Carta de um perdido para angariar encontros

perdidos

Eu continuo escrevendo para você. Como disse que jamais faria. Investigo modelos de luz nas suas lembranças suvenires para inspirar minhas imagens cores. Transgredi a distância investida e quebrei o cristal onde havia aprisionado meus sentimentos. Retirei as emoções das caixas de comportamentos adequados para evitar os conflitos. Eu estive cansado e não queria mais conflitos. Continuo a não a não os desejar. Meu desejo está por inteiro investido em uma valsa com sonhos lúcidos. Despi-me das ilusões. Aceitei deixá-las no limbo da angústia de não poder. Nos meus sonhos eu posso. Eu sei, são só sonhos. Mas a vida também é só a vida. E cabem nela todos os sonhos do mundo. É preciso estar vivo para sonhar. É preciso estar muito vivo. Ando vivendo.

E, por isso, é mentira o que eu disse sobre não me afetar mais – eu me afeto e vou de encontro. Deixei a fuga para os culpados. Sou livre. E vejo a beleza na sua vida. Não me cabe julgar verdadeiras ou falsas suas escolhas, e da dor que me causam as exibições, tornei-me forasteiro de novas estéticas vitais – nada de travar embates internos: procuro beleza e acho. Delicio-me em pensar que esteja feliz, e assim vai, e assim segue, e assim sigo. Vou com lembranças e invenções. Vou porque nunca pude parar. Parar é impossível e irrevogável. Sei que se olhar para trás eu não te encontrarei nunca, você estará sempre em algum lugar adiante. Sempre até que ao lado.

Estive criando novas coreografias onde antes criava empecilhos, danço para dar tempo, para distrair as expectativas – tornaram-se espectadoras. É que a vida é uma só, balé de improviso, performance, romances escritos, filosofias de cordel, cantos líricos, pinceladas rebeldes, poesia, invenção, múltipla. Os pensamentos não são orações: são por hora. É preciso mudar de ideia quando a ideia não nos acompanha. Nenhum caminho perdido, atalhos às vezes não levam a lugar nenhum. Eu vou contornando o lago onde moram seus olhos, esperando que o inverno passe, para que possa mergulhar novamente. Perdi o medo de me afogar, e não tarde demais, felizmente, as estações são cíclicas, mas o caminho é tortuoso, e girando nos braços animados da imaginação eu me deixo levar às tonturas. Assim a vida dá voltas mesmo que seja apenas diante dos meus olhos perturbados. Aprecio.

É que eu nunca acreditei que o amor fosse um campo de batalha cheio de rivais, competições e lutas vazias. Ainda não acredito. Nunca fomos inimigos ou aliados – estivemos perdidos. Não é maravilhoso? Só os perdidos se encontram. Os determinados e cheios de certeza apenas se determinam. Eu não poderia ignorar as nuances da paisagem ao redor para seguir reto e ligeiro. A vida é uma só. É preciso dar voltas. Eu sou tortuoso e caminho. Não paro por isso. Pode ser nunca ou amanhã – quando o tempo se vestir de espaço e movimento. Foi-se com o medo a sanidade branca moldada por trapos amarrados em nó. Que seja loucura se não for fato, poderei delirar você nos santuários da vida inventada, essa loucura escorregadia que desliza pelo mundo afora sob habeas corpus. Já não me importo. Os traços de realidade são perversos em demasia, manipulam e argumentam, mas não provam o contrário. Não vejo porque iria preferir o universo arredio acinzentado às possibilidades que pulam de suas pupilas adornadas de azul. Vivo.

Eu continuo escrevendo para você, como disse que nunca mais faria. Tenho prazer em me contradizer quando estou errado. Palavras nunca são vãs quando são verdadeiras – multiplicam-se. Construo pontes de universos possíveis para ludibriar a distância, já não aprisiono sentimentos em cristais ou emoções em caixas. Eu nunca serei adequado. Me contento. E contente deixo os conflitos para os radicais. Prefiro ser radioativo. Causo desastres nucleares de amor por onde passo. Não paro nem parto, desconstruo intenções. Espero enquanto sigo e abandono em trilha as migalhas de desafeto no caminho, não para te dar a direção, mas porque sei que serão comidas pelos passarinhos, e sem elas o encontro é possível – eu certamente estarei lá. E até lá, estaremos perdidos.

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