De um amor pródigo para o infinito

Amor pródigo

Já faz algum tempo. Eu aprendi árduo a saber que o tempo, medida precisa, é um sentimento solitário. Os dias correm em mim como água salgada. Sinto-me enrugada como um afogado. Encharcada. Me perdi em oceanos lodosos – lá no fundo tem um museu de náufragos. Temi dos dias doces o fim. Nunca foram. Tive medo dos rios, porque vão em uma direção só. Nunca voltam, nunca viram, nunca revoltam. Os lagos – nunca vão. Nunca soube: lago, rio, mar? Azul, apenas. Eu não sou bem lá navegante.

Ser do ar, dos voos longos no infinito estável. A transparência do que se sente, mas não se vê – vento, ar – “você já respirou fundo hoje?”. Agora percebo: azul-céu. Talvez água apenas por medo. Mas azul no céu inteiro. Não percebi antes. Mergulhar era modo de dar fim. Navegar sem ser navegante, mergulhar sem ser água, condenar o azul… que culpa? Azul no céu inteiro.

E eu mergulhei tanto sendo ave, não percebi. Não era água, era céu. Fui tão longe e sempre sob ele – dei as costas. Nunca vi. Agora contemplo, de longe, todo o céu que ignorei. Como não soubesse mais alçar voo, repouso no receio. – “Preciso trabalhar, tenho asas para sustentar!”. Quem sabe um dia, o tempo. Os dias correm em mim como uma gota de suor gelado. Sinto calafrios como um febril. Já faz algum tempo. Um sentimento solitário.

Falo, sei, como se fossem anos. É que eu sou do tempo dos relógios de areia e das viradas de lua. Eu não tenho os segundos em meu favor. Todas essas subdivisões… O corpo sente o tempo a cada morte, estão todas em mim, cada morte, acontecendo, enquanto o tempo, cada célula que nunca viveu mais que um suspiro, o corpo revolto, a dor, todas querem uma chance, mas é apenas um dia, nada mais que um dia para viver. Mas eu aprendi que o tempo é um sentimento solitário. Eu tentei te contar…

Enquanto estive voando à procura do azul, eu nunca parei para olhar o céu. Via-o apenas refletido no mar, nos rios, nos lagos. Eu nunca soube se. – Mergulhei. E no fundo havia lodo – um museu de corais confusos. Nenhum azul. Me perdi. Agora, deserto de nós. E eu não sei voltar para casa. Vejo azul, de longe. Os dias correm em mim como areia fina. Sinto-me como o próprio tempo que aguarda.

Já faz algum tempo. Muitos tempos sucessivos. Eu tenho os dias. Nenhum segundo em meu favor. Vivi ciclos inteiros de história a cada semana. Tive guerras civis, revoluções, civilizações que vieram e já se foram, fui início e fim do mundo, mas agora, sou apenas um pássaro encharcado tentando redescobrir como pôde voar sob o céu sem nunca parar para vê-lo…

O meu pequeno coração de ave é do tamanho do mundo, mas às vezes não se cabe. Sinto todos os ares em mim e não sei se expansão ou explosão. Inspiro e expiro. Os ossos finos, feitos para vagar de braços abertos, atrofiados e trêmulos pelo mergulho prolongado. Os olhos, a chave, será tarde demais? Mas. Eu sempre pensei que fosse tarde demais.

Outra primavera se aproxima. O tempo. Esse sentimento solitário. Os anos entre nós. Pensei até que tivesse que lutar: armei-me de nadadeiras imaginárias. Tão estranho. E agora? Imóvel. Eu não sei voltar para casa. Distante, eu vejo o azul. Não sei se posso. Aguardo um sinal. Um convite. O cansaço. Os dias correm em mim como o inverno russo.

Essa ilusão de repouso. Essa ilusão de passado. Eu vejo as fotos da sua infância com sorrisos de ternura. Conheci os afetos do inexplicável. Como fosse um reconhecimento inverso de quem um dia no início conheceu e há muito tempo não vê, mas sabe: é. Eu me recordo do que nunca vi como se o tempo implodisse. A vida. Esse sentimento infinito. Esse amor solitário, como o tempo sentido – eles se entendem. Invento involuntárias lembranças de quem namorou em silêncio, naquela ingenuidade satisfeita e sem cobranças que não sabe o que esperar do amor, apenas sente. – “O menino está vivo?”

Um lance de dor corta minhas divagações. “Eu tenho asas para sustentar, e elas estão imóveis”. Imagino que o menino, estivesse vivo, me irritaria com travessuras, me desorientaria, me desnortearia, me faria sair do lugar. Essa ilusão do vir de fora. Essa ilusão de repouso de quem não sabe o que fazer. Imóvel, eu olho o azul. Não há para onde eu possa ir que não seja céu. Eu tenho asas que me sustentam. Enquanto eu permaneço aqui nessa inércia, sinto o tempo – sentimento solitário. Os dias correndo em mim como navalhas. Tudo me pede para sair do lugar.

Mas eu não sei voltar para casa…

Contra parágrafos curtos e subtítulos, eu desejo que você tenha uma vida inteira

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Você não me impediu quando disse. Foi uma hesitação nas mãos, um cinismo no olhar. O alerta conversou diretamente com meu instinto. Investi em lavradios lascivos, ilusões de esquecimento, afronta. Sempre fomos guerreiros orgulhosos de seus postos. Não importa, eu bárbaro, você nobre. Eu sei. As almas se reconhecem, mas disso nunca se fala. Só os loucos falam. E quando fui louco você me impediu com palavras. Palavras duras. Eu sei. Era tudo o que você tinha. Atacamos tanto mais ferozmente quando mais indefesos nos sentimos. Não precisava. Eu calaria, ficaria imóvel, imobilizaria o mundo mesmo diante do seu sussurrado não. Sussurro sincero fosse. Eu pararia, eu retornaria para a terra de onde vim. Eu nunca me aproximei muito mesmo, eu sentia tudo muito dentro, muito longe do espaço. Me embaraçava até. Você ria da minha inexperiência. Eu pensava que se divertia. Talvez você me zombasse. Eu não sei. Acreditava muito no que via por trás dos seus olhos gelados. Um calor de décadas atrás. Você ainda não estava morta. Nós teríamos nos embriagado juntos, e corrido nus pela praia, transado no parque deserto e imitado anus no alto de uma cachoeira. Teríamos discutido política e religião, nos emburrado com as diferenças, nos deliciado com as diferenças, nos encontrado nas diferenças, antes que você se armasse de traje social, discursos diplomáticos e mentiras politicamente corretas. Eu teria te oferecido um anel barato de casamento e nos uniríamos em torno de uma fogueira. Nada tão frívolo como uma cerimônia na França, tão clichê como uma celebração na Itália ou tão idiota quando um casamento em Las Vegas. Nós teríamos. Eu sei. Não há como saber, os anos nos separaram, toda uma vida, toda uma pilha de escolhas, uma pilha que pende sempre para um ou outro lado, poderia cair entre nós, caiu sobre mim, a pilha de passado atraídas pelo magnetismo dos meus sentimentos. Passou. Eu sei, como todas as coisas passam, e nós teríamos também passado, e talvez hoje mais tranquilo do que ávidos, talvez eu mesmo vestiria ternos italianos para pagar seu rosto limpo apesar do passado. Hoje conformado das lutas já não busco arrego na combustão das diversões fáceis, na complexidade dos problemas impossíveis da existência ou em tentar entender algum traço do rabisco esquizofrênico do nosso encontro. Reencontro o sentimento tranquilo do início, aquele antes de você descobrir, antes do flagrante no qual você me embaraçou rindo com um elástico nas cordas vocais, me atirando e me roubando as ideias, as esperanças, as expectativas. Já não me causa frio nas mãos, nem me embaraça, nem me aproxima nem afasta. Não é morno nem arde como o inferno nem é frio nem congelou-se, é brando, brisa, sereno. Estou velho, mais velho que você poderia ficar agora com mais um ano de vida. Eu não pude me esquecer. Eu sei, na verdade você nunca me disse. Não é que escondesse a idade, da qual tanto se orgulha contraditória desprezando até mesmo nisso aqueles que pelo tempo de nascidos estão abaixo de você. Eu sei, é preciso estar em cima do salto, vivemos em uma selva, você não quer ser engolida pela selva, eu acredito que alguma vez você já foi quase engolida pela selva e por isso precisou tornar-se tão selvagem a ponto de aprender a engolir na selva. Não importa mais. Me conformo e aceito pois sei que não posso nada além de mim mesmo. Eu posso a mim mesmo, minhas mudanças, meu passado, minha história, meu futuro talvez, o presente sempre me parece distante desde que fui impedido. Eu nunca antes havia percebido o quanto estava presente em mim até perder meu presente em você. Meu futuro. Eu não sei. Não importa. Eu provavelmente não viverei todos os seus anos, eu não quero, nem me importo, não prolongaria a vida apenas para usar a juventude embalada no rosto enquanto a alma penada. Eu peno agora, dói o sentimento tranquilo, brisa serena, brisa aguda, cheia de areia que arranha suavemente o meu rosto. O incômodo cotidiano. Antes eu podia sonhar agora eu não sei. Mas já não tenho revolta, não faz sentido, eu não tenho sentido. Tive que fechar os olhos e mergulhar fundo para entender, dar cabeçadas no vazio, eu não queria perder. Sabia que não poderia te dizer, não que eu seja obediente, por que eu faria? Você pediu que eu me calasse, que eu me afastasse. Eu entendo. Se eu continuasse furaria a sua defesa, faria vazar o que você tão arduamente conteve. Tantos anos. Eu não chegarei lá. Não desejo. Eu te entregaria de presente, pelos correios, todos os anos que desprezo e que você reverencia. Eu te presentearia com os meus cabelos brancos juvenis nos quais você acredita que reside o respeito. Eu te daria até minha barba se te caísse bem. Minhas rugas, minha flacidez, minha amargura transformada na sabedoria despreocupada de quem compreende que a morte chega desde de sempre. Eu te doaria minhas roupas elegantes nunca usadas, nunca compradas, nunca imaginadas, dessas que se veste para mostrar a maturidade nem sempre conquistada no pulso, nas veias, na carne, na alma. Te doaria meus bens para que viajasse para Europa e ostentasse fotos de contento. Você não precisa. Eu sei. Foi uma escolha, nós escolhemos ou nos consolamos com essa ilusão. Eu sei que não poderia ser outro, você talvez também não possa ser outra, embora talvez você seja outra dentro de você, essa que eu vi por um tempo, eu vi sua nudez por trás dos seus olhos gelados e ouvi a insatisfação do cárcere por entre seus dentes de sorriso esnobe e gentil. Você rompeu, sua nudez revelou-se por um acidente do olhar, um deslize de acaso, você quase quis se entregar, abandonar a loucura da ambição, mas ela venceu. Você está viva? Eu ainda te vejo, hoje pacato, no meu canto, já não como um cachorro assustado, mas como uma coruja observando o tempo, eu cultivo a solidão como fossem meus filhotes horrendos sabendo a majestade de um dia. Então eu no fundo da minha viagem para dentro, os olhos cerrados, eu vi em mim, por trás dos meus olhosconfusos, serrados, eu vi que desejo ainda, mas não desejo você. Eu nunca desejei você. Eu nunca desejei ter você. Eu nunca desejei estar com você. Eu desejei estar ao lado. Esse encontro impossível. Eu não nasci para contratos. Minha certidão é uma infâmia. Eu vi que desejo, e sobre desejo não se fala, a não ser com os loucos, você é sóbria de mais, metódica de mais, cerrou-se, como meus olhos agora cerrados, para dentro do mundo que escolheu. Eu não sei se tivemos escolha, mas somos o que somos, e tivemos entre nós o tempo e todos os contratempos do mundo pareciam suficientes para que nunca nos encontrássemos e antes fosse, mas aconteceu. Agora eu desejo, e eu inspiro e expiro, meus desejos contrafeitos expiram oxigenados. Eu sei. Vão chegar até você. Sentirá um arrepio na nuca, um desconforto divertido no braço, uma sensação persecutória nas costas, meus olhos cerrados estarão lá desejando e se comprazendo dos seus festejos teatrais. Eu sei. Não estou te julgando querida, apenas aceitando o que vejo. Tampouco me vejo certo ou errado. Vejo você como essa quimera que eu criei para me apaixonar. Eu desejo. Desejo que os anos continuem a te poupar a face fresca de quem dorme dez horas por dia, mas trabalha uma madrugada inteira. Desejo que continue a beijar seu escolhido como se fosse hoje a sua decisão premeditada de amá-lo. Desejo que possa comprar e exibir todos os seus apetrechos Prada e todas aquelas coisas de marca importada cujos nomes nunca saberei e que tudo isso continue a fazer com que você sinta que tem mais respeito por isso. Desejo que possa trocar seu carro todos os anos por um carro mais jovem, e que tenha uma garagem cheia deles se assim desejar. E que não tenha filhos que te façam cair os cabelos finos, loiros e majestosos para que continue a exibi-los como um leão exibe sua juba para demonstrar seu poder. Desejo que você consiga marcar o seu nome na história, que o seu ego alcance às alturas, mas que você nunca se perca por isso, não mais. E que você nunca se arrependa do caminho que escolheu, das coisas vividas ou não vividas, das coisas mortas ou assassinadas, das coisas ignoradas ou desprezadas, que você se orgulhe até o fim. Desejo que muitos te procurem, que muitos te admirem, e que tantos, que possa dispensar ainda mais do que dispensa hoje. Que nunca lhe falte opção para escolher ou desejar, ainda que seja por brincadeira. Mas, que destes, nenhum seja mais feroz que você e tem engula na selva onde você aprendeu a engolir e se tornou uma líder no bando dos engolidores. Eu desejo, realmente, que você se orgulhe disso, que você esteja satisfeita com isso, que isso seja realmente tudo o que você deseja. E que quando seu coração não resistir mais ser tão satisfeito na vida, e seu corpo máquina, como meu corpo máquina e todos os corpos máquinas, não resistir mais um movimento de engrenagem, que você conserve em seu velório a face fresca e limpa de quem viveu uma vida exatamente como gostaria de viver e não deixou nada para trás a não ser o nome na história e a frescura limpa do rosto que marcou todos aqueles que viram, choraram e oraram, embora você ateia, eu sei, mas eles não sabem, então eles oram e veem seu rosto e seriam capazes de afirmar que na verdade estava viva e era um anjo. Mas se nada disso for verdade. Se todo esse meu desejo te incomoda e o arrepio não for de prazer e satisfação mas de medo angústia e até de fúria porque eu estou lá de novo te alfinetando mesmo em silêncio com meu expirar oxigênio dióxido de desejo. Que você possa voltar. Que você possa se libertar. Que você entenda que não precisamos despencar no abismo para a mudança, embora às vezes toda mudança pareça um despencar no abismo. Que você entenda que experimentar não é overdose. Que você descubra que maturidade e respeito não estão nas roupas que você usa ou no branco dos cabelos ou na barba que você não tem nem mesmo no pênis que você nunca desejou ter e nunca teria e que não lhe cairia bem e que tanto poder você tem sem ele querida, você realmente não precisa de um, nem eu, ninguém precisa, não para ser maduro, nem para ter respeito. Que você confie que uma vez escolheu e escolheu bem como escolhemos no momento da escolha que é aquele momento mas que não é este, então às vezes precisamos escolher de novo, e de novo, e nem sempre será o mesmo, podemos escolher o novo, e perder faz parte somos grandes demais para ter tudo. Precisamos de espaço. E não pense que seja hipocrisia minha esse desejo pensando que você se voltaria para mim e me enxergaria e nos encontraríamos e seríamos juntos. Eu sei. Você pensa. Mas eu vivo. Não espero de nenhum desses desenlaces para novos enlaces que seja o nosso encontro. Desejo apenas a você. Saindo de mim, no meu expirar desejo oxigênio indo. Eu estou cheio de dióxido de carbono. Até que você se entenda com você mesma, eu serei uma amoreira.

Carta de um perdão pendente

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Dia desses eu te vi com olhos de sal. Aperto no peito, foi tudo o que senti, clichê sentimento, tudo o que resta? Não sei, mas percebi que não consigo te perdoar ainda, embora compadeça das suas rugas, desse sal que tomou suas águas, depois de tudo, não foi bem erro, seu ou meu, de quem? É só a vida que caminha entre amores e mágoas. É só a vida… cheia de perdões por tecer com o tempo. A vida cheia de reviravoltas que enjoam os que tem consciência e não beneficia ninguém. A vida cheia de voltas que nos fazem encontrar quem deixamos rindo enlouquecidamente perdida curtida em águas salgadas.

Você delirava, falava de lagos azuis que lhe convidavam, de olhos de água, de futuros ornados, de mares de rosas e espinhos emborrachados. Falava da vida como se ela fosse as ficções que lia e assistia. Não se enxergou na realidade sombria em que se afogava. Por pouco não foi Bovary. Pensava ser Julieta. Querida, eu tentava avisar, no mundo não havia impedimentos de qualquer natureza, o que não se realizava era só porque não era recíproco. Você estava se envenenando sozinha contra um mundo que, se te afastava do amor era por ampla cultura hostil e não por figuras específicas.

Sua paranoia desenvolvida diante de cada pequena frustração te afastou da minha influência. Desconfiada de todos, desconfiada mesmo de mim que nunca lhe faltei assistência mesmo quando sua inocência me lançava em rasteiras, acabou por isolar-se e destruir uma por uma de suas pequenas construções, recomeçadas há tão pouco. Pareciam tão certas, tanto trabalho, tanto esforço. Eu realmente não consegui entender. Um desespero egoísta tomou suas mãos construtoras. Me pergunto ainda se em algum momento você se pegou refletindo sobre quantos sonhos alheios, sobre quantas apostas distintas você carregou com a sua decisão. Perdeu a crença.

Desmantelou a crença que te depositaram. Acusou quem acusava. Pode ser que em algum ponto você estivesse certa, entre tantas vírgulas que a vida fecunda. Você poderia ser sem ponto, mas poesia moderna em linhas renascentistas… – faltou malícia, faltou encontro, faltou assumir-se em vez de se entregar ao abismo. Foi se afundando no vazio a cada esperança rompida. Eu tentei te proteger, algum equilíbrio, poderia ser com o tempo ou nunca, mas você insistia que fosse logo e que fosse de qualquer forma. Havia alguma verdade que você enxergava que poderia até ser, mas, querida, que verdade nesse mundo? Dizer isso às alturas, denunciar as belezas escondidas no alheio, querer impor aceitação a quem se esconde? Perdeu os limites entre a sabedoria e a loucura. De todos os segredos que lhe revelei e você tentou gritar aos quatro ventos, achando que tudo se resolveria, encontrou apenas humilhação. E quantos carregou consigo? Eu, certamente. Perdão, eu consigo?

Assumo que sempre tive certa condescendência com os seus excessos egoístas. Tivemos momentos de paz como nunca nos últimos tempos, pensei até que tivesse amadurecido, penso mesmo, nesta altura, que amadureceu às duras. Agora te vejo em ressaca de águas salgadas, o sal na pele, o sal nos olhos, o sal nas feridas, o sal que não lhe permite mais pensar em lagos de água doce que te convidam. Seu nome está fora das listas. Talvez nas listas de espera… Eu poderia, fosse outra que não eu, confundir minha empatia com perdão, confundir-me pela compreensão e correr logo ao seu encontro. Mas, houve tanto. Eu te observo de longe e tento anteceder seus passos. Tenho receio, mas é inevitável que viremos a nos encontrar, na verdade, nunca deixamos de nos cruzar por aí. Eu tenho te evitado a esmo, mas a vida sem você é vazia. Essa maluquinha que dá cor e poesia às “pequenices” cotidianas.

Eu gostaria que o perdão em mim fosse mais eloquente que metódico, que pudesse simplesmente esquecer e te abraçar. Mas não sou feita dessa matéria, e você mesma a mim é meio arredia. Assim, aguardo pacientemente o momento de nossa reconciliação e espero, por bem, que do zero no qual novamente nos encontramos e por todas as batalhas que juntas enfrentamos, possamos unidas nos reerguer e seguir por novos caminhos. Pois sei inequivocamente, com a minha crueza de natureza, que é difícil caminhar quando não sentimos os pés com o coração. Eu não consigo continuar sozinha – ser Razão sem Emoção.

Para minha amiga perdida

O-Pequeno-Príncipe

Eu sei que quando as coisas vão mal, quando as dores gritam mais alto que qualquer razão, não há palavras que possam fazer sentido, nenhum consolo possível, tudo parece banal e vil, o cinismo toma conta das nossas aspirações, das esperanças, até respirar é pesado e o ruído do ar entrando e saindo irrita por lembrar suspiros. Eu sei que você anda tentando se endurecer, mas eu não vou simplesmente aceitar em silêncio essa sua tentativa de transformar-se em cacos para caber nos espaços limitados que te impõem as circunstâncias. Pessoas com você são mesmo assim: sem lugar. Aceite isso, apenas, é um elogio da existência, enquanto tantos pulam de caixa em caixa, você está destinada a voar. Isso pode ser muito solitário, e sei também que te atiram pedras a cada pouso seu. Enquanto as feridas sangram, não há remédio nos conselhos, nem beleza poética que abrande as mágoas e o desespero. Que se faça dura, sim, mas flexível, do tipo que não quebra nem arrebenta, porque é assim que você é.

Sabe que te chamam louca, chamam loucos tantos diferentes de nós, mas diferentes também dos outros, loucos – nós mesmos todos assim nos chamamos, porque assumimos um certo orgulho em decepcionar as normas. Sabemos também disso a falácia. Enquanto pessoas se matam por pouco, objetos perecíveis e frágeis cheios de significados vazios, enquanto travam batalhas de hostilidade por pontos de vista comerciais e vestem orgulhosos camisas cheias de suores outros e sangues outros até, nós preferimos a nudez e a liberdade de não acumular pesos inúteis. Enquanto cantam em coros gregorianos, nós destoamos agudos líricos e quebramos vidraças somente com a força do nosso timbre. Apesar de toda a desgraça que toma o mundo, somos nós os “assustadores”, porque não damos bola para a convenção e decidimos viver a própria vida sem prejudicar, mas incomodamos porque não aceitamos a solidão como cativeiro – solidão mesmo apenas por gosto.

Mas agora, você, se isola por desgosto. Dessa sua inocência astuta deve ter nascido mais uma decepção deformada. Eu sei que os anos vão nos deixando casados de lutar simplesmente para poder existir. Da fadiga caímos em lugares apertados e escapamos da asfixia com o mínimo de forças. De tempos em tempos é preciso parar para reinventar-se, sabendo que não há conforto que nos aguarde. Não desfrutaremos dos amores prometidos a não ser daqueles que inventamos, seremos abandonados por todos aqueles, que são tantos, muitos até são quase todos, que não compreendem esse movimento de ir e vir – essa mudança constante ainda é entendida como inconstância, enquanto inacabados consideram-se completos, os inquietos continuam a construir e lembram do eterno por vir. As pessoas querem dessa paz morta, enquanto você, também desejosa de paz, só consente em retirar-se no tempo para explorar novos espaços, tenta acompanhar o ritmo de criação da natureza que nunca para, e surpreende vida mesmo nos territórios mais hostis.

Eu entendo a sua necessidade de isolar-se e a dificuldade disso quando tão poucos respeitam que alguém possa precisar desse silêncio dos ruídos demais. Mas eu sei que esse seu silêncio, de agora, não é silencioso. Eu escuto seus gritos daqui, de nem sei onde a distância que agora nos separa, como se viessem de um outro mundo onde nem mesmo você pode alcançar para encontrar-se. Nós. Ninguém é imune a derrotas tão devastadoras que podem acabar por nos minguar a vida ainda que o corpo continue. Eu sei que você está resistindo, mas está tentando fazer tudo sozinha. Nessas horas essa pode não a melhor opção, nem sempre temos tudo o que precisamos para ajeitar os ossos quebrados no lugar. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, assumir as fraquezas não é fazer-se de vítima, aceite, apenas por uma questão de sobrevivência – porque precisamos disso para viver. Você não seria vítima nem que quisesse, é dessas que mais poderia fazer muito mal, mas escolhe essa bondade maluca que rompe da indiferença aparente e espanta as defesas de quem recebe a surpresa do sorriso gentil que brota do seu ar cético. Mas, agora, você simplesmente se retira do mundo…

Já faz algum tempo que você escolheu não falar mais de todos os seus problemas, e há uma beleza misteriosa nessa sua decisão de esconder as lamúrias para construir trágicas cidades submarinas. Disso eu não critico absolutamente nada, sei que caso falasse não seria nem tão diferente assim, como concluímos certa vez, persistir em certos problemas, nestes maiores e sem jeito, não cria soluções e, escutando vozes em demasia sobre eles, podemos acabar por nos confundir tanto que acabamos é por novos problemas encontrar. Mas desse augúrio silenciado, penso, é que veio o seu sumiço prolongado. Problemas não são apenas ideias – coisa essa que ouvido nenhum pode entender -, são vivências, são vividos, eu sei, você deve ter se machucado de mais na sua última aventura. Talvez carregue cicatrizes das quais nunca poderá se orgulhar e não possa mesmo simplesmente perdoar os ocorridos e nem a si mesma. Sejamos realistas, que a vida só é bela pela insistência e nunca espontaneamente, não para ser humano civilizado. Todavia, você sempre esteve decidida a continuar assim mesmo, treinando o olhar, resignificando os sentidos, dispensando a crueza… Ser o desequilíbrio para equilibrar, para dar movimento distinto a essas filas que andam em círculo. Se, por acaso, deste poder seu tiver perdido a crença, e por mim tem a afetada consideração que declarou certas vezes, leve bem a sério: eu acredito nisso menos porque não tenho dúvida alguma. É mais fato que fé.

Quando você finalmente decidir voltar, como já sabe, não haverá nenhum abraço te esperando – desses que você deseja; nenhuma surpresa grande acontecerá a não ser vinda de você – desses incômodos de ser pessoa que faz mais do que recebe; também não irão te procurar os seus amores perdidos, e muito menos provável é que te encontrem amores novos – a exploradora de novos territórios sempre foi você, sempre atraindo um tanto, mas procurando por algo específico, sempre decidida a não permanecer até encontrar; ainda, as pessoas não terão se tornado mais sábias, nem mais gentis – melhor mesmo é preparar-se para o contrário, o mundo anda errado de mais, mas, você sabe… continuarão dizendo que errada é você. Continue a brincar com isso como quem escuta injúrias de uma criança contrariada – é como as coisas são. Aceite. Uma vez nós aceitamos, e desde então nunca mais tentamos seguir a linha reta que não nos permite ver o caminho em frente. Já tive desses dias ruins, meses, anos até. Mas não vejo sentido em deixar-te aí, repetindo para si os rótulos que te jogaram – mas que na sua escorregadez jamais poderiam colar. Sei que os rótulos que te jogaram agora não foram adesivos, mas munidos com estacas. E é destas que precisa de ajuda para se livrar. Você não precisa fazer isso sozinha.

Somos todos muito individualistas e ensimesmados no que damos a ver, mas a verdade esquisita é que, por essa escolha absurda de ser inteiro é que sabemos valorizar todas as iniciativas e compadecer com as dores de quem se machuca por não aceitar usar coleiras-uniformes. Tentar entender a liberdade e vive-la tem dessas, mas não é agora, depois de tanto passado, que você voltará a se enganar achando que estes que andam na rua com sorrisos estereotipados sofrem menos… espero. Se o seu sofrimento estiver tanto a ponto de tais alucinações, deixe que alguém se aproxime com malhas umedecidas de afetos legítimos para te curar a febre das angústias. Deixe que eu ou outro – é certo que você tem alguns amigos inconvenientes tentando se aproximar. Pessoas que te amam não apesar, mas exatamente pelo que você é. Pessoa perdida. Perdida dessa ordem lamacenta que beneficia os piores juízos. Perdida da injustiça atrasada que ainda acha mais importante vestir togas do que transformar-se em justa. Perdida dos relacionamentos de conveniência que condenam vidas inteiras ao vazio de ter apenas. Perdida das regras sem sentido que buscam perturbar a vida privada para abafar os absurdos feitos dos interesses coletivos. Perdida das discussões sem fim, sem finalidade, sem atitudes, que apenas incitam e camuflam emoções mal resolvidas. Perdida de querer agradar. Perdida de achar que nunca tropeçará nas próprias convicções. E aí é que nos perdemos mais querida. Somos demasiadamente apaixonados para sermos firmes. Como antes eu disse: somos flexíveis. Deixe ser. Não se imponha tamanha perfeição.

Volte para o mundo. É ele que te espera ansioso, mesmo que não manifeste isso em um abraço, em um amor, em uma surpresa boa. Volte para o mundo – que ele é que está precisando de um abraço seu…

Para um presente com pouco passado e nenhum futuro

fim

Agora, eu queria poder te dizer que me procurasse antes que eu “esqueça”. Uma resistência em deixar algo que parece valer… Mas essa coisa, do tempo dos outros, do tempo da vida, do meu tempo que nunca se encontra com nenhum tempo, me cala. A verdade é que depois de algum tempo, me dei conta de que nada disso tem a ver com tempo ou espaço. Nós escolhemos, criamos momentos e abrimos trilhas, nós agimos ou nos contemos. O que faz encontros são atos, tudo o que é vem do movimento. Não se trata de um passar rasteiro involuntário. Esperar é inútil quando as vontades não se manifestam mutuamente.

É aquela coisa triste, dentre tantas coisas tristes que são resultado da mesquinharia a qual estamos habituados. Aceitamos de pronto os uniformes que nos oferecem como suposta opção, acreditamos que isso nos levará a algum lugar elevado, e leva, mas nunca é ao lugar onde desejamos estar. Passamos nossa vida nos dedicando a coisas e a pessoas que certas convenções nos fazem acreditar que têm valor de fato. Mas quando o tempo passa – e aí sim o tempo – ele revela a falha das escolhas que fizemos, já que não nos esforçamos em questionar sobre todos esses valores que cultivamos de bom grado, embora eles não tenham nascido da nossa experiência, do nosso interior. Daí percebemos o que perdemos no caminho, o que deixamos, o que já não teremos tempo ou espaço para viver – extinguiram-se os materiais para a criação o espaço é exíguo a solidão é latente. Todos os que não se arriscam a viver, arriscam-se a se dar conta disso em algum momento, talvez tarde demais.

Alguns sucumbem à amargura, outros tentam desesperadamente e em vão anular os efeitos do passado. Não há retorno, a vida pode até seguir torta, mas segue em frente. Não adianta que daqui há não sei quantos anos você perceba que errou e queira viver algo que ficou para trás. É preciso coragem para ser jovem sem medo do futuro, e sabedoria para ter coragem sem destruí-lo. Quanto esforço estamos dispostos a dispensar com isso quando temos tantas soluções prontas a serem pagas à prestação? Enquanto você tenta construir uma carreira e uma reputação para morrer, alguns poucos vivem, e você critica. Realmente não entendendo essa coisa de precisar lidar com a morte ou com o fim para enxergar o verdadeiro valor das coisas. Há lugares para abstração fora da academia.

Por outro lado, eu não nego minha culpa desse aperto no coração que me perturbará até amanhã, até que eu esqueça. Estive ignorando todos os seus vícios e exaltando suas virtudes. Aquelas coisas de quem está embriagado de paixão e não enxerga que o bom pode tornar-se nocivo – excessos unilaterais. Te enchi tanto de si, quem sabe até para me esvaziar um pouco de você, que alimentei um mito, ajudei a criar um monstro, desses que transformam tudo o que tocam em ouro. Agi de tal forma que meu entusiasmo pudesse ser confundido com debilidade, que meu amor pudesse ser confundido com anulação – você me enxergou ali, para sempre, até que pudesse estar suficientemente confortável para assumir, ou, o que realmente deve ser, já estava confortável o suficiente.

Este é o erro de todos nós, que atraímos o que não queremos, e o que queremos, atraímos quando já esquecemos. Nos condenamos à ironia da vida por não sabermos ou não aceitarmos jogar. Agimos de acordo com o que sentimos quando o assunto é sentimento, agimos com a razão quando se trata da razão, não misturamos nem excluímos e confundimos tanto, que nos confundem com os que estão fadados a misturar. É que nem todos sabem dançar tango com os afetos ou fazer malabarismo com as emoções. Os alojam em caixas e creem estar tudo em ordem. Mas não há na vida material impermeável nesses assuntos. Misturam tudo e se iludem com a segurança de estar tudo em seu devido lugar. Sem toques ou trocas. Trocam os pés pelas mãos.

Eu realmente não posso te pedir que me procure antes que eu transforme seus jardins em memoriais, mesmo sabendo que uma inversão levaria anos de desconstrução, que depois de tanto tempo me esforçando no luto pelo que foi perdido e ter finalmente seguido, certamente, eu continuarei seguindo e te deixarei apenas o relicário da nostalgia. É que eu prefiro sempre o presente. Do futuro apenas o necessário e os furores dos planos ingênuos. Do passado apenas o aprendizado. E dessa coisa que eu aprendi, sobre os que procuram apenas quando perdem, eu guardo a memória do descuido, do descaso, da arrogância que permite uma autovalorização tão iludida que faz do ser isolado cego pela própria luz, até que as adversidades da realidade o apaguem.

Eu não posso mesmo te pedir nada. Eu não devo te pedir nada. Porque eu nunca quis nada que não fosse verdadeiramente a sua vontade – e vontades legítimas não precisam ser imploradas para se fazerem concretas. Pode ser que eu tenha errado nos meus instintos, me enganado nas minhas vivências, me embaralhado na minha percepção. Talvez eu tenha visto coisas… Só me importará até amanhã, até que eu esqueça. Até lá eu assumirei a loucura que você me empurrou por rótulo – serei tão louca que, como tal, quando te ver novamente te chamarei alucinação. Pois sei que nada é esquecido enquanto for alvo do desejo de esquecimento, uma vez que assim ainda acaba no alvo do desejo: eu vou me lembrar loucamente. Vou escrever a história. Vou me ater nos detalhes. Vou mastigar cada fato lentamente. Degustarei as memórias experimentando diferentes temperos. Espalharei cores nas vivências que foram – irei reinventá-las sob novos formatos, irei cantá-las, irei dança-las. E de todo desgosto ao menos a poesia… Eu vou com o meu amor, vou enchê-lo de mim e semear por aí.

Carta de um perdido para angariar encontros

perdidos

Eu continuo escrevendo para você. Como disse que jamais faria. Investigo modelos de luz nas suas lembranças suvenires para inspirar minhas imagens cores. Transgredi a distância investida e quebrei o cristal onde havia aprisionado meus sentimentos. Retirei as emoções das caixas de comportamentos adequados para evitar os conflitos. Eu estive cansado e não queria mais conflitos. Continuo a não a não os desejar. Meu desejo está por inteiro investido em uma valsa com sonhos lúcidos. Despi-me das ilusões. Aceitei deixá-las no limbo da angústia de não poder. Nos meus sonhos eu posso. Eu sei, são só sonhos. Mas a vida também é só a vida. E cabem nela todos os sonhos do mundo. É preciso estar vivo para sonhar. É preciso estar muito vivo. Ando vivendo.

E, por isso, é mentira o que eu disse sobre não me afetar mais – eu me afeto e vou de encontro. Deixei a fuga para os culpados. Sou livre. E vejo a beleza na sua vida. Não me cabe julgar verdadeiras ou falsas suas escolhas, e da dor que me causam as exibições, tornei-me forasteiro de novas estéticas vitais – nada de travar embates internos: procuro beleza e acho. Delicio-me em pensar que esteja feliz, e assim vai, e assim segue, e assim sigo. Vou com lembranças e invenções. Vou porque nunca pude parar. Parar é impossível e irrevogável. Sei que se olhar para trás eu não te encontrarei nunca, você estará sempre em algum lugar adiante. Sempre até que ao lado.

Estive criando novas coreografias onde antes criava empecilhos, danço para dar tempo, para distrair as expectativas – tornaram-se espectadoras. É que a vida é uma só, balé de improviso, performance, romances escritos, filosofias de cordel, cantos líricos, pinceladas rebeldes, poesia, invenção, múltipla. Os pensamentos não são orações: são por hora. É preciso mudar de ideia quando a ideia não nos acompanha. Nenhum caminho perdido, atalhos às vezes não levam a lugar nenhum. Eu vou contornando o lago onde moram seus olhos, esperando que o inverno passe, para que possa mergulhar novamente. Perdi o medo de me afogar, e não tarde demais, felizmente, as estações são cíclicas, mas o caminho é tortuoso, e girando nos braços animados da imaginação eu me deixo levar às tonturas. Assim a vida dá voltas mesmo que seja apenas diante dos meus olhos perturbados. Aprecio.

É que eu nunca acreditei que o amor fosse um campo de batalha cheio de rivais, competições e lutas vazias. Ainda não acredito. Nunca fomos inimigos ou aliados – estivemos perdidos. Não é maravilhoso? Só os perdidos se encontram. Os determinados e cheios de certeza apenas se determinam. Eu não poderia ignorar as nuances da paisagem ao redor para seguir reto e ligeiro. A vida é uma só. É preciso dar voltas. Eu sou tortuoso e caminho. Não paro por isso. Pode ser nunca ou amanhã – quando o tempo se vestir de espaço e movimento. Foi-se com o medo a sanidade branca moldada por trapos amarrados em nó. Que seja loucura se não for fato, poderei delirar você nos santuários da vida inventada, essa loucura escorregadia que desliza pelo mundo afora sob habeas corpus. Já não me importo. Os traços de realidade são perversos em demasia, manipulam e argumentam, mas não provam o contrário. Não vejo porque iria preferir o universo arredio acinzentado às possibilidades que pulam de suas pupilas adornadas de azul. Vivo.

Eu continuo escrevendo para você, como disse que nunca mais faria. Tenho prazer em me contradizer quando estou errado. Palavras nunca são vãs quando são verdadeiras – multiplicam-se. Construo pontes de universos possíveis para ludibriar a distância, já não aprisiono sentimentos em cristais ou emoções em caixas. Eu nunca serei adequado. Me contento. E contente deixo os conflitos para os radicais. Prefiro ser radioativo. Causo desastres nucleares de amor por onde passo. Não paro nem parto, desconstruo intenções. Espero enquanto sigo e abandono em trilha as migalhas de desafeto no caminho, não para te dar a direção, mas porque sei que serão comidas pelos passarinhos, e sem elas o encontro é possível – eu certamente estarei lá. E até lá, estaremos perdidos.

Carta de desabafo de uma lunática para um “colonizador”

loucura amor

Salvador, Bahia, 15 de outubro de 1997

Relendo algumas coisas que escrevi há cerca de um ano atrás, ou um pouco mais, me sinto não menos que estúpida. Estúpida porque percebo que não consigo mais escrever daquela forma. Ainda mais estúpida por desejar compartilhar com você todo este universo que se tornou, para mim, inacessível. Desde que me “descobriu” eu não tenho sido mais a mesma. Não entendo onde cometi algum erro suficientemente grotesco naquela época que te revelasse o que estava se passando. Procurei te odiar pela forma em que tratou tudo isso e acabei te amando ainda mais. Rio de mim, quase alto, como internamente sei que outros riram, e outros riem, por eu sentir algo assim por alguém com quem nunca tive “nada”. Não há espaço neste mundo para estes amores “platônicos”, mas ao contrário do que parece, também não há para eles espaço em mim. Eu não quero olhar de longe, sentir os disparos do meu coração e contar para as paredes do meu quarto. Quero o toque, quero a troca, quero o mais doce ou o mais vil, não importa, desde que seja.

Já faz um bom tempo que eu não sou uma adolescente contida pelos grilhões paternos. Eu quero viver! Venho tentando viver desde então. Mas, com aquele ato de descoberta, que você tratou como um colonizador, sinto-me enfraquecida de todo o gosto, como se ele você tivesse extraído de mim e me deixado empobrecida de prazeres possíveis. Tudo parece meio sem sal, sem vida, sem perspectiva. Dou chances para o acaso e ele me traz flores colhidas de ontem – logo murcham, logo secam. Desde sempre estiveram mortas, enquanto você permanece plantado, enraizado, como uma persistente erva daninha, que mesmo arrancada, esconde resquícios de suas raízes para depois renascer. Parece realmente muito injusto, que além de não obter nenhuma satisfação com estes afetos condenados à contenção, ainda tenha perdido minha tara de viver. Nunca antes o tédio foi sério, o desejo de descoberta escasso e o desejo de fugir tão grande quanto impossível. Algo me impede de abandonar. O medo de, simplesmente, perder a possibilidade – ainda que seja apenas uma possibilidade, ainda que seja pouquíssimo provável. Ando me diagnosticando de uma loucura latente, à espreita de um surto ou uma surpresa. Ou eu ando mesmo intuitiva demais ou enlouqueci de vez.

Pode parecer pouco para os seus anos de caminhada, mas depois de tantas contradições: descobri-me, tive coragem, fui atrás dos meus desígnios, e tudo isso me levou até você. Evitei ao máximo me entregar e consegui me afastar várias vezes, até que suas palavras tornassem as coisas tão concretas que eu poderia tocá-las. Quis transferi-las, quis quebra-las, quis rompê-las; não porque não merecessem continuidade, não porque não merecessem viver e florescer, mas porque desconfiava, com uma quase certeza, do soldado resistente em prol moral envernizada que existia em você. O soldado resistente que me recusaria até o fim, feita que sou de matéria bruta – dizem que os homens têm medo de mim. Eu devo ser realmente temerosa com todos esses afetos a fio – apenas para “onde” quero, para quem ou o que quero, meio egoísta talvez, excêntrica e explosiva quando o estoque de calmaria cessa. Essas palavras agudas, agressivamente polidas que atingem as dores mais profundas. Eu sei muito bem dos meus defeitos, mas sei melhor ainda de que eles não são isso tudo que as pessoas pensam que são.

Hoje, tudo o que eu queria era uma solução e sei que você lavaria as mãos, me mandaria ir embora da vida. Sim, da vida, não da sua vida. Porque não compreende meus dilemas, e nem deveria. É tão solitário em suas conclusões, penso eu, mais por receio que por narcisismo. E ando às beiras com essa mania de te abrandar os vícios. Esse cara que eu “nem conheço”. Mas quando te olho nos olhos sinto como se há séculos te conhecesse e pudesse desvendar os sentimentos mais profundos. Tenho medo de revelar-me agora como fiz anteriormente, tenho medo da sua ira épica, capaz de transformar em lava a minha terra fértil. Fico nessa, de simplesmente não saber o que fazer. Perco se fico. Perco se parto. Sinto que me perdi de mim.

Sei que você diria, com palavras forçadamente generosas e equilibradas, coisas que deixassem a entender que você não gostaria de me prejudicar. Essa é a minha realidade. Não sou capaz o suficiente para tomar uma decisão sobre a minha vida? O meu delírio é achar que essas palavras são forçadamente generosas e que, na verdade, você gostaria de se posicionar, mas não pode. Não se permite. Não me permite. Eu fico então na corda bamba, entre um abismo e outro, esperando que a sua loucura renasça das cinzas. Para que possamos delirar juntos. Porque toda loucura compartilhada é capaz de superar uma realidade solitária. E, disso não tenho a menor dúvida – não há nenhuma lucidez que valha mais a pena do que a loucura de amar.

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Carta de Scarlett ao seu editor, que após descobrir, “misteriosamente”, que ela era apaixonada por ele, flertou com ela por algumas semanas, como se a correspondesse, e depois casou-se com sua antiga namorada, que ao contrário da escritora, era uma mulher estabelecida e equilibrada. Decidida, no entanto, em sua “missão”, Scarlett continua a escrever e se esforça em manter o vínculo profissional arduamente conquistado. Mas, neste momento, passa por uma crise produtiva que a afasta seu editor, mesmo profissionalmente. Em um contexto em que tem sua possibilidade de correspondência romântica podada e também incapaz de realizar-se profissionalmente, ela busca soluções para tentar se reencontrar e, após uma noite/madrugada/dia de bebedeira, acaba por lhe enviar estes escritos.

De pássaro para pássaro

Pássaro

No meu pensamento você pode voar, asas zunindo como os ruídos de sua mente, levam-no longe pouso breve decidido. Encantado pela amplitude do céu eterno – incansável no tempo, infinito no espaço, pássaro amplo de voo azul. Sem os limites das grades você pode ir a todos os lugares, mas vai apenas aonde quer. É meio como se parece, mas não é.

Com o mundo à disposição, sem medo faz escolhas certas, e se erra nem por isso abranda o voo, voa mais para tornar-se mais certeiro. Pede desculpas com flores do campo em ramos emaranhados de modéstia. Não precisa do orgulho que engoma suas camisas, é nu de maldade e vestido de penas para o vento.

Voa antes só do que meio acompanhado, liberto do passado e dos prejuízos que este projeta no futuro. Bebe da lucidez desembaraçada do amor para manter-se prumo em movimento, assim não canta injúrias nem lamentos, sopra sonoridades curvas que ecoam na caixa acústica do universo. Se no ritmo parceiro surpreende o encontro, não hesita, e livre do medo confia que mesmo diferente o canto, diferentes as penas, diferentes as formas, é o ritmo que dita a harmonia do permanecer.

Nos meus sonhos você pode ser. E poder ser é como poder voar. Você fala com honestidade desinibida de agressividade ou defesas supérfluas. Tem leveza nos toques e economia nas análises limitadas do que não pode ver. É tão fluído e envolvente que invoca sinceridade irrepreensível, sabido de que sem máscaras conquistou o poder de dissolver todas as outras.

Trocou os papéis sociais pelos papéis de carta e escreve apaixonadamente como quem desconhece o ridículo, ri da própria timidez e despede-se dela com beijos de cócegas. Descobriu que a gargalhada inocente e o sorriso isento de sarcasmo são antídotos para a vergonha. Que a vida é curta demais para ter vergonha de existir.

Aprecia o ouro apenas de longe, sabe que o peso da fortuna o faria cair e a vida é cheia de abismos. Prefere adornar-se de tempo e de espaço. Faz suas próprias regras e não acredita quando dizem que sem tais bens você não é ninguém. Sou pássaro. Sabe em silêncio. Toca instrumentos de sopro com o bico. Sou mágico. Canta. Sou rico. Ri.

Na minha vida há um espaço imenso. Você na gaiola estático simula bateres de asas, cansado grita rouco: “sou livre”. Cada vez que te vejo do alto da montanha, sinto-me eu mesma cercada de ilusão. Tiro de luto uns dias – perco o gosto de voar. Às vezes, quando te vejo penso que a minha gaiola é o mundo.

Carta de despedida para quando eu ficar

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Quando eu ficar, despeça-se dos óculos de lentes coloridas. Não aqueles transparentes, para colorir e acalmar a vista num dia de sol. Você já teve, quando criança, um daqueles óculos feitos de cartolina ou papelão colorido, com uma imagem predefinida estampada em lugar das lentes? É desse tipo de óculos que estou falando… despeça-se deles, os deixe na infância, ou, ainda, use-os só de vez em quando, de brincadeira, para divertir-se com aquilo que sabe que não é real. Fora isso, tire-os, guarde-os para os momentos lúdicos, deixe-se ver-me viva, em movimento, em constante transformação.

E nas vezes em que eu engatilhar umas balas de desafeto apontando em sua direção, despeça-se dos escudos, cale minha ira com flores, é fácil, é certo, eu irei ceder, sempre preferi flores a armas. E essa ofensiva não passa às vezes de uma irreflexão mecânica, dessas que se ativam de tão acostumados estamos a ter que nos defender no percurso da vida. Sobrevivência, sim, mas, de quando em quando, somente uma digressão. Despeço-me das pontarias, das balas, dos gatilhos.

Sei que muitos admiram a qualidade de ter facilidade em partir, em abandonar, em desapegar-se, em estar sempre deixando para trás. Eles não sabem que para quem sempre parte, o fácil mesmo é se deixar ir e não ficar. Despeça-se dos enganos. Não chame de liberdade a fragilidade dos meus laços, que se tornaram escorregadios tomados pelo lodo dos contratempos. Despeça-se das falsas admirações, critique-me se necessário, mas por isso e não pelo contrário.

Quando eu hesitar em seguir em frente, para esse duvidoso progresso que só se sustenta na lei do rompimento com os conflitos, transforme em dança esse meu movimento de “vai não vai”, dê ritmo, deixe os atritos para os pés que se intercalam no chão, eu irei me abalar, eu irei me embalar, não sou feita de aço. Despeça-se da indecisão, deixe as palavras confusas transformarem-se em música, quando na dança se tornarem conscientes de sua insuficiência em comunicar algo que por si só faça sentido.

E se dissolvidos pelos percalços nos perdermos em palavras agressivas, desprovidas de razão ou emoções definidas, quando a desconfiança nos convencer em ceder a bárbaros ataques gratuitos, desfaça-se dos encontrões violentos, deixe que os corpos se encontrem em abraços, despeça-se das minhas palavras estúpidas, eu me despirei delas e também esquecerei das suas.

Quando eu ficar, mas me desviar com os olhos, simulando a ausência na minha presença integral tão imaturamente, pegue meu rosto com suas mãos, suavemente, minhas articulações não são tão rígidas quanto faço parecer. Coloque-me em direção ao seu rosto, insista para que eu te veja, para que olhe nos seus olhos, deixe que os nossos silêncios se resolvam.

Mas, se mesmo depois de tudo, partir for o que resta, pelos desígnios da vontade ou pela falta dessa, seja minha, seja a sua decisão – que no fim não há decisão dessas que se faça só, mas que só se faz pela impossibilidade do encontro dos desejos, que se faz pelo desencontro dos tempos – despeça-se. Despeça-se dos ares de indiferença e da rigidez dos movimentos, da distância forçada, do receio de um envolvimento que seja vão.

Já te contaram que a vida é feita de momentos? Talvez tenha descoberto por si mesmo, talvez essa desilusão sobre a eternidade tenha te atropelado com o carro desgovernado da realidade frágil da vida, que vai sem nem sempre dar a chance de uma despedida.

Não se engane dizendo que não existe algo do que se despedir, só porque uma vez te disseram, ou tantas vezes disseram que acabaram por lhe convencer, que algumas coisas são e outras não são. Pergunte a si mesmo, e provavelmente descobrirá que, embora não seja como deveria ser, ainda assim é.

Então, despeça-se, mesmo que seja para não saudar futuramente o remorso. Dê cores negras ao luto mesmo que ele agora não seja o seu. Despeça-se e tenha certeza, que é desses encontros e desencontros que é feita a vida, e por mais que tentem nos convencer que somos feitos para o orgulho, somos feitos para viver, para ir, para vir, para voltar, para amar sem fórmulas ou padrões.

Tenha certeza que ora somos pássaros, mas outras somos apenas uma pena à deriva na ventania.

Uma carta para você, que não me enxerga

Dança (2)

Antes que você fosse eu desejei te abraçar. Sabia, sim eu sabia, que não era uma viagem longa, mas a ironia da vida mais uma vez brincava no meu funeral, porque as distâncias tão prematuramente encurtadas fariam do tempo um rastejar e dos quilômetros léguas. No entanto me contive, pois senti o estranhamento de uma distância que se fez antes do embarque, você estava ali, mas já havia embarcado, não havia para onde direcionar o meu abraço.

Fui abraçando os dias, às vezes tão apertado que doía as juntas. Tentava entender estes movimentos de abertura que logo se trancavam em uma torre, de ternura que logo se convertiam em aversão, um revezamento entre o calor e o gelo que me levaram à constipação emocional. De longe assisti ao golpe final às possibilidades desnutridas. Sabe-se aqui, na África ou na China que alegria não serve de alimento e esperança só preenche o tempo.

Me desdobrei entre torcedora pela morte das esperanças agonizantes e expectadora crítica de um Hollywood veneziano: fotografia impecável mas pouco criativa, como as fotos de uma revista comercial, um tanto de ostentação do superficial, nenhuma poesia, nenhuma declaração, sorrisos fáceis e moldados, como musas num ensaio para o carnaval. Fantasias e máscaras marcando o destino de uma vida. Na minha posição crítica, entre um drama documental e um romance realista clichê, desejei mergulhar por territórios oníricos apenas, onde os pesadelos mais místicos seriam melhores do que assistir, atada em minha camisa de força, no ápice de uma lucidez lancinante, um dueto paradoxal sobre a estagnações da vida.

Desejei desejar-lhe felicidades, desejei não desejar nada, desejei apenas que o tempo não fosse nunca um encontro – por quê, para logo abortado? Livre do encargo das atas brancas engessando meus braços, já não daria mais abraços, já não daria mais…. Desacostumei-me ao movimento e associei-me ao silêncio. Queria eu agora uma grande viagem só de ida. Era, então, tudo uma fantasia. Tudo o que parecia tão real, não passava de um sonho em vigília. Eram os gestos falsos ou meus olhos me enganavam? Eu me enganava. Enamorei-me do abismo que agora piscava sensualmente para mim. Desejei de volta a camisa de força, os braços atados, que para mais nada serviriam, mas ela se jogou à força no abismo, enquanto eu preferi continuar apenas a paquerá-lo de longe.

Desejei, ao seu retorno, abraçá-lo e empurrá-lo. Dar adeus e boas-vindas. Estava eu agora toda paradoxo, já não assistia, ouvia o dueto das minhas vozes. Vivia, mesmo que um paradoxo. Vieram nutrir-se as esperanças famintas, as possibilidades desnutridas, todas moribundas delirando de fome, delírios colossais. É a vida, é a vida. Nem sempre é bonita. Tornei-me mãe desses ideais para tentar educá-los – Tanta dor sem morte! Talvez ao menos sorte – transformação. Mas, não. Naturezas rebeldes persistiam logo em me convencer. Algo como uma maldição, quando já me enredavam em discursos utópicos outro golpe. Será esse fatal?

Vi que todo o sublime revelado e por mim vivido, entregue gratuitamente por simples condição de existência – amor sozinho morre de inanição; foi rebaixado ao nível mais mesquinho, por alguma confusão, por um mal-entendido – entendida eu como covarde a ponto de… Eu paradoxal, pude finalmente, então, entender bem: “ah, esse lugar, então é esse o meu lugar!”. Aquele era o meu lugar para você, no mais baixo dos baixos dos fazeres de um ser. Toda a prosa elevada era unilateral, senti-me por acidente em uma peça teatral, sobre um homem que representava e uma mulher que amava. Incondicional?

Sei que pareço romântica, e o sou, mas ingênua não, menos ainda estúpida. Não há nada incondicional em nível de prescindir de condições para existir. E sei, uma pena, o que é sublime não vinga no território do banal. Não que houvera antes apenas um território banal, mas ele, por fim, foi o que restou. Agora eu caminho por erosões cintilantes, acusada e absolvida, por ser desprovida de enfados polidos pago a pena da minha própria condição. Mas meu amor ferido dança sua resignação, e não guarda rancor, nem se transforma com a revelação desse pífio lugar no qual me colocou em sua consciência. Porque eu sei o meu lugar, e eu sei que o meu lugar, é em algum lugar, onde seus olhos não alcançam.

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