se conheceram, um dos principais assuntos entre os dois foram sobre filmes do Godard, os quais Gustavo dizia serem os seus preferidos.

Carta de gradidão por Aline a suas ex-melhores-amigas

Cartão Postal de Perth

Perth, Austrália, 27 de junho de 2013

Faz muitos anos… Eu me lembro, que algumas de vocês eu conheci no primário. Tínhamos um grupo inseparável, quatro meninas inseparáveis. A nossa inocência não era do tipo idealizada pelas pessoas quando se tornam adultas, como somos agora, e desse esquecimento do que foi de fato a infância eu não fui vítima ou não tive o privilégio. Brincávamos sempre juntas, lanchávamos juntas, compartilhávamos nosso amores e nossas antipatias. Tão cedo achávamos que sabíamos sobre o amor e a antipatia. Talvez soubéssemos mais naquela época do que agora: não julgávamos a não ser por nossos instintos, pois ainda não estávamos infectadas pelos moralismos sociais. Entramos juntas no ensino fundamental, tantas pessoas a mais: novos amigos, novas brincadeiras, novos estudos, novos amores. Dispersamos, mas nos mantivemos de alguma forma naquele elo que me fazia acreditar em amizades eternas.

Outras de vocês conheci mais tarde. Eu ainda gozava daquela ingenuidade que fazia crer nesse sentimento amigo que ultrapassava barreiras mais do que qualquer laço de sangue. Creio que isso vinha do meu hábito de ler demais, e por vezes confundir a nobre fantasia que encontrava nos livros infantis com a realidade. Compartilhamos segredos, intrigas, sonhos, festas e a maturação inevitável, deliciosa e constrangedora do corpo e da mente. Acreditava que cada nova amizade era infinita, e que nesta relação eu poderia ser simplesmente o que era. Nunca me considerei nociva, mas sabia, tanto internamente quanto pelas insinuações contidas nos nomes que me eram destinados, que essa diferença se fazia presente. Não era uma diferença física, não era uma diferença intelectual, não era uma diferença dessas que usualmente são condenadas ou glorificadas pelas convenções. Uma diferença sutil, quase incômoda, uma diferença de ser, que para mim, todos dispunham, e portanto não me incomodava.

Eu mantive a espontaneidade, e meu universo crescia com as novas experiências, novos livros, novas amizades, novos amores, novas desilusões. Tive a crença de ter vocês ao meu lado, no entanto isso foi uma realidade até o ponto em que essa expansão foi aceitável. Lembro que todos riam das coisas que eu falava, ou me perguntavam sobre algo que eu respondia de acordo com o que lia ou pesquisava, coisas que para mim eram pura curiosidade e descoberta. Eu me encontrava desprovida da maldade em saber que essas palavras poderiam engendrar calúnias em bocas más intencionadas. Lembro que vivia e corria atrás dos meus desejos como a adolescência pede: livre de pensar nas consequências. No entanto, eu tinha plena consciência de não estar apta à autodestruição – simplesmente não via mal em nada do que fazia, sentia que era preciso descobrir o mal das coisas na experiência e não nos relatos herdados por quem nunca os fez.

Experimentei muitas sensações, produções, conversei com pessoas que eram desprezadas ou excluídas no âmbito tão precariamente democrático e libertador da escola. Tornei-me tão rápido um alvo que a realidade me veio como um rompante. Dessas amizades coloridas, meus primeiros amores amigas, não diria sequer se transformaram em preto e branco pois deste não tragaram a elegância melancólica ou saudosista. Sem cor digna para dar nome, nem sequer transparência honrada, naquele tempo não pude dar conta que a infinidade daquelas amizades residia no suspiro de um momento, como paixões calmas, que se prologam mas não se firmam em amor. Lembro-me desde o momento em que comecei a ser evitada até o momento em que na rua me viraram a face. Lembro da fantasia e da realidade que me direcionaram pela descrença em que eu fosse “dar em alguma coisa”.

Toda este escândalo que eu fui para vocês e para alguns outros baseado simplesmente nas vivências do caminho da minha sexualidade, da minha libido presente na vida, da minha sede por experimentações, da criticidade do meu pensamento, da minha insistência em não excluir nada nem ninguém imediatamente baseada apenas nas convicções miseráveis que me eram doadas. Que mal havia, para vocês ou para quem fosse, se beijasse um menino, ou uma menina, se fosse um ou se fossem três? Que incoerência, de fato, configura uma perspectiva romântica com um olhar sobre o sexo? Então, me pergunto, tão pudicas e mesquinhas, não podiam lidar com essa realidade na vida? A de que somos seres sexuais também? Bom, alguns dirão que era mais do que isso, houve um tempo em que eu experimentei cigarros, e ainda os delicio com prazer, obrigada. Também experimentei bebidas, e continuo a experimentá-las, também com prazer, obrigada. E continuo a ler meus perniciosos livros de filosofia e literatura, ainda com mais prazer, obrigada.

Devo mesmo agradecê-las todas pela exclusão oriunda da minha insubmissão em comportar-me de forma equânime. É verdade, vocês não sabem, sempre odiei certas maneirices de menina, como brincar de boneca ou de casinha: enfadonho e entediante eram palavras que não conhecia, mas que definem bem o que eu sentia. Mas eu me sacrificava, para estar perto das minhas queridas. Acreditava que as relações precisavam disso, desse pouco de sacrifício vindo de todas as partes envolvidas, para que ninguém se sentisse arrancado de sua natureza. No entanto, aos poucos vi que eu seguia fazendo esse sacrifício sozinha, e logo aprendi que ao não me submeter encontraria a solidão. A encontrei bem, espaço vazio, amplo, onde podia correr livremente o vento, espaço no qual se podia voar. Passado o tempo, as dores dessas descobertas, seguidas de uma sequência de erros, mas sempre em busca de mim, passado o tempo me encontrei. Encontrei também novos amigos, novos amores, novas experiências, novos lugares, novos ares.

Já não encontro vocês por aí na rua para ter o privilégio de passar como uma desconhecida, hoje não porque me virem a cara, mas pelo fato de eu continuar não sendo afeita à hipocrisia, e continuar sendo espontânea o suficiente para que vejam em minha atitude educada em retorno da insistência o desprezo instalado na face. No entanto, nestes últimos dias, quando me senti intensamente satisfeita com a minha vida, quando me vi tão distante e tão como gostaria, sem todas essas conquistas impostas pelas convenções que nunca me convenceram, eu quis agradecê-las. Agradeço que mesmo enquanto ainda se passavam por minhas melhores amigas, tenham preferido convidar estranhas para dançar em suas valsas de 15 anos do que a mim, e que tenham me ignorado nas festas para as quais me convidaram não entendo muito bem porque, e por terem falado de mim pelas costas e sorrido em minha fronte até que eu descobrisse aos poucos a farsa, e que tenham me julgado, e que tenham me marginalizado. Agradeço a descrença em desafio, e as crenças errôneas que construíram acerca das minhas ações. Agradeço ao esnobismo e as desilusões.

Esses entraves nunca me fizeram desacreditar na vida, me fizeram apenas desacreditar em vocês. E graças a esse espaço tão amplo que me deram, eu pude voar. E agora tão longe, ainda me lembro. Sem ternura, sem mágoa: com muita gratidão. Desejo, honestamente, que tudo ao qual se privaram na vida também as tenha levado ao lugar dos seus sonhos. Se não, acredito que ainda há tempo, pois ainda somos jovens. Eu sempre estarei aberta a novas amizades, aos que não tremem e praguejam diante das novidades.

Minhas honestas felicitações. E que se tiverem filhos, para a felicidade deles, os ensinem a serem menos domesticáveis e preconceituosos.

Abraços a todas!

Aline Correia.

__________________________________________________

Carta enviada por Aline aos e-mails e redes sociais de suas amigas de infância, com as quais não tem contato desde a adolescência. Aline cresceu no interior, e foi muito estigmatizada por seus pensamentos e comportamentos diferentes do que os costumes esperavam de uma mulher, e, principalmente, por defender que uma mulher poderia fazer o que quisesse, assim como um homem, desde que não estivesse prejudicando a ninguém. Era conhecida também por não ser afeita a ideia de casamento, por não achar justo que apenas a mulher se responsabilizasse pelos serviços da casa, por falar abertamente sobre sexo, política, sociedade, ter gosto por jogos e pela vida noturna. Certamente, naquele contexto, isso não lhe rendeu uma boa fama, e vários boatos foram inventados para justificar a “depredação” verbal que direcionaram a ela. Na ocasião dessa carta, a remetente estava no ápice da realização de seu sonho, fazendo doutorado em arquitetura no exterior, onde também havia acabado de conhecer o seu futuro companheiro, com o qual irá se casar em uma cerimônia Maori

Carta a um desaparecido

papel ao vento

 

Semana passada eu ia pelo corredor em direção ao meu quadrado, relutante em desligar o MP4 e interromper “Piligrims”. A música abafando os sons externos, mas internamente minha mente tagarelava: “Aqui estou eu novamente, ouvindo música de André”.

Musicas de André me acompanhando no ônibus, músicas de André trilhando meus sonhos, meu sono. Músicas de André apresentadas a outros ouvidos e outros lábios. Músicas de André empurrando meus sonolentos passos pelas ruas labirinticamente organizadas da cidade caótica. Músicas de André que se tornaram minhas e expandiram. Músicas de André preenchendo o silêncio de André, que se foi.

Golfei um vômito ralo de palavras que nunca o alcançaram. Mando então uma carta ao vento – canibal de palavras descartadas. O vento que tem natureza como a sua, que vem já para desaparecer. Vento de aparições previamente planejadas para despedidas silenciosas e repentinas.

Fui para o alto da serra, esconderijo da ventania volátil de ares que apenas passam – nunca permanecem. Joguei seus olhos para o verde das árvores e dos capins insignificantes. Joguei suas palavras para o ruído das folhas e das águas. Joguei suas promessas para o azul e para o infinito. Joguei seus odores para as flores, suas formas para as pedras, seus movimentos para os pássaros.

Fiquei com as músicas e voltei para os corredores. Joguei sua poeira no carpete no qual piso quase todos os dias e minha esperança, joguei pela janela.

André continua indo,

fugindo da carta jogada ao vento…

_______________________________________

>> Carta sem assinatura, sem localização, encontrada perdida aos pés de uma serra qualquer.

Carta de Maria Bezerra ao Secretário de Saúde Pedra Pequenence

hospital-bed-315869_640

São João da Pedra Pequena, 21 de Setembro de 2006

Ilmo.

Sr. Secretário de Saúde, Arquibaldo Serra,

Venho manifestar, enquanto cidadã brasileira e pedra pequenence, minha preocupação com o descaso risível e explícito nos serviços de atendimento em saúde pública. Como crendo, e assim deveria ser, que já tem conhecimento de toda a questão burocrática que envolve a miséria intrínseca ao cenário do nosso sistema de saúde, trago aqui um relato, na tentativa de tornar concreta e visível todas as especulações estatísticas e pseudo-teóricas típicas dos discursos políticos.

Há uma semana estive no hospital local, o único da cidade e da região num raio de 95 km, para visitar uma parente. Felizmente, posso considerar que tive sorte, dias antes esta conseguiu um leito para internação. Sem entrar em detalhes sobre as condições precárias que afetam até mesmo o interior do hospital, choquei-me com a situação que acompanhei, externa ao meu universo particular, mas inegligenciável uma vez que me encontro na condição de ser humano.

Ao chegar na entrada do hospital me deparo com um verdadeiro caos, haviam leitos espalhados por todos os cantos, inclusive na entrada do Pronto Socorro. Os moribundos estavam abandonados a própria sorte, como se fossem corpos no limbo aguardando a decisão arbitrária entre a vida e a morte. O fedor de urina, sangue, suor e doença era contagiante, fazendo revirar mesmo os estômagos habituados com a crueldade característica do nosso estilo de vida blasé que se acostuma a ignorar cotidianamente a miséria circundante deitada aos nossos pés todos os dias, até que ela nos assole.

Gemidos de dor e desespero evaporavam como o odor de álcool, onipresente. Ânimos alterados gritavam em cada canto do cubículo de espera. A segurança do hospital pousava para a paisagem caótica com máscaras truculentas. Era difícil sair ou entrar. Parecia impossível entrar, para os que mais precisavam. Perplexa diante da cena em que me encontrava, por um momento me esqueci do meu drama pessoal, e tive a impressão de ter errado o caminho e chegado, ao acaso, na entrada do inferno. Já não conseguia mais distinguir em que tipo de ambiente me encontrava: uma prisão, um manicômio – o purgatório talvez. Parecia tudo, menos um hospital. O que é um hospital para você ou para qualquer um que recebe mensalmente uma quantia mais de cindo vezes maior do que a maioria da população, e, portanto, nunca precisará passar por situações como essa?

Em minha imobilidade contemplativa do horror trágico do que ali se passava, ouvia rumores de um novo surto de dengue. Meus olhos encontraram o olhar opaco e perdido de uma senhora, sangue lhe escorria pela boca e seu acompanhante, que parecia ter, no máximo, acabado de completar seus 18 anos, estava simplesmente, tão mórbido quanto à infectada. Já não havia mais, sequer, a revolta de alguém capaz de lutar por seus direitos. Ausência total de esperança contrastava com a agressividade daqueles que ainda encontravam forças em seus diafragmas para clamar pelo que lhes é legalmente garantido.

Ouvi de espreita enquanto entrava, já que diante da impotência o movimento pesado e restrito era a minha única saída, ouvi os recepcionistas rotulando de “frescura” os lamentos dos doentes dali. E quem pode culpá-los pela crueza e ignorância, se, aposto, sequer treinamento para se tornarem mais “humanos” nunca deve ter acontecido por ali? Pois é Sr. Secretário, é que nestes tempos em que temos vivido, não sei se já percebeu, as pessoas andam precisando ser treinadas para serem humanas…

Adentrando ao hospital, a cena não mudava muito, sem condições, a atenção necessária ou qualquer cuidado, leitos estavam espalhados por todos os lados, estreitando os já apertados corredores em que enfermeiras e médicos estressados se espremiam. Quem preferirá trabalhar nestas condições a abrir um consultório particular? Já não se trata de uma questão de humanidade, mas de amor próprio. A ausência de materiais adequados era visível, e ao ouvir o comentário de um médico sobre a impossibilidade de fazer determinado exame em tal pessoa que estava em estado grave, tentando encontrar junto à outra cabeça algum malabarismo para não perder aquela vida em suas mãos, orei a Deus (se existe) que tivesse piedade desse interior esquecido de Minas Gerais.

Os olhos do profissional de jaleco branco estavam rodeados de escuridão, de noites mal dormidas, de má alimentação, de preocupação. Provavelmente era recém formado, caso contrário, estaria já bem endurecido. É o que ocorre com o tempo, pois subindo as escadas para a disputada CTI, tive o infeliz insight de que aquela realidade era quase cotidiana, e se eu a desconhecia era apenas por raramente necessitar dos serviços de saúde, pública ou não.

Enquanto lá pela porta fui interrompida, a notícia fria me chega como um baque surdo aos ouvidos: a morte. Já não me abalou tanto como seria se me encontrasse em alguma caricatura de paraíso. Tanto a desgraça sambou no meu caminho, que senti alívio por minha tia ter partido em paz, em vez de na esperança falsa de recuperação definitiva, ao retornar moribunda àquela fila, morrer na porta como uma vagabunda.

E o que quero com este relato?

Que sejam treinados Secretários, que sejam treinados Prefeitos, que sejam treinados Vereadores, que sejam treinados todos vocês políticos, para aprenderem a ter um pouco de humanidade. E assim, quem sabe, teríamos serviços de saúde dignos da condição de fragilidade da pessoa que tem o corpo invadido pela doença.

Agradeço os olhos que estas palavras percorrem, que eles tenham sempre saúde, e que nunca precisem do serviço que vocês oferecem, caso contrário, meu caro, só lhe restará consolo na cegueira literal, porque a metafórica pelo visto, é condição para ocupar esta posição magistral.

(a)Cordialmente,

Maria Bezerra da Silva

_________________________________________

Carta deixada por Maria Bezerra na caixa de correio do Secretário de saúde da sua cidade. Diante da ausência de respostas, cópias da carta foram coladas em alguns postes do local. Trata-se de uma cidade pequena localizada no interior, que foi assolada por uma epidemia de dengue para a qual o hospital local não tinha estrutura (não tinha muito estrutura para basicamente nada, na verdade…). O manifesto inflamado de Maria contagiou outros cidadãos, que começaram a manifestar também a sua revolta antes silenciosa. Para conter a população, o Secretário tomou algumas medidas mínimas, que não adequaram as condições do hospital, mas melhoraram o estado de insalubridade e abandono em que ele se encontrava. Todavia, o povo acalmou. Passado um mês, Maria perdeu seu emprego. Passados seis meses, ela não conseguira encontrar outro emprego. A referida assistente social teve que sair da cidade com seus dois filhos, para pelejar a sobrevivência, e apesar do aperto, decidiu fazer medicina. Após formada, a Srª Bezerra retorna à cidade com o sonho de modificar alguma coisa daquele contexto no qual viveu e o qual presenciou. “Foi uma volta assustada…”, ela conta, “passei mais de sete anos fora, e nada mudou!”.

Carta de despedida de um Ideal

Amor farpado

Ouro Preto, 14 de março de 2014

Não. Eu não posso ser essa pessoa que você acredita que eu seja.
O que você vê trata-se apenas de uma possibilidade no universo de um ser.

Essa nuance que você escolheu enxergar, talvez a mais frágil dentre tantas outras, não compete se não em uma fina mucosa superficial, exibindo combinações reluzentes e híbridas de tantas outras camadas que, desordenadamente não respeitam hierarquia alguma: trocam de lugar, se misturam, se extinguem criando novidades.

Esta pessoa que você enxerga é apenas o vislumbre de um momento que já foi. Aquele no qual você pôde se deslumbrar e se deliciar, mas que desintegrou-se ante a vasta consciência que captura até mesmos os mínimos gestos, as mais sutis vibrações de uma variação energética no ambiente. O mais sutil tremor de um átomo que seja.

Esta imagem voluptuosa que criastes ao me ver, ao entrar em contato com a minha infantil e ingênua alegria de pessoa aparentemente despreocupada, na verdade, não passa de um espasmo de ilusão que lhe cativou os olhos, cegando-te de todo o resto… Talvez por isso tenha ignorado minhas sutis insinuações para além das formas carnais, para além do romance adolescente. Sondando as fronteiras dos seus possíveis interesses, me dei conta que começavam com as carícias e morriam com os últimos gemidos de gozo.

E então, foram-se extinguindo os sorrisos, e toda aquela criatividade que sua presença me instigava, tão genuína quanto quando estou só. Pois essas peripécias do meu modo de ser que tanto apreciava, vinham da mesma fonte daquilo que com preconceito arrogante preferiu ignorar. O que para mim havia de mais importante, e pelo qual vivia, recebia seu silêncio de expectador restritamente clássico.

Eu que já fui longe demais para voltar a conceber a vida como uma tragédia, e que já cruzei alguns mares duvidosos para me limitar aos dramas de Shakespeare, percebo que logo, e tão cedo já manifestou-se o crepúsculo de nossa paixão. Este tão fácil que logo te cansa, este tão rápido que nos instala o medo, este não falar que nos deixa na escuridão, este não ver que nos impede o reconhecimento um do outro.

Permanecemos como cegos nos tateando no escuro, insuflando prazeres sem cor. No entanto, o instante findo, minhas pálpebras desesperadas por novas cores inebriantes recusaram-se a permanecerem fechadas, e como todo o meu corpo é errante, é inevitável que eu parta.

Preciso de cores, cores vivas, cores mortas, cores múltiplas, novas formas. Não poderia permanecer acorrentada vendo-me presa só, como estão todas as presas. A princípio pensam que se conectam ao outro, mas logo o veem correndo ao largo, enquanto permanecem sufocadas e estáticas, penduradas à uma armadilha que as posicionam de cara com o olhar delimitado do precipício.

Esta presa frágil que desejas que eu seja, não poderia nunca ser. Vejo tantas que se desfazem da leveza alegre e ambígua da liberdade, e sucateiam sua brandura pela amargura de se instalarem em uma gaiola de promessas fictícias. Perdem suas subjetividades pela aceitação de tentar ser a imagem do objeto que fantasiaram acerca de si, tudo por um pouco de amor que nunca chega. Que nunca chega porque nunca basta e nunca é. Nunca estaremos satisfeitos enquanto buscamos no outro o alimento oriundo do introspecto.

Por isso eu vou, mas não sem alguma tristeza. Pois pude vislumbrar todos os brilhos e fagulhas resultantes das nossas misturas. E poderiam ser tanto, e poderiam ter criado tantos outros universos! E como eu gostaria de explorar, e quem sabe habitar um pouco outros universos. Mas eu, inacessível diante da sua recusa em ver, oculta pelo ideal que como muralha entre nós se interpunha, jamais teria passagem para este novo, o novo que jamais viria então, pois ideais são descartáveis demais para criar.

Vou, mas não sem algum pesar, e faço conhecer a deixa, de que continuarei sólida, visível e difusa, com todas as minhas cores confusas e que trocam de lugar, com todos os meus doces e amargores que as vezes se misturam em humor perverso, com todos os meus mistérios de sempre e revelações de uma noite, para quem sabe, os seus olhos livres dessa alucinação de mim, me encontrem por aí.

________________________________________________________

>> Carta nunca enviada por Sophia F. a Willian. Minutos depois que ela terminou de escrever recebeu uma mensagem do seu potencial destinatário, e através de uma breve conversa, ele a convenceu a encontrá-lo naquela noite.

Inline
Inline