Carta de Maria Bezerra ao Secretário de Saúde Pedra Pequenence

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São João da Pedra Pequena, 21 de Setembro de 2006

Ilmo.

Sr. Secretário de Saúde, Arquibaldo Serra,

Venho manifestar, enquanto cidadã brasileira e pedra pequenence, minha preocupação com o descaso risível e explícito nos serviços de atendimento em saúde pública. Como crendo, e assim deveria ser, que já tem conhecimento de toda a questão burocrática que envolve a miséria intrínseca ao cenário do nosso sistema de saúde, trago aqui um relato, na tentativa de tornar concreta e visível todas as especulações estatísticas e pseudo-teóricas típicas dos discursos políticos.

Há uma semana estive no hospital local, o único da cidade e da região num raio de 95 km, para visitar uma parente. Felizmente, posso considerar que tive sorte, dias antes esta conseguiu um leito para internação. Sem entrar em detalhes sobre as condições precárias que afetam até mesmo o interior do hospital, choquei-me com a situação que acompanhei, externa ao meu universo particular, mas inegligenciável uma vez que me encontro na condição de ser humano.

Ao chegar na entrada do hospital me deparo com um verdadeiro caos, haviam leitos espalhados por todos os cantos, inclusive na entrada do Pronto Socorro. Os moribundos estavam abandonados a própria sorte, como se fossem corpos no limbo aguardando a decisão arbitrária entre a vida e a morte. O fedor de urina, sangue, suor e doença era contagiante, fazendo revirar mesmo os estômagos habituados com a crueldade característica do nosso estilo de vida blasé que se acostuma a ignorar cotidianamente a miséria circundante deitada aos nossos pés todos os dias, até que ela nos assole.

Gemidos de dor e desespero evaporavam como o odor de álcool, onipresente. Ânimos alterados gritavam em cada canto do cubículo de espera. A segurança do hospital pousava para a paisagem caótica com máscaras truculentas. Era difícil sair ou entrar. Parecia impossível entrar, para os que mais precisavam. Perplexa diante da cena em que me encontrava, por um momento me esqueci do meu drama pessoal, e tive a impressão de ter errado o caminho e chegado, ao acaso, na entrada do inferno. Já não conseguia mais distinguir em que tipo de ambiente me encontrava: uma prisão, um manicômio – o purgatório talvez. Parecia tudo, menos um hospital. O que é um hospital para você ou para qualquer um que recebe mensalmente uma quantia mais de cindo vezes maior do que a maioria da população, e, portanto, nunca precisará passar por situações como essa?

Em minha imobilidade contemplativa do horror trágico do que ali se passava, ouvia rumores de um novo surto de dengue. Meus olhos encontraram o olhar opaco e perdido de uma senhora, sangue lhe escorria pela boca e seu acompanhante, que parecia ter, no máximo, acabado de completar seus 18 anos, estava simplesmente, tão mórbido quanto à infectada. Já não havia mais, sequer, a revolta de alguém capaz de lutar por seus direitos. Ausência total de esperança contrastava com a agressividade daqueles que ainda encontravam forças em seus diafragmas para clamar pelo que lhes é legalmente garantido.

Ouvi de espreita enquanto entrava, já que diante da impotência o movimento pesado e restrito era a minha única saída, ouvi os recepcionistas rotulando de “frescura” os lamentos dos doentes dali. E quem pode culpá-los pela crueza e ignorância, se, aposto, sequer treinamento para se tornarem mais “humanos” nunca deve ter acontecido por ali? Pois é Sr. Secretário, é que nestes tempos em que temos vivido, não sei se já percebeu, as pessoas andam precisando ser treinadas para serem humanas…

Adentrando ao hospital, a cena não mudava muito, sem condições, a atenção necessária ou qualquer cuidado, leitos estavam espalhados por todos os lados, estreitando os já apertados corredores em que enfermeiras e médicos estressados se espremiam. Quem preferirá trabalhar nestas condições a abrir um consultório particular? Já não se trata de uma questão de humanidade, mas de amor próprio. A ausência de materiais adequados era visível, e ao ouvir o comentário de um médico sobre a impossibilidade de fazer determinado exame em tal pessoa que estava em estado grave, tentando encontrar junto à outra cabeça algum malabarismo para não perder aquela vida em suas mãos, orei a Deus (se existe) que tivesse piedade desse interior esquecido de Minas Gerais.

Os olhos do profissional de jaleco branco estavam rodeados de escuridão, de noites mal dormidas, de má alimentação, de preocupação. Provavelmente era recém formado, caso contrário, estaria já bem endurecido. É o que ocorre com o tempo, pois subindo as escadas para a disputada CTI, tive o infeliz insight de que aquela realidade era quase cotidiana, e se eu a desconhecia era apenas por raramente necessitar dos serviços de saúde, pública ou não.

Enquanto lá pela porta fui interrompida, a notícia fria me chega como um baque surdo aos ouvidos: a morte. Já não me abalou tanto como seria se me encontrasse em alguma caricatura de paraíso. Tanto a desgraça sambou no meu caminho, que senti alívio por minha tia ter partido em paz, em vez de na esperança falsa de recuperação definitiva, ao retornar moribunda àquela fila, morrer na porta como uma vagabunda.

E o que quero com este relato?

Que sejam treinados Secretários, que sejam treinados Prefeitos, que sejam treinados Vereadores, que sejam treinados todos vocês políticos, para aprenderem a ter um pouco de humanidade. E assim, quem sabe, teríamos serviços de saúde dignos da condição de fragilidade da pessoa que tem o corpo invadido pela doença.

Agradeço os olhos que estas palavras percorrem, que eles tenham sempre saúde, e que nunca precisem do serviço que vocês oferecem, caso contrário, meu caro, só lhe restará consolo na cegueira literal, porque a metafórica pelo visto, é condição para ocupar esta posição magistral.

(a)Cordialmente,

Maria Bezerra da Silva

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Carta deixada por Maria Bezerra na caixa de correio do Secretário de saúde da sua cidade. Diante da ausência de respostas, cópias da carta foram coladas em alguns postes do local. Trata-se de uma cidade pequena localizada no interior, que foi assolada por uma epidemia de dengue para a qual o hospital local não tinha estrutura (não tinha muito estrutura para basicamente nada, na verdade…). O manifesto inflamado de Maria contagiou outros cidadãos, que começaram a manifestar também a sua revolta antes silenciosa. Para conter a população, o Secretário tomou algumas medidas mínimas, que não adequaram as condições do hospital, mas melhoraram o estado de insalubridade e abandono em que ele se encontrava. Todavia, o povo acalmou. Passado um mês, Maria perdeu seu emprego. Passados seis meses, ela não conseguira encontrar outro emprego. A referida assistente social teve que sair da cidade com seus dois filhos, para pelejar a sobrevivência, e apesar do aperto, decidiu fazer medicina. Após formada, a Srª Bezerra retorna à cidade com o sonho de modificar alguma coisa daquele contexto no qual viveu e o qual presenciou. “Foi uma volta assustada…”, ela conta, “passei mais de sete anos fora, e nada mudou!”.

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