Aos deuses um bilhete do homem que perdeu a fé

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(Fotografia de Andrea Romito – I Tarocchi di Fumo)

Permanecia auto exilado em seu sítio, cercado de mato e bichos. Restos de cera e manchas de fogo requintavam a decoração. Quantos dias? Meses. Ano. Como todos os dias, acendeu uma vela e tentou fazer uma oração. A mente revoltava silêncios. Recusado ou recluso? Do Tarot de Marselha ele tirou novamente “O Eremita” em resposta ao pedido de recuperar a chama da vida em seu coração. Cansado de orações, rasgou palavras no papel, gritou feito louco para o vazio, jogou as palavras no rio. Deu um mergulho oco. Encharcou mais uma vez o colchão – dias secos, noites lágrimas.

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Como eu vim parar aqui? Nesse buraco de vida, nesse buraco de mundo? Me lembro que outubro, outrora, no ano que passou. Não tão passado assim, já que me rememora, meu coração dançava vivas, ao tempo e às expectativas, mesmo que quando, neste tempo mesmo, também chorava minha alma, como previsse o desencontro por vir.

Vivia como dançasse na chuva, tinha festins no coração e as desgraças eram desdobras de acaso. Nenhum descaso do destino que não se realizava poderia me abater. O mundo andava lentamente e eu corria na contramão, esperando o acontecimento. Acontecendo. Minhas esperanças frustradas me arrancavam o sono, me arrancavam lágrimas, mas do espírito não me arrancavam a luz. Prosseguia!

O que me trouxe então a este abismo? Onde dos homens não percebo presença de alma ou coração? Os amigos, parece, se encontram em outra dimensão. Estou restrito em emoções aos animais e às plantas. Poucas, mas mais do que nos homens eu sentia. Eu buscava antes um pranto de alegria e agora, seco, seco as lágrimas não vindas em velas coloridas que choram ante meus pedidos pouco ambiciosos.

Oro contra o meu ceticismo, aos deuses que ainda puderem me escutar, apesar da magia queimada na fogueira da intolerância. Rezo ao coro universal que cante a minha canção. Peço… apenas… um pouco de amor em meu coração, para que eu não precise seguir tão duro, enquanto cumpro minhas penas.

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