A Carta de um centavo – R$ 00,01

Charlie Chaplin (1889-1977) in

Percebo que você fica fazendo questão de me lembrar sempre que possível do quanto eu não tenho valor. Eu não valho nada, não cheguei a lugar nenhum, sou um torto na estrada, um zé ninguém, sem mérito algum. Minha opinião, é claro, em que te interessa? Em que te afeta? Eu sei que nada não, nem quis que fosse, nem há razão que tenha para opinar. Verdade, nem sei de onde vem essas supostas conclusões que me atribui. O que penso também é desvalido. Como bobo seu, como bobo do mundo, apenas brinco com trocadilhos. E o que sinto então, essa coisa fraca como poesia, afeto meu vale o quê? Não vale nada também não. Muito Não bumerangado, jogado vindo do outro lado, me acertando de raspão para voltar para suas mãos e novamente ser lançado. Gostaria de dizer que eu já entendi, não precisa continuar com esse jogo de ferir.

De tentar, de desejar, de sentir, não penso que eu estivesse errado. Errado de falar, de demonstrar destrambelhado, de pensar em me desculpar. Culpa de quê? De que vale afinal meu afeto, minhas desculpas, minha correção?

Você é dessas pessoas tão preciosas, que acumula razões como fossem diamantes, coleciona relações condecoradas nesse coração grande, guarda na gaveta as aventuras, juntos aos anéis e às canetas. Diante de tanta ostentação de valor, fico pequeno, mínguo esguio e mindinho diante da frieza dos seus olhos remexidos por alguma coisa: alguma dor, algum ódio, algum rancor? O que causa esse involuntário tremor? Eu saio me perguntando, mergulhando em minha angústia sem valor.

Feito o que há de ser feito, finjo indiferença, vou sorrindo, com as mãos no bolso e furos no coração. Permito-me perder em algum som, atravessando o rio da desorientada multidão. Alguns minutos de paz e solidão. Que no meu canto não há silêncio, meu pensamento é compadre das emoções, fica caçando razões, garimpando entendimento, conjecturando sobre esses sinais sutis de efeitos tão violentos: seria então, o que causa o seu tremor nos olhos o mesmo que me causa o tremor nas mãos? Não, é claro que não. Esse papo de compadres entre meus Eus e afins, perdição, sejam bons ou ruins, conclusão, só ilusão.

Pego a tesoura para cortar meus pensamentos, cortar meus laços, minhas expectativas, meus desejos, minhas frustrações. Faço bonecos de papel entrelaçados. Sem valor. Papel branco pautado, vazio de sentidos, de formas repetidas. Penso nessa reviravolta que é a vida. Montanha russa de todos os dias. Ando tonto, girando peões, perigosas voltas derrapando no desprezo. Sinto o fedor dos meus esforços queimados, das minhas investidas desgastadas, das esperanças carecas.

do amor desafeto

Já não me resta pretensão para amargura ou ira. Também não para alegria. Tristeza calma, quase sábia. Amadurecendo, então? Esmaecendo em vão. Amanhecendo, já tenho o sono perdido. Noites de sono sem valor. Fico pensando enternecido sobre os corpos adormecidos que resistiram ao conforto de uma posição pelo conforto de um abraço matinal. Não abraço qualquer, abraço escolhido, abraçado amado, abraço das noites anteriores. Abraços pesados em afetos e não em méritos. Abraços sem valor. Essa vulnerabilidade que é preciso assumir para receber o afeto do outro. Aos fortes demais e sempre, resta transformar o que vêm em ouro. Eu  sendo outro, sou meio embrutecido.

Dessa bruteza dos sentimentos, dos sonhos ingênuos, das esperas eternas, dos sonhos acordado, das cartas de amor. É dessa bruteza que das minhas mãos vem o tremor, nervosas de não poderem tecer redes nessa terra perdida. Seca? Estou sendo injusto? Que importa, não tenho valor, não vale minha opinião, ou afeto, ou pensamento. Não valem para você então me sinto isento, podendo falar o que quero, desenhando minhas feridas no teto do seu apartamento decorado – telepático o faço, do meu canto provisório e bagunçado.

Apesar disso, teimoso maldito, me doo e de dor não me importo, desse valor que não inspiro e nem me atropela às ambições. Eu sou um equilibrista de meio fio, ambicioso de sair voando, de ser livre para viver sonhos, de desviar das sombras de dúvida nos meus caminhos marginais, me embaraçar em soluções de levezas. Sou ambicioso de amor, de afeto desatento e desinteressado, mas sentido e cheio de ornamento. Ambicioso dessas relações que se marcam mais de infinito do que de contrato, mais de pinturas do que de retratos, mais de encontros do que de artefatos. Eu sou antigo, dos ritos da colheita e pela colheita, e não desses modernos algozes da terra.

Mas que importa o ser desse ser sem valor? Uma luz artificial, tremula – como estiveram seus olhos – se apagando diante nascer do sol me conta: não era você. Não é problema seu, não é defeito seu, não é maldade sua. Continuo engasgado de amor porque entendo seus medos, suas heresias contra os seus próprios sentimentos, suas defesas disfarçadas de firmeza. Entendo que apenas foge dessa opressão, que só seres sem valor, como eu, sentem-se livres para viver, por não terem do que perder nada a temer. Mas sofro pela sua perda, dessas coisas sem valor tão escassas que a minha experiência vagabunda de malícias poderia oferecer. E talvez só agora eu esteja sendo pouco modesto, por acreditar que nisso alguma coisa poderia te amolecer.

Da cabeça confusa, interrompo a lambuja imaginária para não adoecer. Com as noites em claro vão-se os sonhos. Com o silêncio a divagação. Com a realidade as expectativas. Eu sigo todos os dias, e não me importo, continuo a esperar alguma coisa sem valor da vida, pois só me nutro da certeza de que no fim, quando o corpo em greve ou interrompido se deixa desfalecer, todos nós, cheios de valor ou sem valor nenhum, teremos um encontro simbólico através do único destino comum entre todos os mortais. Enquanto vivo, eu tento só ser eterno. E quem sabe, nessa eternidade, deteriorados no tempo pela decomposição os seus valores, ainda possa me encontrar de fato com você.

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De um João Ninguém para uma Maria Alguém. – Dessas desajustadas declarações de amor, que só encontram espaço no esquecimento.

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  1. Você é dessas pessoas tão preciosas, que acumula razões como fossem diamantes, coleciona relações condecoradas nesse coração grande, guarda na gaveta as aventuras, juntos aos anéis e às canetas. Diante de tanta ostentação de valor, fico pequeno, minguo esguio e mindinho diante da frieza dos seus olhos remexidos por alguma coisa: alguma dor, algum ódio, algum rancor? O que causa esse involuntário tremor? Eu saio me perguntando, mergulhando em minha angústia sem valor.

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