Do músico andarilho aos ouvidos apressados

Músicos ambulantes - mosaico romano S I - aC

Imagem: Músicos ambulantes – mosaico romano S I – aC

Sem importância, sem valor e desprezível, eu nem deveria estar no dicionário. Pequeno, minúsculo, tênue, diria que é valioso ser esse valer tão pouco ou nada, leve, sem preço, tornar-se escorregadio, surfar para fora dessa teia metálica e cortante das pequenas dominações. Porque poder, como vejo muitos a buscá-lo, acaba por tornar-se poder ser triste, poder ser amargo, poder ser cretino. Eu não posso poder algum. Estou em movimento, não poderia nada que não fosse como um acidente, no presente.

É, no máximo, o que sou: um acidente incomodo que distrai o rumo dos jogos estruturados e tensos. Penso, com essa inocência que resta bruta e insistente: querem descontrair-se, querem prazer, mas não sabem como. Toco o violino da leveza, invocando a Dionísio, e até o meu grave é agudo, atormentando as cabeças concentradas em construir o vazio. Caem sobre mim como muralhas destroçando-se, mas escapo porque sou uma pequena esfera feita de elipses. Eles não sabem o que fazem. Perdoo. Mantenho o coração livre.

Por vezes, param para me ouvir e apreciam as pequenas coisas, mas morrem de medo de “perder vantagem”, que há um mundo real que parece imposto. Ninguém percebe que ele é posto e poderia ser recomposto? Há quem prefira ser escravo e se orgulha disso como um rei. Há sempre quem seja mais “fraco” e possa ser pisado. Há sempre um menor a dominar, a humilhar, que permite fazer papel de monarca ao miserável. Que há de mais doce que a auto ilusão concretizada na ferida alheia? O mundo anda cheio de vampiros.

É uma dor imensa que os enlaça pelo pescoço e transforma. Não são tão maus, são apenas frágeis demais para mudar de ideia. Rígidos demais para rebolar na comédia da vida, preferem a tragédia. É verdade que é trágico receber o riso cômico, mas, ao oposto, uma sólida nobreza de espírito é necessária para atravessar os portais da tragédia. Sem querer um, sem poder outro, ficaram no caminho simulando poder – perderam a graça. Eu rio desse poder sem poder e, como não percebem o cômico nisso, julgam-me louco.

Mas é que meu riso é tão bárbaro, tão visceral, com essa magnificência com que me deforma os músculos e me faz sentir o coração numa dorzinha prazerosa. Você não quer sentir? Não querem. Me disseram que preferem tornar-se uma caixa de papelão bem cotada pela bolsa, ou uma bolsa de marca, um sapato de luxo, um saguão de hotel fino, uma franquia bem-sucedida, uma caneta de colecionador, uma arma ou, até mesmo, um calibre de arma! Desde que ser humano perdeu o valor, dizem. Tentei alertá-los: nunca teve valor, sempre teve valor. Não percebem que valor é escolha, então chamaram-me louco.

Prossigo escorregadio antes que me lancem em grades de hospício. Prossigo rindo, pois em meio a cacofonia de discursos há sempre cocegas ligeiras. Eu não tenho um nome para que me chamem. Eu não faço sentido. Insignificante. Vocês esperavam um final? Eu paro por aqui. Como disse, sou um acidente. Prossigo. Contradito. Sem ser visto. Uma liberdade retumbante acompanha em percussão a minha flauta de viver.

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