Carta a um desaparecido

papel ao vento

 

Semana passada eu ia pelo corredor em direção ao meu quadrado, relutante em desligar o MP4 e interromper “Piligrims”. A música abafando os sons externos, mas internamente minha mente tagarelava: “Aqui estou eu novamente, ouvindo música de André”.

Musicas de André me acompanhando no ônibus, músicas de André trilhando meus sonhos, meu sono. Músicas de André apresentadas a outros ouvidos e outros lábios. Músicas de André empurrando meus sonolentos passos pelas ruas labirinticamente organizadas da cidade caótica. Músicas de André que se tornaram minhas e expandiram. Músicas de André preenchendo o silêncio de André, que se foi.

Golfei um vômito ralo de palavras que nunca o alcançaram. Mando então uma carta ao vento – canibal de palavras descartadas. O vento que tem natureza como a sua, que vem já para desaparecer. Vento de aparições previamente planejadas para despedidas silenciosas e repentinas.

Fui para o alto da serra, esconderijo da ventania volátil de ares que apenas passam – nunca permanecem. Joguei seus olhos para o verde das árvores e dos capins insignificantes. Joguei suas palavras para o ruído das folhas e das águas. Joguei suas promessas para o azul e para o infinito. Joguei seus odores para as flores, suas formas para as pedras, seus movimentos para os pássaros.

Fiquei com as músicas e voltei para os corredores. Joguei sua poeira no carpete no qual piso quase todos os dias e minha esperança, joguei pela janela.

André continua indo,

fugindo da carta jogada ao vento…

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>> Carta sem assinatura, sem localização, encontrada perdida aos pés de uma serra qualquer.

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