Carta-desabafo de uma jovem que não queria ser comida como um pão

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enviado em 29 de março de 2012 1:39

“Não precisa fazer cu doce, eu só quero te comer.”

Essas foram as suas palavras de ontem. Em um segundo me lembrei de como nos conhecemos. Sim, foi algo recente, mas vou te lembrar: estávamos em uma festa, na qual eu não conhecia ninguém, recém chegada na cidade, tentava não ceder ao isolamento, embora nada ali me fizesse gosto de fato. Você iniciou uma conversa, me concedeu elogios pouco gourmetizados em comparação à declaração citada: inteligente, interessante, diferente, blá blá blá. Contou-me sobre seu receio da mediocridade, sobre sua família, sobre seu cachorro, sobre seus sonhos, suas frustrações. Eu ouvi e pensei que estava conversando com uma pessoa.

Passado um ou outro dia nos encontramos por aí, conversamos, conquistou-me até, um jeito estranho, parecia ter algo de uma pessoa que não fosse “mais um” seguindo as normas de negligenciar o outro em detrimento de morais ou egoísmos, os quais, honestamente, para mim, ocupam o mesmo piso. Eu, que não me prendo a velhos valores, convidei-o para tomar um vinho, mostrar meus livros, filmes, trocar estas experiências humanas, que até então pareciam lhe interessar. A mim interessavam. A mim interessa o humano. Vivo dessa ilusão de que ainda posso encontrar algo de humano em meio aos clichês comportamentais nos quais os homens tendem a se camuflar.

Te percebi um pouco impaciente, mas ignorei. Tudo bem até o beijo, não nego que me agradava a ideia, e então você veio além e te interrompi. Foi aí que você revelou a sua verdade: a de um homem faminto, a de um homem vazio. Meu caro colega, se você queria apenas me comer, para que se deu tanto ao trabalho de toda essa lorota sentimentalista e intimista na qual se embrenhou? Por acaso, também queria algumas sessões de terapia gratuitas, e se envergonhou em assumir? Se queria apenas me comer, tivesse sido claro desde o início, e teria logo uma resposta objetiva para o seu desejo objetivo.

Não vejo problema no sexo, acho natural, acho humano: isso não significa que eu esteja interessada em ter essa experiência com qualquer um e de qualquer jeito. Se isso é tudo o que você queria, dessa forma fria e vazia, bastaria ter me falado. Respeito que alguns estejam restritos a esse tipo de envolvimento, e às vezes isso é tudo o que uma pessoa precisa, no entanto, que fosse honesto em não subestimar minha capacidade de julgamento. Penso que como tantos, você é hipócrita demais para ser tão direto sobre as suas intensões.

Quer comer? Fale, assuma, isso te faria de fato uma pessoa interessante. Agora, desrespeitar meu tempo, minhas impressões, meus sentimentos, ou o de qualquer outra pessoa dessa forma, isso é doentio. O pior é que dessa doença epidêmica que assola as relações, as consequências não afetam apenas os seus hospedeiros, mas também aqueles com os quais eles entram em contato. Sinto-me doente, e dessa doença, tenho sofrido a dor de uma certa incapacidade de sentir. Sentir para quê, se no fim das contas só querem te comer?

Lembro-me que já pude sentir tanto, e por mais confuso e desastroso que fossem todos os resultados, todos os atos, todos os pensamentos, ainda assim eram, simplesmente naturais. No entanto, sentir é troca, e com o tempo, essa capacidade se deteriora quanto desgastada em aventuras unilaterais. De certa forma, essa sua expressão maquínica e caricatural, colocou-me em contato comigo mesma, com minhas experiências mais longínquas que me levaram a essa afetuosidade intelectual. Desse esconder-me no conhecimento para não correr o risco de perder os resquícios da minha capacidade em me afetar pelos homens.

Percebo que agora, envolvo-me em discursos e perco as pessoas no meio do caminho. Perco os afetos. Estendo os braços para eles, e não os alcanço. Longe de mais. Estou longe de mais. Não se mede em quilômetros essa distância. É um pacto diabólico consigo mesmo de não sentir. Para quê? Para proteger os sentimentos de pessoas como você. Para não se ferir, para não se fazer vulnerável.

Por outro lado, me dou conta de que mesmo depois de todo esse tempo, continuo frágil – ainda vulnerável, ainda instável, ainda impulsiva. Fui acumulando meus erros com nomes registrados em cartório, com rostos que logo se perderam na memória. Uma memória que já não funciona como deveria. Fisiológico? Psicológico? Não sei. E não poderia dizer – não ainda, – que agrido o meu corpo com tanta assiduidade para tê-lo deteriorado tanto. Às vezes tenho a impressão, de que minha memória se perde para proteger-me da autodestruição, e continuar errando na vida, até encontrar alguém que tenha uma alma, que tenha algo para ser compartilhado, e não para ser consumido como um pão.

Quando escuto um outro dizendo que quer me comer, enxergo-o como um zumbi, um ser que uma vez foi vivo, uma vez foi humano, mas que perdeu toda a sua capacidade para além das necessidades animalescas tão primitivas, que nem aos animais se compara mais. Um morto-vivo, que amargurado na sua perda de humanidade, incapaz de viver ou de morrer, se empenha também em tentar tornar assim os outros ao seu redor.

Essa indiferenciação objetificante nos ancorando à rótulos. Nos distribui em prateleiras de supermercados, com código de barras e tudo, afinal, é preciso saber identificar o valor de cada um. Todos ali, prontos a receber o julgamento dos consumidores, que também são produtos. Nessa lógica de consumo do outro, compreendo sua indignação à minha recusa em ser consumida por você, tão digno disso!

– Querem te comer. Querem te usar. Querem te vender. Querem te comprar. Querem te moldar. Querem te descartar. – Conte-me o que prefere? Como se ser objeto já não fosse suficientemente indigno de qualquer pessoa que preserve – e ame – o seu resquício de humanidade.

Quem quer te amar?

Falam de amor – falo também -, falam de idades – falo também -, falam de gêneros – falo também -, falam de sexo – falo também. Falam de tudo falicamente. Não há discussão ou pretexto que convença o troco do falado. Falas aleatórias. Quem pratica? Exceto pela diversão em discutir com quem sabe fazê-lo divertidamente, descomprometidamente – tão raros, desses que não nos magoam com as mais cruéis objeções, ou ainda aqueles que o fazem honestamente, sem bajulações e dissimulações; as relações são como um tribunal: réus, juízes, jures, público, – circo. Somos tudo isso ao mesmo tempo. Argumentamos para conseguir o que queremos – momentaneamente. Quem precisa se responsabilizar pelo que diz afinal? Adultos? O que é isto?

Argumentos. Para sermos advogados de nós mesmos, temos como arma principal tocar nas feridas alheias. Aquelas que podemos ver. Aquelas que podemos sentir. – Por que sentir o que há de pior nas pessoas? Que carma perverso escolhemos para nós mesmos! – Como se precisássemos ser adultos para termos instintos, como se precisássemos ser adultos para desejar, para ceder a um impulso – é preciso ser adulto para comer? Esse é o seu melhor argumento? Somos adultos! É prazeroso ver as coisas acontecerem como quem não se importa, como quem não se incomoda? Ver até onde as pessoas podem chegar, usando-se como instrumento, consumidor e produto de si mesmo? Deprimente!

Não é de surpreender que o resultado seja uma deficiência de serotonina. – Pode ser suprida com pílulas relativamente baratas. Talvez o grande problema seja o fato de estar acostumado a conviver com pílulas, as quais ingere e lhe dão um prazer momentâneo sem objeções. Essas pílulas te fazem homem? Te fazem humano? Qual é a ilusão que te consola, por trás da frieza a qual se esforça em esboçar na dissimulação?

Parece fácil viver uma vida que tenha um preço, que tenha um objetivo – objetivo de suprir-se de suprimentos para substituir algo que velhos poetas – velhos amigos – chamavam de alma. Um videogame, prostitutas, um computador, religião, uma TV – uma grande TV, última geração de equipamentos sonoros, álcool, internet, “food”, jogos, drogas, jogos, sexo, jogos… Fosse a vida um jogo onde pudéssemos ter vidas enquanto quiséssemos para recomeçar e fazer melhor…

A mim, a vida mais se parece com o teatro – apresentação única -, onde tudo não é o que parece, nada parece o que é, e não há como corrigir erros, camuflar esquecimentos – a não ser por improvisos. A vida mesmo, é como uma peça improvisada. (Qual o papel que escolheu para si, meu caro? O de comedor? É tudo o que te resta no palco da vida?)

No fim das contas, não me importa, afinal é tua escolha ser assim. Gostaria apenas que você fosse mais honesto, gostaria que tantos outros fossem mais honestos. Mas vocês são espertos. Me dou conta do quanto minha honestidade é fonte de problemas. Ninguém quer lidar com a verdade, ninguém quer encarar os próprios demônios, mas eu descobri que quero: esta é a minha doença e a minha cura contra investiduras como a sua. Você não me feriu, mas me abriu para a minha dor esquecida, para a minha humanidade quase marmorizada em versos. Este era o golpe que me faltava para enxergar, que por poucos passos eu acabaria como algo assim – uma caricatura de mim mesma.

Volto a sentir em explosões, e dos meus atos, pensamentos e ações, alguns dirão que preciso de um deus no coração, alguns dirão que preciso resolver questões familiares, outros dirão que preciso de um analista ou de um terapeuta, outros dirão que preciso de um médico, outros dirão que irei rir de tudo isso um dia. Tantos dirão…

Sim! Muitos acabarão assim. Com um deus no coração, resolvendo problemas familiares, procurando analistas, fazendo terapias, consultando médicos, rindo de tudo isso. Rindo e trabalhando, rindo e levando os dias, rindo e deixando os dias passarem, rindo e se escondendo das suas desgraças, rindo e ignorando os sonhos, rindo e se esquecendo de quem são, rindo e adoecendo, rindo e morrendo sem ter vivido. E enquanto riem-se, esperam encontrar por alguém que os entenda, mas nunca encontrarão, por se esconderam de si mesmos. Temem revelar-se para além dos figurinos desgastados. Tem que ser assim?

Eu pensei nesse ato de escrita e direcionamento como um desabafo, mas no fim das contas, tudo continua muito entalado e sufocante. Uma bulimia emocional não é opcional, é mais como uma vocação. Ó senhor! Estou curada? Ou condenada à enfermidade de sentir?

P.S.: Isso sim, meu caro, é um drama.

Passe bem.

Bárbara

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E-mail enviado por Bárbara a Gustavo, uma das primeiras pessoas que conheceu em uma cidade isolada, onde fora para trabalhar por algum tempo e tentar juntar dinheiro. Recebeu como resposta do seu interlocutor o seguinte comentário: “Você escreve muito bem, parabéns! Minha única observação é que você, se fosse um filme, seria algo do Godard, e eu prefiro filmes comerciais americanos.”. Quando se conheceram, um dos principais assuntos entre os dois foram sobre filmes do Godard, os quais Gustavo dizia serem os seus preferidos.

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