Para um presente com pouco passado e nenhum futuro

fim

Agora, eu queria poder te dizer que me procurasse antes que eu “esqueça”. Uma resistência em deixar algo que parece valer… Mas essa coisa, do tempo dos outros, do tempo da vida, do meu tempo que nunca se encontra com nenhum tempo, me cala. A verdade é que depois de algum tempo, me dei conta de que nada disso tem a ver com tempo ou espaço. Nós escolhemos, criamos momentos e abrimos trilhas, nós agimos ou nos contemos. O que faz encontros são atos, tudo o que é vem do movimento. Não se trata de um passar rasteiro involuntário. Esperar é inútil quando as vontades não se manifestam mutuamente.

É aquela coisa triste, dentre tantas coisas tristes que são resultado da mesquinharia a qual estamos habituados. Aceitamos de pronto os uniformes que nos oferecem como suposta opção, acreditamos que isso nos levará a algum lugar elevado, e leva, mas nunca é ao lugar onde desejamos estar. Passamos nossa vida nos dedicando a coisas e a pessoas que certas convenções nos fazem acreditar que têm valor de fato. Mas quando o tempo passa – e aí sim o tempo – ele revela a falha das escolhas que fizemos, já que não nos esforçamos em questionar sobre todos esses valores que cultivamos de bom grado, embora eles não tenham nascido da nossa experiência, do nosso interior. Daí percebemos o que perdemos no caminho, o que deixamos, o que já não teremos tempo ou espaço para viver – extinguiram-se os materiais para a criação o espaço é exíguo a solidão é latente. Todos os que não se arriscam a viver, arriscam-se a se dar conta disso em algum momento, talvez tarde demais.

Alguns sucumbem à amargura, outros tentam desesperadamente e em vão anular os efeitos do passado. Não há retorno, a vida pode até seguir torta, mas segue em frente. Não adianta que daqui há não sei quantos anos você perceba que errou e queira viver algo que ficou para trás. É preciso coragem para ser jovem sem medo do futuro, e sabedoria para ter coragem sem destruí-lo. Quanto esforço estamos dispostos a dispensar com isso quando temos tantas soluções prontas a serem pagas à prestação? Enquanto você tenta construir uma carreira e uma reputação para morrer, alguns poucos vivem, e você critica. Realmente não entendendo essa coisa de precisar lidar com a morte ou com o fim para enxergar o verdadeiro valor das coisas. Há lugares para abstração fora da academia.

Por outro lado, eu não nego minha culpa desse aperto no coração que me perturbará até amanhã, até que eu esqueça. Estive ignorando todos os seus vícios e exaltando suas virtudes. Aquelas coisas de quem está embriagado de paixão e não enxerga que o bom pode tornar-se nocivo – excessos unilaterais. Te enchi tanto de si, quem sabe até para me esvaziar um pouco de você, que alimentei um mito, ajudei a criar um monstro, desses que transformam tudo o que tocam em ouro. Agi de tal forma que meu entusiasmo pudesse ser confundido com debilidade, que meu amor pudesse ser confundido com anulação – você me enxergou ali, para sempre, até que pudesse estar suficientemente confortável para assumir, ou, o que realmente deve ser, já estava confortável o suficiente.

Este é o erro de todos nós, que atraímos o que não queremos, e o que queremos, atraímos quando já esquecemos. Nos condenamos à ironia da vida por não sabermos ou não aceitarmos jogar. Agimos de acordo com o que sentimos quando o assunto é sentimento, agimos com a razão quando se trata da razão, não misturamos nem excluímos e confundimos tanto, que nos confundem com os que estão fadados a misturar. É que nem todos sabem dançar tango com os afetos ou fazer malabarismo com as emoções. Os alojam em caixas e creem estar tudo em ordem. Mas não há na vida material impermeável nesses assuntos. Misturam tudo e se iludem com a segurança de estar tudo em seu devido lugar. Sem toques ou trocas. Trocam os pés pelas mãos.

Eu realmente não posso te pedir que me procure antes que eu transforme seus jardins em memoriais, mesmo sabendo que uma inversão levaria anos de desconstrução, que depois de tanto tempo me esforçando no luto pelo que foi perdido e ter finalmente seguido, certamente, eu continuarei seguindo e te deixarei apenas o relicário da nostalgia. É que eu prefiro sempre o presente. Do futuro apenas o necessário e os furores dos planos ingênuos. Do passado apenas o aprendizado. E dessa coisa que eu aprendi, sobre os que procuram apenas quando perdem, eu guardo a memória do descuido, do descaso, da arrogância que permite uma autovalorização tão iludida que faz do ser isolado cego pela própria luz, até que as adversidades da realidade o apaguem.

Eu não posso mesmo te pedir nada. Eu não devo te pedir nada. Porque eu nunca quis nada que não fosse verdadeiramente a sua vontade – e vontades legítimas não precisam ser imploradas para se fazerem concretas. Pode ser que eu tenha errado nos meus instintos, me enganado nas minhas vivências, me embaralhado na minha percepção. Talvez eu tenha visto coisas… Só me importará até amanhã, até que eu esqueça. Até lá eu assumirei a loucura que você me empurrou por rótulo – serei tão louca que, como tal, quando te ver novamente te chamarei alucinação. Pois sei que nada é esquecido enquanto for alvo do desejo de esquecimento, uma vez que assim ainda acaba no alvo do desejo: eu vou me lembrar loucamente. Vou escrever a história. Vou me ater nos detalhes. Vou mastigar cada fato lentamente. Degustarei as memórias experimentando diferentes temperos. Espalharei cores nas vivências que foram – irei reinventá-las sob novos formatos, irei cantá-las, irei dança-las. E de todo desgosto ao menos a poesia… Eu vou com o meu amor, vou enchê-lo de mim e semear por aí.

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