Uma carta para você, que não me enxerga

Dança (2)

Antes que você fosse eu desejei te abraçar. Sabia, sim eu sabia, que não era uma viagem longa, mas a ironia da vida mais uma vez brincava no meu funeral, porque as distâncias tão prematuramente encurtadas fariam do tempo um rastejar e dos quilômetros léguas. No entanto me contive, pois senti o estranhamento de uma distância que se fez antes do embarque, você estava ali, mas já havia embarcado, não havia para onde direcionar o meu abraço.

Fui abraçando os dias, às vezes tão apertado que doía as juntas. Tentava entender estes movimentos de abertura que logo se trancavam em uma torre, de ternura que logo se convertiam em aversão, um revezamento entre o calor e o gelo que me levaram à constipação emocional. De longe assisti ao golpe final às possibilidades desnutridas. Sabe-se aqui, na África ou na China que alegria não serve de alimento e esperança só preenche o tempo.

Me desdobrei entre torcedora pela morte das esperanças agonizantes e expectadora crítica de um Hollywood veneziano: fotografia impecável mas pouco criativa, como as fotos de uma revista comercial, um tanto de ostentação do superficial, nenhuma poesia, nenhuma declaração, sorrisos fáceis e moldados, como musas num ensaio para o carnaval. Fantasias e máscaras marcando o destino de uma vida. Na minha posição crítica, entre um drama documental e um romance realista clichê, desejei mergulhar por territórios oníricos apenas, onde os pesadelos mais místicos seriam melhores do que assistir, atada em minha camisa de força, no ápice de uma lucidez lancinante, um dueto paradoxal sobre a estagnações da vida.

Desejei desejar-lhe felicidades, desejei não desejar nada, desejei apenas que o tempo não fosse nunca um encontro – por quê, para logo abortado? Livre do encargo das atas brancas engessando meus braços, já não daria mais abraços, já não daria mais…. Desacostumei-me ao movimento e associei-me ao silêncio. Queria eu agora uma grande viagem só de ida. Era, então, tudo uma fantasia. Tudo o que parecia tão real, não passava de um sonho em vigília. Eram os gestos falsos ou meus olhos me enganavam? Eu me enganava. Enamorei-me do abismo que agora piscava sensualmente para mim. Desejei de volta a camisa de força, os braços atados, que para mais nada serviriam, mas ela se jogou à força no abismo, enquanto eu preferi continuar apenas a paquerá-lo de longe.

Desejei, ao seu retorno, abraçá-lo e empurrá-lo. Dar adeus e boas-vindas. Estava eu agora toda paradoxo, já não assistia, ouvia o dueto das minhas vozes. Vivia, mesmo que um paradoxo. Vieram nutrir-se as esperanças famintas, as possibilidades desnutridas, todas moribundas delirando de fome, delírios colossais. É a vida, é a vida. Nem sempre é bonita. Tornei-me mãe desses ideais para tentar educá-los – Tanta dor sem morte! Talvez ao menos sorte – transformação. Mas, não. Naturezas rebeldes persistiam logo em me convencer. Algo como uma maldição, quando já me enredavam em discursos utópicos outro golpe. Será esse fatal?

Vi que todo o sublime revelado e por mim vivido, entregue gratuitamente por simples condição de existência – amor sozinho morre de inanição; foi rebaixado ao nível mais mesquinho, por alguma confusão, por um mal-entendido – entendida eu como covarde a ponto de… Eu paradoxal, pude finalmente, então, entender bem: “ah, esse lugar, então é esse o meu lugar!”. Aquele era o meu lugar para você, no mais baixo dos baixos dos fazeres de um ser. Toda a prosa elevada era unilateral, senti-me por acidente em uma peça teatral, sobre um homem que representava e uma mulher que amava. Incondicional?

Sei que pareço romântica, e o sou, mas ingênua não, menos ainda estúpida. Não há nada incondicional em nível de prescindir de condições para existir. E sei, uma pena, o que é sublime não vinga no território do banal. Não que houvera antes apenas um território banal, mas ele, por fim, foi o que restou. Agora eu caminho por erosões cintilantes, acusada e absolvida, por ser desprovida de enfados polidos pago a pena da minha própria condição. Mas meu amor ferido dança sua resignação, e não guarda rancor, nem se transforma com a revelação desse pífio lugar no qual me colocou em sua consciência. Porque eu sei o meu lugar, e eu sei que o meu lugar, é em algum lugar, onde seus olhos não alcançam.

1 Comentário

  1. In fiecare zi trebuie sa fii fericit(a).Si asta depinde numai si numai de tine omule!In fiecare zi rasare Soarele ,in fiecare seara rasare Luna.Cine sau ce te impiedica sa fii fericit?(PS-abba sunt favoritii meei-Agn-tha=wrap your arounds me)

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