Para minha amiga perdida

O-Pequeno-Príncipe

Eu sei que quando as coisas vão mal, quando as dores gritam mais alto que qualquer razão, não há palavras que possam fazer sentido, nenhum consolo possível, tudo parece banal e vil, o cinismo toma conta das nossas aspirações, das esperanças, até respirar é pesado e o ruído do ar entrando e saindo irrita por lembrar suspiros. Eu sei que você anda tentando se endurecer, mas eu não vou simplesmente aceitar em silêncio essa sua tentativa de transformar-se em cacos para caber nos espaços limitados que te impõem as circunstâncias. Pessoas com você são mesmo assim: sem lugar. Aceite isso, apenas, é um elogio da existência, enquanto tantos pulam de caixa em caixa, você está destinada a voar. Isso pode ser muito solitário, e sei também que te atiram pedras a cada pouso seu. Enquanto as feridas sangram, não há remédio nos conselhos, nem beleza poética que abrande as mágoas e o desespero. Que se faça dura, sim, mas flexível, do tipo que não quebra nem arrebenta, porque é assim que você é.

Sabe que te chamam louca, chamam loucos tantos diferentes de nós, mas diferentes também dos outros, loucos – nós mesmos todos assim nos chamamos, porque assumimos um certo orgulho em decepcionar as normas. Sabemos também disso a falácia. Enquanto pessoas se matam por pouco, objetos perecíveis e frágeis cheios de significados vazios, enquanto travam batalhas de hostilidade por pontos de vista comerciais e vestem orgulhosos camisas cheias de suores outros e sangues outros até, nós preferimos a nudez e a liberdade de não acumular pesos inúteis. Enquanto cantam em coros gregorianos, nós destoamos agudos líricos e quebramos vidraças somente com a força do nosso timbre. Apesar de toda a desgraça que toma o mundo, somos nós os “assustadores”, porque não damos bola para a convenção e decidimos viver a própria vida sem prejudicar, mas incomodamos porque não aceitamos a solidão como cativeiro – solidão mesmo apenas por gosto.

Mas agora, você, se isola por desgosto. Dessa sua inocência astuta deve ter nascido mais uma decepção deformada. Eu sei que os anos vão nos deixando casados de lutar simplesmente para poder existir. Da fadiga caímos em lugares apertados e escapamos da asfixia com o mínimo de forças. De tempos em tempos é preciso parar para reinventar-se, sabendo que não há conforto que nos aguarde. Não desfrutaremos dos amores prometidos a não ser daqueles que inventamos, seremos abandonados por todos aqueles, que são tantos, muitos até são quase todos, que não compreendem esse movimento de ir e vir – essa mudança constante ainda é entendida como inconstância, enquanto inacabados consideram-se completos, os inquietos continuam a construir e lembram do eterno por vir. As pessoas querem dessa paz morta, enquanto você, também desejosa de paz, só consente em retirar-se no tempo para explorar novos espaços, tenta acompanhar o ritmo de criação da natureza que nunca para, e surpreende vida mesmo nos territórios mais hostis.

Eu entendo a sua necessidade de isolar-se e a dificuldade disso quando tão poucos respeitam que alguém possa precisar desse silêncio dos ruídos demais. Mas eu sei que esse seu silêncio, de agora, não é silencioso. Eu escuto seus gritos daqui, de nem sei onde a distância que agora nos separa, como se viessem de um outro mundo onde nem mesmo você pode alcançar para encontrar-se. Nós. Ninguém é imune a derrotas tão devastadoras que podem acabar por nos minguar a vida ainda que o corpo continue. Eu sei que você está resistindo, mas está tentando fazer tudo sozinha. Nessas horas essa pode não a melhor opção, nem sempre temos tudo o que precisamos para ajeitar os ossos quebrados no lugar. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, assumir as fraquezas não é fazer-se de vítima, aceite, apenas por uma questão de sobrevivência – porque precisamos disso para viver. Você não seria vítima nem que quisesse, é dessas que mais poderia fazer muito mal, mas escolhe essa bondade maluca que rompe da indiferença aparente e espanta as defesas de quem recebe a surpresa do sorriso gentil que brota do seu ar cético. Mas, agora, você simplesmente se retira do mundo…

Já faz algum tempo que você escolheu não falar mais de todos os seus problemas, e há uma beleza misteriosa nessa sua decisão de esconder as lamúrias para construir trágicas cidades submarinas. Disso eu não critico absolutamente nada, sei que caso falasse não seria nem tão diferente assim, como concluímos certa vez, persistir em certos problemas, nestes maiores e sem jeito, não cria soluções e, escutando vozes em demasia sobre eles, podemos acabar por nos confundir tanto que acabamos é por novos problemas encontrar. Mas desse augúrio silenciado, penso, é que veio o seu sumiço prolongado. Problemas não são apenas ideias – coisa essa que ouvido nenhum pode entender -, são vivências, são vividos, eu sei, você deve ter se machucado de mais na sua última aventura. Talvez carregue cicatrizes das quais nunca poderá se orgulhar e não possa mesmo simplesmente perdoar os ocorridos e nem a si mesma. Sejamos realistas, que a vida só é bela pela insistência e nunca espontaneamente, não para ser humano civilizado. Todavia, você sempre esteve decidida a continuar assim mesmo, treinando o olhar, resignificando os sentidos, dispensando a crueza… Ser o desequilíbrio para equilibrar, para dar movimento distinto a essas filas que andam em círculo. Se, por acaso, deste poder seu tiver perdido a crença, e por mim tem a afetada consideração que declarou certas vezes, leve bem a sério: eu acredito nisso menos porque não tenho dúvida alguma. É mais fato que fé.

Quando você finalmente decidir voltar, como já sabe, não haverá nenhum abraço te esperando – desses que você deseja; nenhuma surpresa grande acontecerá a não ser vinda de você – desses incômodos de ser pessoa que faz mais do que recebe; também não irão te procurar os seus amores perdidos, e muito menos provável é que te encontrem amores novos – a exploradora de novos territórios sempre foi você, sempre atraindo um tanto, mas procurando por algo específico, sempre decidida a não permanecer até encontrar; ainda, as pessoas não terão se tornado mais sábias, nem mais gentis – melhor mesmo é preparar-se para o contrário, o mundo anda errado de mais, mas, você sabe… continuarão dizendo que errada é você. Continue a brincar com isso como quem escuta injúrias de uma criança contrariada – é como as coisas são. Aceite. Uma vez nós aceitamos, e desde então nunca mais tentamos seguir a linha reta que não nos permite ver o caminho em frente. Já tive desses dias ruins, meses, anos até. Mas não vejo sentido em deixar-te aí, repetindo para si os rótulos que te jogaram – mas que na sua escorregadez jamais poderiam colar. Sei que os rótulos que te jogaram agora não foram adesivos, mas munidos com estacas. E é destas que precisa de ajuda para se livrar. Você não precisa fazer isso sozinha.

Somos todos muito individualistas e ensimesmados no que damos a ver, mas a verdade esquisita é que, por essa escolha absurda de ser inteiro é que sabemos valorizar todas as iniciativas e compadecer com as dores de quem se machuca por não aceitar usar coleiras-uniformes. Tentar entender a liberdade e vive-la tem dessas, mas não é agora, depois de tanto passado, que você voltará a se enganar achando que estes que andam na rua com sorrisos estereotipados sofrem menos… espero. Se o seu sofrimento estiver tanto a ponto de tais alucinações, deixe que alguém se aproxime com malhas umedecidas de afetos legítimos para te curar a febre das angústias. Deixe que eu ou outro – é certo que você tem alguns amigos inconvenientes tentando se aproximar. Pessoas que te amam não apesar, mas exatamente pelo que você é. Pessoa perdida. Perdida dessa ordem lamacenta que beneficia os piores juízos. Perdida da injustiça atrasada que ainda acha mais importante vestir togas do que transformar-se em justa. Perdida dos relacionamentos de conveniência que condenam vidas inteiras ao vazio de ter apenas. Perdida das regras sem sentido que buscam perturbar a vida privada para abafar os absurdos feitos dos interesses coletivos. Perdida das discussões sem fim, sem finalidade, sem atitudes, que apenas incitam e camuflam emoções mal resolvidas. Perdida de querer agradar. Perdida de achar que nunca tropeçará nas próprias convicções. E aí é que nos perdemos mais querida. Somos demasiadamente apaixonados para sermos firmes. Como antes eu disse: somos flexíveis. Deixe ser. Não se imponha tamanha perfeição.

Volte para o mundo. É ele que te espera ansioso, mesmo que não manifeste isso em um abraço, em um amor, em uma surpresa boa. Volte para o mundo – que ele é que está precisando de um abraço seu…

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