Aos encontros desencontrados

desencontro

Não sei como começar esta carta. Tão absorvido que estou, tenho diante do papel em branco a sensação de já não saber mais escrever. Não sei fazer introdução, nem mesmo escolher um assunto. Gostaria de escrever algo sobre o tempo, sobre os erros, sobre a dor, sobre o amor, sobre qualquer dessas coisas que agora comemoram em tumulto por trás da minha máscara de ausência.

Não sei chorar ou rir da ironia de que me tenha tomado as palavras o que tanto me fez escrever. Não sei chorar ou rir da teimosia dessa intuição imperiosa que me diz que algo não foi dito, não foi resolvido, não ficou claro – algo no ar. Tentando substituir todos os meus pensamentos por música, tenho agora um novo vício, consumiram-me as palavras, creio que agora terei que me tornar músico. Dançarino talvez.

Até mesmo a música se impregnou de você, na serenidade das notas, despretensiosas, livres, soltas, irregulares, narrando algo sobre estar perdido, pedindo calma, pedindo tempo, pedindo silêncio, finalmente te escuto, finalmente te encontro. Posso até mesmo dançar você, e não sei de que outra forma estaria tão próximo, tanto o desencontro da nossa vida.

Talvez fosse tudo uma questão de tempo – se tivéssemos nascido em outro tempo, se tivéssemos nos conhecido em outro tempo, ou se eu tivesse dado tempo ao tempo. Essa ludicidade irresponsável que me faz querer brincar de deus tentando tomar o curso de todas as coisas. Esse medo de perder tempo esperando. Perco. Novamente perco. Tenho ainda as vibrações do som para me perder.

Repito os minutos de melodia, volto logo quando ela termina, como se quisesse parar o tempo para não sucumbir ao desalento de não ver sentido em seguir em frente. Sinto que nem mesmo estive em algum lugar que me permitisse seguir para outro qualquer. Estou suspenso. Nesse universo onde as palavras não entram, ando brigado com essas línguas que nunca me ensinaram o poder de comunicar quando realmente preciso.

Ando suspenso nesse universo onde as palavras não saem. Creio que entendo porque repito, repito e repito a música onde encontrei você. Não há nada para ser entendido. Nestas letras onde as melhores intensões podem se tornar malditas, me dei conta de que não há nada que possa ser dito, esclarecido ou explicado sem equívocos.

Permaneço aqui absorto, me empenhando em ser absorvido pelo som, para transformar-me em som, e me levar pelo vento, pelo espaço, pelo tempo, pelo ritmo, ao seu encontro, como se encontra aqui comigo. No tempo das coisas, tempo que não poderia ser outro, tempo que faz única cada melodia. Só consigo pensar que há algo certo, algo que não pode ser dito. Apenas sentido.

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Carta de um homem que perdeu um encontro por muito tempo almejado, por estar perdido em si mesmo.

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