Para o outro lado do abismo

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Imagem: Edward Hopper – Interior (Model Reading)

Eu sei, tanto quanto não gostaria de saber e imagino que você também já saiba, dessa forma insuportavelmente consciente, que todos nós temos os nossos abismos. Caminhamos entre eles vendo os outros de longe, carregando o inevitável paradoxo de não podermos simplesmente ignorar, que temos um abismo só nosso que é também um abismo de um outro, que é um abismo só dele e, assim, tentamos nos comunicar. Há modos infinitos dentro de um limite restrito, multiplicado por peculiaridades muito sutis.

Eu tenho observado, dessa forma insuportavelmente consciente, como imagino que você também faça já há algum tempo. Depois de encarar o abismo, não há raciocínio que resista a uma profundidade imensurável para chegar ao outro lado. Desistir é sensato. Buscamos outras saídas. Aqueles modos infinitos dentro de um limite restrito, multiplicado por peculiaridades sutis.

Muitos gritam tentando se comunicar e se alegram ao serem ouvidos, mas não escutam bem e não sabem, também, o quanto, do outro lado, podem lhe escutar. Continuam, ainda assim, berrando entre si, encomendando atenção para não sucumbir ao desespero de mergulhar, novamente, na profundidade densa, entre um e outro, abismo.

Existem os que dispõem também de gestos dramáticos, cômicos ou metódicos. É verdade, desenvolvem seus métodos mímicos para se fazerem entender, mas não enxergam bem e não sabem, também, o quanto, do outro lado, podem lhe enxergar. Continuam, contudo, convictos a se gesticularem, alimentando com a sua dança solitária a fantasia de conexão, para não sucumbir à solidão sóbria de assumir a profundidade densa, entre um e outro, abismo.

Há os que constroem castelos, montam bancas, ornamentam o corpo com ideais imaginários para se fazerem distinguir, mas não distinguem muito bem e não sabem, também, o quanto, do outro lado, são distintos. Acumulam, de qualquer forma, infantarias estéticas para prevenir o vazio profundamente denso, entre um e outro, abismo.

Inúmeros levantam bandeiras, marcam territórios ideológicos, atacam, revidam e se fazem, a seu ver, referência. Mas não assumem outros limites que não sejam os seus e não sabem, também, o quanto são, do outro lado, limitados. Persistem, todavia, em seus duros enquadramentos, cultivando a ingenuidade para atenuar a fatalidade da profundidade densa, entre um e outro, abismo.

Como antes eu disse, mas imagino que você já sabia, dentro de um limite restrito, há modos infinitos. O paradoxo é inevitável. O corpo contornando uma individualidade irremissível, que só se delineia única porque outros corpos se contornam distintos, do outro lado daqueles abismos que compartilhamos, mas que é só nosso.

Desprovidos de utopias, como suportaríamos? Há vários, de tão frágeis quase invisíveis, que se jogam no vão, entre um abismo e outro, confrontando a profundidade densa com um mergulho de cabeça. Um mergulho infinito. Desses, os olhos embaçados já não permitiam ver o outro lado, nada que não fosse, abismo.

Acidentados, existem, ainda, aqueles que tentaram fazer ponte e, tornaram-se ponte, pois não tiveram quem os levasse para o outro lado. Se cansam cedo, esticados, esgotados, pisoteados diariamente entre um abismo e outro, com vista privilegiada para a profundidade densa, abismo.

Eu sempre soube, como imagino que você também sabia desde o início, que ignorar é a salvação. Só o que não consegui descobrir é salvação de quê. Poderíamos viver de tentar encontrar uma saída – uma forma de alcançar o outro lado, de tocar com os sentidos, de falar sem ser no grito, de ouvir no pé do ouvido –, sem corrermos o risco de escorregar e desabar na profundidade densa do abismo, exatamente como vivemos no esforço ignorá-lo.

Poderíamos, como fazem os raros, melhor diria, lendários, nos isolarmos em nossa própria profundidade densa e nos descobrirmos abismo em harmonia com todos os outros abismos. Poderíamos muito, podendo tão pouco, como podemos agora. Mas eu ando em tormento com essa consciência insuportável, sem querer ignorar, sucumbir, me isolar ou me perder nos labirintos da razão.

Não tenho respostas nem objetivo. Diante de mim é lúcido, esse cenário quase onírico de que, semelhante ao que acontece com todos os outros, há um abismo entre eu e você. Não encontrei meios de contorná-lo, pois eu sei, como imagino que você também já saiba, que desses meios não dispomos de verdade.

No tormento dessa consciência insuportável, ao contrário do que imaginam os que me veem de longe, mas não enxergam muito bem, não sofro de desespero e, por isso, não me saem os gritos dessa tempestade tranquila, eles não nasceram. Você não escutaria bem. No fértil paradoxo inevitável cresce o silêncio, que pode ser ouvido inteiro.

Dos gestos, disponho do necessário, deixando-os para a dança do encontro – essa utopia de sustentação que me mantém aqui, de pés firmes, desse meu lado do abismo. De qualquer forma, você não enxergaria bem. Abro espaços à contemplação que melhor se demora na suavidade espontânea do que nos dramas forjados.

Deixei, também, as bandeiras de lado, arruinei castelos e ornamentos, para não me cegar com distrações e, quem sabe, seguir de um abismo a outro, sempre que tiver a chance. Pois eu sei, como imagino que você também já saiba, que entre os tremores e imprevistos, passagens fugazes se revelam entre os limites profundos e densos dos abismos.

Mas eu não tenho respostas, objetivo ou salvação. É que eu descobri mais cedo, como imagino que você também já tenha descoberto antes, que existir é mesmo meio sem sentido. Então, fiquei em paz ao te ver do outro lado, tão distinto em toda a sua ausência.

Pensei: pode ser, quando vierem os tremores e acidentes… Foi quando uma folha pródiga me tocou na lembrança da leveza e da intenção transformada em carta avião ou pássaro. E não há abismo que resista à profundidade densa dos espaços, entre uma palavra e outra, escrita.

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