Carta na esquina

Esquina

Hoje eu acordei me lembrando do menino invisível, datilografando cartas à um estranho em sua máquina de escrever, improvisando seu blog itinerante, encontrou outros transparentes, aprendeu a ser infinito. Acordei querendo ser invisível, como se fosse possível querer o que já é, como se não fosse. Ignorando a realidade, mergulhei na lembrança do livro, um patê de emoções, gosto e afeto, poucas palavras de boca cheia. Decidi escrever a um estranho qualquer. Sem máquina de escrever, sem tinta a postos para impressão, foi à mão, que conversava imagens dos meus sonhos de ontem.

Bem, eu já não espero ser infinito, foi tudo finito demais. Já não há amigos passando no vestibular, todos formamos, agora deformados vamos, vamos às seis da manhã, vamos às dezoito, vamos sempre, vivos ou mortos, nunca voltamos, que diferença faz? Tudo se afasta, finda, a vida parece infinita no vazio. Sou finito na vida infinita, tento me conformar. Ainda posso jogar uma carta da janela, e saber que ela vai parar na esquina, é meio como é o rumo da minha vida. Nada de meios e caminhos retos, nada certo, tudo esquina, encruzilhada de caminhos quaisquer.

Fui abraçando o papel, tocando, sentindo, pensando como seria, quem encontraria, quem leria as palavras de um desconhecido, quem lhe daria atenção, mais do que aos vendedores da rua? Ainda que a carta límpida, embrulhada em envelope, com palavras curiosas, cera de vela imitando passado, marca de anel de alumínio como se fosse cobre. Ainda que… Quem curvaria ao chão, para pegar uma carta baldia, caída de um andar esquecido, escrita por um qualquer? Não importa.

Pensei em falar da minha vida, mas não conseguia deixar de pensar na reação do estranho a quem destino essa escrita. Qual seria seu sexo, seu nome, sua cor, seus gestos para alcançar o misterioso papel, tocá-lo, abrir o envelope. Que diferença faria em sua vida? Diante das informações em demasia, às vezes acho todo mundo parecido nas palavras bem pensadas, nos impulsos todos muito diversos, é fato, impulsos não há como premeditar, não rola identificação, só momento, só descarga de sentimento.

Crio as imagens da diferença que não iria ver, do envolvimento que não iria tocar, do movimento dos olhos que não iria enxergar. Crio imagens. Palavras foram vazando cores e formas e eu não saberia expressar a não ser por desenhos toscos lembrados dos meus seis ou sete anos. Palavras foram fugindo, transformaram-se em som, em todo meio de expressão que eu não sabia, em tudo o que não poderia chegar a ninguém. Senti o calor do asfalto aquecido por todo o dia tocando a carta, queimando sua brancura, derretendo sua frieza, desvirginando-a da solidão.

Quis eu mesmo tornar-me carta e me jogar pela janela, na esquina, nesta encruzilhada de caminhos, ser pisado, esquecido, estranhado, milhões de estranhos passando por mim enquanto me deterioro e sinto o universo de baixo. Como se fosse possível querer o que já é, como se não fosse. Queria ser encontrado por um estranho, levado para o desconhecido, me sentir mais infinito e menos invisível.

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Apenas uma carta na esquina, de uma pessoa qualquer, encontrada na esquina, numa encruzilhada de caminhos.

1 Comentário

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