Carta de condolências

a torre

Me desculpe, mas eu não caibo em fantasias prontas. A sua personagem romântica, a sua atriz pornô, não me dizem respeito, não me representam, não me significam. Eu não sou protagonista das músicas do Chico, nem coadjuvante da vida de ninguém, eu não visto carnaval, não me mascaro de ideologias.

Me desculpe a estupidez, não é sem querer que gostaria de te mandar enfiar a sua paixão no rabo, como você gostaria de me possuir todas as noites, às escondidas, entre as suas quatro paredes, o seu ringue de luta particular, a sua sala de troféus, a sua simulação de vida. Não tenho vocação para ser bengala ou saco de pancadas, não tenho vocação nenhuma, não sou invocada, sou apenas por aí ao meu dispor.

Me desculpe as palavras bonitas, os sorrisos sinceros, os resquícios de afeto, não sou feita de pedra, não finjo frigidez, não sou peça de sacrifício. Tento viver, tento me surpreender, arrisco, aposto, desejo. Desejo que não seja apenas mais do mesmo. Desejo mesmo, e, se é, o que posso fazer? Viro brisa mediterrânea, saio à francesa. Esperança, esperando, quem sabe, um dia, surpresa?

Me desculpe, mas eu não me entreguei ainda à amargura das decepções e nem as confundo com maturidade. As águas salgadas da vida, eu passo por elas, das tempestades, carrego umidade, dos desertos, a paisagem, o silêncio. Eu não me submeto ao árido, eu não me afogo até à inconsciência, eu aprendi com meus ancestrais. Eu sei ser intensa sem ser descartável.

Me desculpe, minha honestidade não é um dicionário. Eu não certifico o significado do que digo, eu não acredito em compreensão. Sigo a vida como um fluxo de pensamento, um fato, sem manual de instrução. Eu invento, eu investigo, eu resignifico. Eu não creio, realmente, em comunicação que não seja pelo gesto, pelo tato, pelo olhar além da superfície.

Me desculpe se te fiz perder seu tempo, mas o tempo que eu vejo é sempre perda, é sempre perdido, não há tempo ganho nessa vida que preferia nunca voltar. Não há tempo sequer, não há nada. Vivemos iludidos a medir passos arbitrários. Não há sentido para a vida. Não há porque contá-la em números, não há nem mesmo porque vivê-la. Há apenas de querer viver.

Me desculpe, mas eu quis, eu quero. Você sempre me fez querer como se eu não tivesse escolha. Se eu tivesse, me esquivaria do seu universo prateado, das suas moléstias caipiras, dos seus suspiros saudosistas. Que eu sou bicho do caos, impaciente, violento, bem resolvido com a sua natureza de lâmina que deseja cortar, decepar, dilacerar, romper. Sangue, fluxo, derrame.

Mas entre nós, do que falta, sobra pedra sobre pedra. E eu não fui feita para cozinhar. Eu me congelo ou me faço brasa, lava. Eu estorrico tudo quanto pretende me dobrar. Eu não tenho calma, eu não tenho paz, eu não quero paz. Não quero ser a escora das suas fronteiras, nem de fronteira nenhuma, quero derrubá-las ou seguir solitária. Eu só conheço a liberdade.

Me desculpe, mas eu não faço questão. Sempre segui na contramão, contra a corrente, derrapando na curva. Estou machucada demais e não quero alívio temporário, primeiros socorros, parada improvisada, feriado prolongado ou licença médica. Quero vida inteira, transbordando, explodindo. Tudo aquilo que o que eu desejo é exatamente o que você se nega.

Me desculpe se para mim o amor não é um campo de batalha. Cultuo o ceticismo das armas. Eu não luto para conquistar afetos, eu não entro em competições, eu não busco troféus. Eu sou dissidente. Vivo na utopia da espontaneidade, num universo fictício no qual, acredito, nós somos acidentes.

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