Aos sonhadores do submundo

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Vocês que pensavam que no segundo milênio o mundo teria seu fim, fiquem calmos, ele prossegue duro, um pouco imaturo, como sempre, tem gente demais, como nunca.

Aqueles, menos pessimistas, que por amor ou encanto sonhavam com empregadas cibernéticos e nervos de pedra, bem, temos selvas inteiras de pedra feita massa e nervos líquidos. Do metal o lítio no corpo do indeciso emocional o faz empregado de papel.

Nossos carros ainda não voam pelo céu, por vezes voam pelo asfalto, liberando dos fardos de carne anjos e demônios fabulares, que prosseguem ligeiros na mente rodada dos que os conheceram.

Nem todos nós nos alimentamos de capsulas e tampouco elas se transformam em banquetes. Delas se nutrem aqueles que querem consumir o corpo até que se torne enfeite.

Existem também os comprimidos para alimentar a alma, os alucinógenos de sempre, assumidos ou recalcados, alimentam os delírios de potência, paz, poder, posse, pessoa.

Não passaram por aqui alarmantes os seres de outro planeta. Se passaram foi giro discreto, como quem faz uma parada breve para o lanche em uma loja de conveniência cara e insalubre numa rodovia qualquer e engole ansioso, deixando vestígios de pressa, seguindo logo em direção ao que interessa.

Ainda não nos destruímos todos, nem destruímos tudo, mas já destruímos muito, tenham fé, que um dia chegaremos lá.

Também não conseguimos ainda levar nosso corpo indiscriminadamente pelo tempo. Ainda somos presa do presente, mas temos pressa. Frustrados não nos teletransportamos pelo espaço infinito, somos um tanto quanto restritos e limitados, embora quando embriagados de rede e luz, nos distraímos com a ilusão de termos o universo a um gesto de nossas mãos.

A nossa eletricidade ainda é parasita da água em sua maior parte, e também o é a energia do corpo, como já sabem. Poluímos as duas em igual proporção para equilibrar a culpa e fortalecer a ilusão de que nem outra nem uma nos fará falta alguma.

Prosseguimos. Ainda há escravidão, assumida escondida, disfarçada explícita, temos discursos como algozes da ingênua filosofia elaborada por máquinas.

Com tudo isso, e muito mais, e o tanto que sempre está surgindo, por que eu diria a vocês, então, que não estamos evoluindo?

Temos para a comunicação as mais exímias tecnologias, vocês não acreditam! Bem, isso exceto pelas línguas, que agonizam todos os dias, definhando uma a uma, a fim de dar espaço ao ruído universal balbuciante.

Temos meios de encontro e interação com qualquer pessoa no mundo. Pensem em como isso amplia nossos rumos! Mas, não é bem assim: é virtual. Eu explico: é como um encontro entre almas de outro mundo, como eu falo com vocês que a esse mundo já não pertencem mais. Só não considerem “almas” no sentido estrito, elas estão em falta em nosso mercado restrito.

Evoluímos também nossas torturas em sofisticação e amplitude de alcance. Uma delas todos vocês conhecem bastante: a solidão; uma das outras nem todos: a televisão.

Bom, eu poderia continuar com um inventário das nossas invenções, de modo a acalmar os seus espíritos penosos que tanto me atormentam – ao menos a alguns de nós penam com suas invenções fantásticas de pensamento -, para que não pasmem que ainda não realizamos todos os seus sonhos de carne e possam seguir tranquilos os seus instintos de plasma em outra direção. É que como vocês sabem, não se pode dar tudo a uma civilização.

Não se preocupem e aproveitem com contento que essa empreitada humana já não lhes diga respeito. Estamos em outro caminho. Sim, cheio de novidades. Não direi se esse caminho é mau ou bom.

Digo apenas que de tudo o que evoluímos, das coisas que construímos, das fantasias que quase transformamos em realidade, se na tecnologia caminhamos um tanto, nos equilibrando nas rodas de pedra de uma ciência cheia de verdades, há um tanto que nos tolhe, há um tanto que nos falta, no íntimo e no trato, evoluir em humanidade.

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