Carta de gradidão por Aline a suas ex-melhores-amigas

Cartão Postal de Perth

Perth, Austrália, 27 de junho de 2013

Faz muitos anos… Eu me lembro, que algumas de vocês eu conheci no primário. Tínhamos um grupo inseparável, quatro meninas inseparáveis. A nossa inocência não era do tipo idealizada pelas pessoas quando se tornam adultas, como somos agora, e desse esquecimento do que foi de fato a infância eu não fui vítima ou não tive o privilégio. Brincávamos sempre juntas, lanchávamos juntas, compartilhávamos nosso amores e nossas antipatias. Tão cedo achávamos que sabíamos sobre o amor e a antipatia. Talvez soubéssemos mais naquela época do que agora: não julgávamos a não ser por nossos instintos, pois ainda não estávamos infectadas pelos moralismos sociais. Entramos juntas no ensino fundamental, tantas pessoas a mais: novos amigos, novas brincadeiras, novos estudos, novos amores. Dispersamos, mas nos mantivemos de alguma forma naquele elo que me fazia acreditar em amizades eternas.

Outras de vocês conheci mais tarde. Eu ainda gozava daquela ingenuidade que fazia crer nesse sentimento amigo que ultrapassava barreiras mais do que qualquer laço de sangue. Creio que isso vinha do meu hábito de ler demais, e por vezes confundir a nobre fantasia que encontrava nos livros infantis com a realidade. Compartilhamos segredos, intrigas, sonhos, festas e a maturação inevitável, deliciosa e constrangedora do corpo e da mente. Acreditava que cada nova amizade era infinita, e que nesta relação eu poderia ser simplesmente o que era. Nunca me considerei nociva, mas sabia, tanto internamente quanto pelas insinuações contidas nos nomes que me eram destinados, que essa diferença se fazia presente. Não era uma diferença física, não era uma diferença intelectual, não era uma diferença dessas que usualmente são condenadas ou glorificadas pelas convenções. Uma diferença sutil, quase incômoda, uma diferença de ser, que para mim, todos dispunham, e portanto não me incomodava.

Eu mantive a espontaneidade, e meu universo crescia com as novas experiências, novos livros, novas amizades, novos amores, novas desilusões. Tive a crença de ter vocês ao meu lado, no entanto isso foi uma realidade até o ponto em que essa expansão foi aceitável. Lembro que todos riam das coisas que eu falava, ou me perguntavam sobre algo que eu respondia de acordo com o que lia ou pesquisava, coisas que para mim eram pura curiosidade e descoberta. Eu me encontrava desprovida da maldade em saber que essas palavras poderiam engendrar calúnias em bocas más intencionadas. Lembro que vivia e corria atrás dos meus desejos como a adolescência pede: livre de pensar nas consequências. No entanto, eu tinha plena consciência de não estar apta à autodestruição – simplesmente não via mal em nada do que fazia, sentia que era preciso descobrir o mal das coisas na experiência e não nos relatos herdados por quem nunca os fez.

Experimentei muitas sensações, produções, conversei com pessoas que eram desprezadas ou excluídas no âmbito tão precariamente democrático e libertador da escola. Tornei-me tão rápido um alvo que a realidade me veio como um rompante. Dessas amizades coloridas, meus primeiros amores amigas, não diria sequer se transformaram em preto e branco pois deste não tragaram a elegância melancólica ou saudosista. Sem cor digna para dar nome, nem sequer transparência honrada, naquele tempo não pude dar conta que a infinidade daquelas amizades residia no suspiro de um momento, como paixões calmas, que se prologam mas não se firmam em amor. Lembro-me desde o momento em que comecei a ser evitada até o momento em que na rua me viraram a face. Lembro da fantasia e da realidade que me direcionaram pela descrença em que eu fosse “dar em alguma coisa”.

Toda este escândalo que eu fui para vocês e para alguns outros baseado simplesmente nas vivências do caminho da minha sexualidade, da minha libido presente na vida, da minha sede por experimentações, da criticidade do meu pensamento, da minha insistência em não excluir nada nem ninguém imediatamente baseada apenas nas convicções miseráveis que me eram doadas. Que mal havia, para vocês ou para quem fosse, se beijasse um menino, ou uma menina, se fosse um ou se fossem três? Que incoerência, de fato, configura uma perspectiva romântica com um olhar sobre o sexo? Então, me pergunto, tão pudicas e mesquinhas, não podiam lidar com essa realidade na vida? A de que somos seres sexuais também? Bom, alguns dirão que era mais do que isso, houve um tempo em que eu experimentei cigarros, e ainda os delicio com prazer, obrigada. Também experimentei bebidas, e continuo a experimentá-las, também com prazer, obrigada. E continuo a ler meus perniciosos livros de filosofia e literatura, ainda com mais prazer, obrigada.

Devo mesmo agradecê-las todas pela exclusão oriunda da minha insubmissão em comportar-me de forma equânime. É verdade, vocês não sabem, sempre odiei certas maneirices de menina, como brincar de boneca ou de casinha: enfadonho e entediante eram palavras que não conhecia, mas que definem bem o que eu sentia. Mas eu me sacrificava, para estar perto das minhas queridas. Acreditava que as relações precisavam disso, desse pouco de sacrifício vindo de todas as partes envolvidas, para que ninguém se sentisse arrancado de sua natureza. No entanto, aos poucos vi que eu seguia fazendo esse sacrifício sozinha, e logo aprendi que ao não me submeter encontraria a solidão. A encontrei bem, espaço vazio, amplo, onde podia correr livremente o vento, espaço no qual se podia voar. Passado o tempo, as dores dessas descobertas, seguidas de uma sequência de erros, mas sempre em busca de mim, passado o tempo me encontrei. Encontrei também novos amigos, novos amores, novas experiências, novos lugares, novos ares.

Já não encontro vocês por aí na rua para ter o privilégio de passar como uma desconhecida, hoje não porque me virem a cara, mas pelo fato de eu continuar não sendo afeita à hipocrisia, e continuar sendo espontânea o suficiente para que vejam em minha atitude educada em retorno da insistência o desprezo instalado na face. No entanto, nestes últimos dias, quando me senti intensamente satisfeita com a minha vida, quando me vi tão distante e tão como gostaria, sem todas essas conquistas impostas pelas convenções que nunca me convenceram, eu quis agradecê-las. Agradeço que mesmo enquanto ainda se passavam por minhas melhores amigas, tenham preferido convidar estranhas para dançar em suas valsas de 15 anos do que a mim, e que tenham me ignorado nas festas para as quais me convidaram não entendo muito bem porque, e por terem falado de mim pelas costas e sorrido em minha fronte até que eu descobrisse aos poucos a farsa, e que tenham me julgado, e que tenham me marginalizado. Agradeço a descrença em desafio, e as crenças errôneas que construíram acerca das minhas ações. Agradeço ao esnobismo e as desilusões.

Esses entraves nunca me fizeram desacreditar na vida, me fizeram apenas desacreditar em vocês. E graças a esse espaço tão amplo que me deram, eu pude voar. E agora tão longe, ainda me lembro. Sem ternura, sem mágoa: com muita gratidão. Desejo, honestamente, que tudo ao qual se privaram na vida também as tenha levado ao lugar dos seus sonhos. Se não, acredito que ainda há tempo, pois ainda somos jovens. Eu sempre estarei aberta a novas amizades, aos que não tremem e praguejam diante das novidades.

Minhas honestas felicitações. E que se tiverem filhos, para a felicidade deles, os ensinem a serem menos domesticáveis e preconceituosos.

Abraços a todas!

Aline Correia.

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Carta enviada por Aline aos e-mails e redes sociais de suas amigas de infância, com as quais não tem contato desde a adolescência. Aline cresceu no interior, e foi muito estigmatizada por seus pensamentos e comportamentos diferentes do que os costumes esperavam de uma mulher, e, principalmente, por defender que uma mulher poderia fazer o que quisesse, assim como um homem, desde que não estivesse prejudicando a ninguém. Era conhecida também por não ser afeita a ideia de casamento, por não achar justo que apenas a mulher se responsabilizasse pelos serviços da casa, por falar abertamente sobre sexo, política, sociedade, ter gosto por jogos e pela vida noturna. Certamente, naquele contexto, isso não lhe rendeu uma boa fama, e vários boatos foram inventados para justificar a “depredação” verbal que direcionaram a ela. Na ocasião dessa carta, a remetente estava no ápice da realização de seu sonho, fazendo doutorado em arquitetura no exterior, onde também havia acabado de conhecer o seu futuro companheiro, com o qual irá se casar em uma cerimônia Maori

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