Cartão Postal

Do silêncio, dobrei todo o desprezo num origami, imprevista delicadeza extraída. São tantos os amargos da vida, infecções. Conferi meu corpo com surpresa de ainda preservar todas as partes, inteiras – tanta mágoa, nenhuma me levou de mim. Nada. Toda a leveza do nada. Bem-vinda. Os cômodos vazios. Poucos cômodos. Intactos. Nenhuma praga devastou os lugares. O centro fede, o céu é cinza, a água é suja, o tempo miserável, o alimento caro, os prazeres raros. Tudo está em seu devido lugar. Como sempre foi. Como sempre, só um pouco pior. Gota a gota.

A febre ainda persiste. E as alucinações. Outro dia você se transformou em um ganso com medo de se afogar. O mar é grande. Parece o céu no chão, ao alcance. Eu tenho medo. A água é muito imprevisível. Era tudo o que eu podia fazer por você – dizer que também tenho medo de me afogar. Aprender a nadar nunca foi o suficiente. Eu aprendo a respirar todos os dias para ter os pés no chão e não morrer de sufoco. Mas às vezes eu durmo com o travesseiro na cara, para ver se acordo.

Tem sido difícil falar, desde que eu encontrei essa delicadeza no silêncio. Parece inútil, tanta palavra no mundo, e as pessoas na rua, aquelas que passam por lá e também os que moram por ali sob o céu generoso das ruas planas. A única generosidade genuína. Continuo sob o regime da gravidade da vida. Eu não tenho inveja da terra, suportando o peso de todos esses corpos que não sabem de si. Fico me perguntando quando ela finalmente vai cair de joelhos e implorar que lhe seja retirado todo esse fardo, como a gente faz quando não está dando conta de todo o peso abstrato. A realidade é só para alguns, mas a ilusão é para todos. Não acredito mais em gente desiludida. Otimismo por pessimismo – uma troca equivalente.

Bom, eu não tenho muito o que dizer. É isso que tem sido minha vida: silêncios, origamis, corpo inteiro, cômodos vazios, fedor, cinzas, sujeira, miséria, gota a gota, febre, alucinações, gansos, medos, céu, chão, pés, sufocos, travesseiro na cara, palavras, mundos, pessoas na rua, gravidade, terra, pesos, incerteza – não sei se tenho realidade ou ilusão. Verdade seja dita, tenho mais uma dúvida: se existo.
Outro dia me peguei investigando. Tem um corpo aqui, que bebe muitos litros de água por dia e persiste sedento, seco, cheio de dores. Mas não sei se existo, doer não parece o suficiente. Cheguei ao limite desse problema, localizando-me entre a existência e a não existência, como uma variável que precisa de algum outro elemento para chegar a um resultado, ou melhor, uma substância que precisa de outra para ser um elemento. Não sei muito dessas exatidões. É algo por aí.

Pouco importa. Acho que eu não preciso mais de respostas. Elas são como a chuva, necessárias de tempos em tempos, mas passam. As interrogações ficam. Estive até o pescoço. Até pelo andarilho que me cumprimentava quase todos os dias quando eu voltava de algum lugar para o qual ia quase todos os dias – eu me questionava: por que? Inundação de interrogações. Até que me contaram em um sonho que a interrogação é só uma curva que precede um caminho reto que leva até um ponto. Era só o ponto que eu queria. É só o ponto que eu quero. Parei de dar voltas. Continuo a cumprimentá-lo. Mande notícias.

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