Carta à moça da outra mesa

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Algum Lugar com Pretensões Cosmopolitas e Realidade Provinciana,

14 de março de 2012

O Café Belas Artes é o lugar para onde vou quando quero me alhear do mundo. Não gosto de parecer taciturno ou distante na companhia de amigos, de família ou de namorada. Prefiro reservar-lhes o que tenho de melhor, corrijo, aquilo que eles entendem como sendo o melhor que tenho.  É que essa calmaria aparente que colore meus olhos quando me volto para dentro, intensificando o verde tão admirado, externo – internamente é caos e escuridão. Nestes momentos eu vou para o Café, peço um expresso ou uma cerveja, pego um livro e fico fingindo que me concentro na leitura. Mas são as palavras externas, ruídos desconexos, o movimento das pessoas ao redor que me interessam. É a forma que tenho de ceder diálogo aberto aos meus pensamentos, que penso, pensamento também, já não interessam a ninguém.

Contemplação, deixo-me perder nos borrões de gente, tantos também alheios, sinto-me acompanhado dessas pessoas solitárias, imaginando que também estão ali fazendo exatamente o mesmo que eu. Que todos têm dessa necessidade de solidão na vida, que vez ou outra, precisam escapar do ninho para algum lugar perdido, e beber dessa consciência de estar perdido entre pessoas perdidas. Distante – é tudo tão amável, é tão fácil gostar desses lugares e dessas pessoas com as quais não precisamos conviver, das quais não precisamos conhecer em detalhes os defeitos que carregam como cruz e defendem como filhos, você não acha?

Acontece que desse quadro que contemplo sempre de longe, distraído, descontraído, quase embriagado na beleza do vazio que encaro como expectador descomprometido, desinteressado, dia desses, duas mesas à frente, logo após os dois círculos de madeira tingida de negro, eu admirava outra arte. Não mais tela em movimento, quase me esqueci que estava  no café do cinema, pensei-me no café de um teatro, que você deve saber, não existe por aqui. Foi nesse universo de impossível que sua presença me lançou: arte viva, logo a frente, sentada diante de um expresso, lendo um livro – como eu fingia que fazia. Seus gestos lentos, sutis, quase imperceptíveis, seu piscar de olhos, sua postura, sua aparente ausência. Parecia representar para mim a peça da minha vida. Me senti naquele momento culminante de uma estória em que um encontro muda o curso dos acontecimentos.

Imaginei-me personagem de um desses livros cuja narrativa acontece lentamente, tecendo detalhes da rotina, daquela vida comum da qual não há muito o que contar, e repentinamente, uma decisão aparentemente inocente, resulta no encontro que mudará tudo, transformará a banalidade em aventura – chama de vela que inicia incêndios, chuvisco que evolui para tempestade, mar ligeiramente agitado que se converte em ondas gigantescas. Meu barco não está preparado, era só o que pensava. Por outro lado, eu poderia nadar. Vindo dessa calmaria da qual às vezes precisava escapar, não sabia se queria me livrar dela ou se era nela exatamente onde gostaria de estar. Você ali, naquela pose, naquele ato, naquela performance, parecia me desafiar. Eu sei, se me aproximasse uma vez, se ficasse, não voltaria a ter essa paz, mas teria outras. Uma paz vez ou outra talvez.

Quando me dei conta já não olhava para o livro, já não fingia, olhava diretamente para você, que logo percebeu, mas foi tão discreta. Percebi um sorriso sutil, desses que são bem medidos, contidos, que só aparecem nas pessoas que são donas de si, e sabem bem quando gargalhar, quando levar a ponta dos lábios às orelhas, ou quando confundir alguém através de um gesto breve, delicado e escondido. Um sorriso por trás do véu. Nesse momento eu peguei minha caderneta, e me pus a escrever para você. Não queria estragar o instante, toda essa genialidade do acaso que possibilita transformar a vida em obra de arte. Só havia na minha frente, você e o futuro. Esqueci tudo o que deixei para trás. Não sabia seu nome, não sabia nada sobre você, mas estava decidido.

Nos momentos de encontro estamos sempre decididos, pode ser que alguns dias depois mudemos de ideia, mas aquele é o momento onde a dúvida não existe: estava diante da mulher da minha vida. Não foi a sua beleza que me desestabilizou de tal forma, nem falarei dela, deve estar cansada desses elogios piegas que te descrevem o que está cansada de ver ao espelho todos os dias. Vê ainda mais que os outros, já que para si cada um pode mostrar toda a verdade das formas e detalhes do corpo. Mas como se estivesse mesmo num teatro, diante de uma peça, de um monólogo idiossincrático, foi a sua presença que me atraiu. Uma presença potente, um magnetismo do qual não pude me desvincular, nem mesmo enquanto escrevia aquelas palavras.

Pensava ao mesmo tempo em que escrevia como lhe faria chegar a carta. Se pediria a um garçom que a entregasse, se deixaria discretamente em sua mesa quando estivesse distraída, se esperaria em “minha mesa”, se lhe pediria um lugar à mesa, se iria embora deixando um endereço para contato.  Pensava, perdido entre a coragem e a falta dela, já infectado pelas responsabilidades deixadas em casa, responsabilidades com nome e registro em cartório… Levantei novamente os olhos do papel, como fazia brevemente enquanto escrevia para não perder por completo a delícia imagética da sua presença. Então me dei conta que nestes breves segundos em que meu pensamento se perdeu, já não havia ninguém na mesa. Você poderia simplesmente ter partido, ou poderia estar em qualquer uma das salas de cinema. Poderia estar em qualquer lugar.

Pensei em fazer-me ainda mais louco e ingerir cada nota de sabor desse momento insano que é o encontro, entrar em cada sala de cinema, verificar na penumbra cada rosto para ver se encontrava o seu. Dei ainda uma volta nos arredores após pagar o meu café, para ver se te encontrava na livraria ou na loja de souvenires. Demorei um pouco mais longo mesa onde você esteve, para ver se encontrava algum vestígio da sua existência. Nada além do cheiro e da sensação, e não consegui me fazer tão louco quanto gostaria. Simplesmente fui para fora fumar um cigarro e seguir com a minha vida. Estranhei que a sua presença ainda estivesse ali, e atentei-me para o fato de que não era necessariamente porque seu corpo se encontrasse nos arredores, era apenas a sua presença que continuava em mim, continuava comigo, e seguiria comigo para os próximos dias, sabe-se lá até quando, talvez até um novo encontro.

Miguel

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Essa não é a carta a qual Miguel se refere, escrita no café enquanto ele admirava “A Moça”. A carta do café foi entregue a Pedro, um garçom do lugar, junto ao pedido de que, caso ele voltasse a ver A Moça, deixasse a carta com ela. A improbabilidade disso era conhecida de ambos, e nunca antes Pedro vira aquela moça por ali, ao contrário, Miguel ele via sempre. Por amizade e carisma que se tem por aqueles que tão pouco se conhece, mas que a empatia conecta, Pedro permaneceu com a carta, e realmente se esforçou em reconhecer A Moça para entregá-la o papel escrito e endereçado na devida ocasião. Enquanto isso, Miguel não conseguiu se conter, e criou um blog apenas para escrever cartas para A Moça, sendo que o escrito acima foi o primeiro exemplar dessa nova obsessão. Algum tempo depois a namorada de Miguel descobriu sobre o blog, e mesmo que seu autor alegasse que fosse ficção, ela pediu que ele acabasse com isso ou o namoro estaria acabado. Ele continua escrevendo para A Moça, agora com menos uma responsabilidade “com nome e registro em cartório”. Todavia, A Moça ainda não apareceu… Dia ou outro Miguel pensa que inventou A Moça só para dar algum gosto diferente à vida.

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