Carta de condolências

a torre

Me desculpe, mas eu não caibo em fantasias prontas. A sua personagem romântica, a sua atriz pornô, não me dizem respeito, não me representam, não me significam. Eu não sou protagonista das músicas do Chico, nem coadjuvante da vida de ninguém, eu não visto carnaval, não me mascaro de ideologias.

Me desculpe a estupidez, não é sem querer que gostaria de te mandar enfiar a sua paixão no rabo, como você gostaria de me possuir todas as noites, às escondidas, entre as suas quatro paredes, o seu ringue de luta particular, a sua sala de troféus, a sua simulação de vida. Não tenho vocação para ser bengala ou saco de pancadas, não tenho vocação nenhuma, não sou invocada, sou apenas por aí ao meu dispor.

Me desculpe as palavras bonitas, os sorrisos sinceros, os resquícios de afeto, não sou feita de pedra, não finjo frigidez, não sou peça de sacrifício. Tento viver, tento me surpreender, arrisco, aposto, desejo. Desejo que não seja apenas mais do mesmo. Desejo mesmo, e, se é, o que posso fazer? Viro brisa mediterrânea, saio à francesa. Esperança, esperando, quem sabe, um dia, surpresa?

Me desculpe, mas eu não me entreguei ainda à amargura das decepções e nem as confundo com maturidade. As águas salgadas da vida, eu passo por elas, das tempestades, carrego umidade, dos desertos, a paisagem, o silêncio. Eu não me submeto ao árido, eu não me afogo até à inconsciência, eu aprendi com meus ancestrais. Eu sei ser intensa sem ser descartável.

Me desculpe, minha honestidade não é um dicionário. Eu não certifico o significado do que digo, eu não acredito em compreensão. Sigo a vida como um fluxo de pensamento, um fato, sem manual de instrução. Eu invento, eu investigo, eu resignifico. Eu não creio, realmente, em comunicação que não seja pelo gesto, pelo tato, pelo olhar além da superfície.

Me desculpe se te fiz perder seu tempo, mas o tempo que eu vejo é sempre perda, é sempre perdido, não há tempo ganho nessa vida que preferia nunca voltar. Não há tempo sequer, não há nada. Vivemos iludidos a medir passos arbitrários. Não há sentido para a vida. Não há porque contá-la em números, não há nem mesmo porque vivê-la. Há apenas de querer viver.

Me desculpe, mas eu quis, eu quero. Você sempre me fez querer como se eu não tivesse escolha. Se eu tivesse, me esquivaria do seu universo prateado, das suas moléstias caipiras, dos seus suspiros saudosistas. Que eu sou bicho do caos, impaciente, violento, bem resolvido com a sua natureza de lâmina que deseja cortar, decepar, dilacerar, romper. Sangue, fluxo, derrame.

Mas entre nós, do que falta, sobra pedra sobre pedra. E eu não fui feita para cozinhar. Eu me congelo ou me faço brasa, lava. Eu estorrico tudo quanto pretende me dobrar. Eu não tenho calma, eu não tenho paz, eu não quero paz. Não quero ser a escora das suas fronteiras, nem de fronteira nenhuma, quero derrubá-las ou seguir solitária. Eu só conheço a liberdade.

Me desculpe, mas eu não faço questão. Sempre segui na contramão, contra a corrente, derrapando na curva. Estou machucada demais e não quero alívio temporário, primeiros socorros, parada improvisada, feriado prolongado ou licença médica. Quero vida inteira, transbordando, explodindo. Tudo aquilo que o que eu desejo é exatamente o que você se nega.

Me desculpe se para mim o amor não é um campo de batalha. Cultuo o ceticismo das armas. Eu não luto para conquistar afetos, eu não entro em competições, eu não busco troféus. Eu sou dissidente. Vivo na utopia da espontaneidade, num universo fictício no qual, acredito, nós somos acidentes.

Para o outro lado do abismo

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Imagem: Edward Hopper – Interior (Model Reading)

Eu sei, tanto quanto não gostaria de saber e imagino que você também já saiba, dessa forma insuportavelmente consciente, que todos nós temos os nossos abismos. Caminhamos entre eles vendo os outros de longe, carregando o inevitável paradoxo de não podermos simplesmente ignorar, que temos um abismo só nosso que é também um abismo de um outro, que é um abismo só dele e, assim, tentamos nos comunicar. Há modos infinitos dentro de um limite restrito, multiplicado por peculiaridades muito sutis.

Eu tenho observado, dessa forma insuportavelmente consciente, como imagino que você também faça já há algum tempo. Depois de encarar o abismo, não há raciocínio que resista a uma profundidade imensurável para chegar ao outro lado. Desistir é sensato. Buscamos outras saídas. Aqueles modos infinitos dentro de um limite restrito, multiplicado por peculiaridades sutis.

Muitos gritam tentando se comunicar e se alegram ao serem ouvidos, mas não escutam bem e não sabem, também, o quanto, do outro lado, podem lhe escutar. Continuam, ainda assim, berrando entre si, encomendando atenção para não sucumbir ao desespero de mergulhar, novamente, na profundidade densa, entre um e outro, abismo.

Existem os que dispõem também de gestos dramáticos, cômicos ou metódicos. É verdade, desenvolvem seus métodos mímicos para se fazerem entender, mas não enxergam bem e não sabem, também, o quanto, do outro lado, podem lhe enxergar. Continuam, contudo, convictos a se gesticularem, alimentando com a sua dança solitária a fantasia de conexão, para não sucumbir à solidão sóbria de assumir a profundidade densa, entre um e outro, abismo.

Há os que constroem castelos, montam bancas, ornamentam o corpo com ideais imaginários para se fazerem distinguir, mas não distinguem muito bem e não sabem, também, o quanto, do outro lado, são distintos. Acumulam, de qualquer forma, infantarias estéticas para prevenir o vazio profundamente denso, entre um e outro, abismo.

Inúmeros levantam bandeiras, marcam territórios ideológicos, atacam, revidam e se fazem, a seu ver, referência. Mas não assumem outros limites que não sejam os seus e não sabem, também, o quanto são, do outro lado, limitados. Persistem, todavia, em seus duros enquadramentos, cultivando a ingenuidade para atenuar a fatalidade da profundidade densa, entre um e outro, abismo.

Como antes eu disse, mas imagino que você já sabia, dentro de um limite restrito, há modos infinitos. O paradoxo é inevitável. O corpo contornando uma individualidade irremissível, que só se delineia única porque outros corpos se contornam distintos, do outro lado daqueles abismos que compartilhamos, mas que é só nosso.

Desprovidos de utopias, como suportaríamos? Há vários, de tão frágeis quase invisíveis, que se jogam no vão, entre um abismo e outro, confrontando a profundidade densa com um mergulho de cabeça. Um mergulho infinito. Desses, os olhos embaçados já não permitiam ver o outro lado, nada que não fosse, abismo.

Acidentados, existem, ainda, aqueles que tentaram fazer ponte e, tornaram-se ponte, pois não tiveram quem os levasse para o outro lado. Se cansam cedo, esticados, esgotados, pisoteados diariamente entre um abismo e outro, com vista privilegiada para a profundidade densa, abismo.

Eu sempre soube, como imagino que você também sabia desde o início, que ignorar é a salvação. Só o que não consegui descobrir é salvação de quê. Poderíamos viver de tentar encontrar uma saída – uma forma de alcançar o outro lado, de tocar com os sentidos, de falar sem ser no grito, de ouvir no pé do ouvido –, sem corrermos o risco de escorregar e desabar na profundidade densa do abismo, exatamente como vivemos no esforço ignorá-lo.

Poderíamos, como fazem os raros, melhor diria, lendários, nos isolarmos em nossa própria profundidade densa e nos descobrirmos abismo em harmonia com todos os outros abismos. Poderíamos muito, podendo tão pouco, como podemos agora. Mas eu ando em tormento com essa consciência insuportável, sem querer ignorar, sucumbir, me isolar ou me perder nos labirintos da razão.

Não tenho respostas nem objetivo. Diante de mim é lúcido, esse cenário quase onírico de que, semelhante ao que acontece com todos os outros, há um abismo entre eu e você. Não encontrei meios de contorná-lo, pois eu sei, como imagino que você também já saiba, que desses meios não dispomos de verdade.

No tormento dessa consciência insuportável, ao contrário do que imaginam os que me veem de longe, mas não enxergam muito bem, não sofro de desespero e, por isso, não me saem os gritos dessa tempestade tranquila, eles não nasceram. Você não escutaria bem. No fértil paradoxo inevitável cresce o silêncio, que pode ser ouvido inteiro.

Dos gestos, disponho do necessário, deixando-os para a dança do encontro – essa utopia de sustentação que me mantém aqui, de pés firmes, desse meu lado do abismo. De qualquer forma, você não enxergaria bem. Abro espaços à contemplação que melhor se demora na suavidade espontânea do que nos dramas forjados.

Deixei, também, as bandeiras de lado, arruinei castelos e ornamentos, para não me cegar com distrações e, quem sabe, seguir de um abismo a outro, sempre que tiver a chance. Pois eu sei, como imagino que você também já saiba, que entre os tremores e imprevistos, passagens fugazes se revelam entre os limites profundos e densos dos abismos.

Mas eu não tenho respostas, objetivo ou salvação. É que eu descobri mais cedo, como imagino que você também já tenha descoberto antes, que existir é mesmo meio sem sentido. Então, fiquei em paz ao te ver do outro lado, tão distinto em toda a sua ausência.

Pensei: pode ser, quando vierem os tremores e acidentes… Foi quando uma folha pródiga me tocou na lembrança da leveza e da intenção transformada em carta avião ou pássaro. E não há abismo que resista à profundidade densa dos espaços, entre uma palavra e outra, escrita.

Do músico andarilho aos ouvidos apressados

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Imagem: Músicos ambulantes – mosaico romano S I – aC

Sem importância, sem valor e desprezível, eu nem deveria estar no dicionário. Pequeno, minúsculo, tênue, diria que é valioso ser esse valer tão pouco ou nada, leve, sem preço, tornar-se escorregadio, surfar para fora dessa teia metálica e cortante das pequenas dominações. Porque poder, como vejo muitos a buscá-lo, acaba por tornar-se poder ser triste, poder ser amargo, poder ser cretino. Eu não posso poder algum. Estou em movimento, não poderia nada que não fosse como um acidente, no presente.

É, no máximo, o que sou: um acidente incomodo que distrai o rumo dos jogos estruturados e tensos. Penso, com essa inocência que resta bruta e insistente: querem descontrair-se, querem prazer, mas não sabem como. Toco o violino da leveza, invocando a Dionísio, e até o meu grave é agudo, atormentando as cabeças concentradas em construir o vazio. Caem sobre mim como muralhas destroçando-se, mas escapo porque sou uma pequena esfera feita de elipses. Eles não sabem o que fazem. Perdoo. Mantenho o coração livre.

Por vezes, param para me ouvir e apreciam as pequenas coisas, mas morrem de medo de “perder vantagem”, que há um mundo real que parece imposto. Ninguém percebe que ele é posto e poderia ser recomposto? Há quem prefira ser escravo e se orgulha disso como um rei. Há sempre quem seja mais “fraco” e possa ser pisado. Há sempre um menor a dominar, a humilhar, que permite fazer papel de monarca ao miserável. Que há de mais doce que a auto ilusão concretizada na ferida alheia? O mundo anda cheio de vampiros.

É uma dor imensa que os enlaça pelo pescoço e transforma. Não são tão maus, são apenas frágeis demais para mudar de ideia. Rígidos demais para rebolar na comédia da vida, preferem a tragédia. É verdade que é trágico receber o riso cômico, mas, ao oposto, uma sólida nobreza de espírito é necessária para atravessar os portais da tragédia. Sem querer um, sem poder outro, ficaram no caminho simulando poder – perderam a graça. Eu rio desse poder sem poder e, como não percebem o cômico nisso, julgam-me louco.

Mas é que meu riso é tão bárbaro, tão visceral, com essa magnificência com que me deforma os músculos e me faz sentir o coração numa dorzinha prazerosa. Você não quer sentir? Não querem. Me disseram que preferem tornar-se uma caixa de papelão bem cotada pela bolsa, ou uma bolsa de marca, um sapato de luxo, um saguão de hotel fino, uma franquia bem-sucedida, uma caneta de colecionador, uma arma ou, até mesmo, um calibre de arma! Desde que ser humano perdeu o valor, dizem. Tentei alertá-los: nunca teve valor, sempre teve valor. Não percebem que valor é escolha, então chamaram-me louco.

Prossigo escorregadio antes que me lancem em grades de hospício. Prossigo rindo, pois em meio a cacofonia de discursos há sempre cocegas ligeiras. Eu não tenho um nome para que me chamem. Eu não faço sentido. Insignificante. Vocês esperavam um final? Eu paro por aqui. Como disse, sou um acidente. Prossigo. Contradito. Sem ser visto. Uma liberdade retumbante acompanha em percussão a minha flauta de viver.

Aos sonhadores do submundo

submundo

Vocês que pensavam que no segundo milênio o mundo teria seu fim, fiquem calmos, ele prossegue duro, um pouco imaturo, como sempre, tem gente demais, como nunca.

Aqueles, menos pessimistas, que por amor ou encanto sonhavam com empregadas cibernéticos e nervos de pedra, bem, temos selvas inteiras de pedra feita massa e nervos líquidos. Do metal o lítio no corpo do indeciso emocional o faz empregado de papel.

Nossos carros ainda não voam pelo céu, por vezes voam pelo asfalto, liberando dos fardos de carne anjos e demônios fabulares, que prosseguem ligeiros na mente rodada dos que os conheceram.

Nem todos nós nos alimentamos de capsulas e tampouco elas se transformam em banquetes. Delas se nutrem aqueles que querem consumir o corpo até que se torne enfeite.

Existem também os comprimidos para alimentar a alma, os alucinógenos de sempre, assumidos ou recalcados, alimentam os delírios de potência, paz, poder, posse, pessoa.

Não passaram por aqui alarmantes os seres de outro planeta. Se passaram foi giro discreto, como quem faz uma parada breve para o lanche em uma loja de conveniência cara e insalubre numa rodovia qualquer e engole ansioso, deixando vestígios de pressa, seguindo logo em direção ao que interessa.

Ainda não nos destruímos todos, nem destruímos tudo, mas já destruímos muito, tenham fé, que um dia chegaremos lá.

Também não conseguimos ainda levar nosso corpo indiscriminadamente pelo tempo. Ainda somos presa do presente, mas temos pressa. Frustrados não nos teletransportamos pelo espaço infinito, somos um tanto quanto restritos e limitados, embora quando embriagados de rede e luz, nos distraímos com a ilusão de termos o universo a um gesto de nossas mãos.

A nossa eletricidade ainda é parasita da água em sua maior parte, e também o é a energia do corpo, como já sabem. Poluímos as duas em igual proporção para equilibrar a culpa e fortalecer a ilusão de que nem outra nem uma nos fará falta alguma.

Prosseguimos. Ainda há escravidão, assumida escondida, disfarçada explícita, temos discursos como algozes da ingênua filosofia elaborada por máquinas.

Com tudo isso, e muito mais, e o tanto que sempre está surgindo, por que eu diria a vocês, então, que não estamos evoluindo?

Temos para a comunicação as mais exímias tecnologias, vocês não acreditam! Bem, isso exceto pelas línguas, que agonizam todos os dias, definhando uma a uma, a fim de dar espaço ao ruído universal balbuciante.

Temos meios de encontro e interação com qualquer pessoa no mundo. Pensem em como isso amplia nossos rumos! Mas, não é bem assim: é virtual. Eu explico: é como um encontro entre almas de outro mundo, como eu falo com vocês que a esse mundo já não pertencem mais. Só não considerem “almas” no sentido estrito, elas estão em falta em nosso mercado restrito.

Evoluímos também nossas torturas em sofisticação e amplitude de alcance. Uma delas todos vocês conhecem bastante: a solidão; uma das outras nem todos: a televisão.

Bom, eu poderia continuar com um inventário das nossas invenções, de modo a acalmar os seus espíritos penosos que tanto me atormentam – ao menos a alguns de nós penam com suas invenções fantásticas de pensamento -, para que não pasmem que ainda não realizamos todos os seus sonhos de carne e possam seguir tranquilos os seus instintos de plasma em outra direção. É que como vocês sabem, não se pode dar tudo a uma civilização.

Não se preocupem e aproveitem com contento que essa empreitada humana já não lhes diga respeito. Estamos em outro caminho. Sim, cheio de novidades. Não direi se esse caminho é mau ou bom.

Digo apenas que de tudo o que evoluímos, das coisas que construímos, das fantasias que quase transformamos em realidade, se na tecnologia caminhamos um tanto, nos equilibrando nas rodas de pedra de uma ciência cheia de verdades, há um tanto que nos tolhe, há um tanto que nos falta, no íntimo e no trato, evoluir em humanidade.

Aos que não precisam mais de mim

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Dia desses, enquanto eu andava pela cidade, pela primeira vez em minha vida eu não me senti velha. Não me sentia senhora de nada, nem de ninguém. Não devia respeito ou satisfação. Parei no meio do caos de pessoas surfando suas vidas no passeio, rendendo-me aos tropeços de quem passava e sentia pressa. Entreguei-me ao vazio do céu urbano ferido por edifícios. Parei. E, pela primeira vez, não pedi desculpas, mesmo obstruindo o transito de passantes e pedintes apressados ou entristecidos. Pela primeira vez me senti senhora de mim.

Libertei meu corpo que vivia aprisionado na cozinha, no quarto, na sala de jantar – dos cômodos esvaziados com os anos. Da solidão fedida da pele cedendo. Dos anos perdidos nos sonhos de família. Descobri que cada ano meu tinha 365 dias especiais, não só natal e réveillon, não só celebrações de casamentos e nascimentos. Lembrei-me das pérolas guardadas na caixinha de música da mocidade, dizia Horácio em nosso primeiro encontro que eu era mais linda que elas. Corri para casa, arrebentei o cordão, lancei-as ao espaço. Eram lindas, mais lindas do que eu jamais fui! Mais me valeu o deleite de vê-las quicar pelo chão do que as palavras do amante amortecidas pela realidade do tempo.

Tão logo entrei pela porta e concluí o meu primeiro ato de revolta, saí novamente. Fui à loja de construções. Pintei as paredes de cor-de-rosa, como sempre quis. Veloz como um menino, como uma menina levada, pervertendo as memórias indesejadas. Desejando. Convidei trabalhadores a desmontarem os quartos intocáveis. Troquei os móveis. Fiz mil planos para o futuro breve que me aguarda, mesmo que nesta fase da vida, a morte esteja sempre a porta. Mas hoje, eu posso sonhar. Como nunca pude enquanto ficava entre prover, alimentar, cuidar, levar, buscar, suportar. Aquela doce vida de dona de casa que eu aprendi a amar ainda na juventude.

Vocês sabem, eu fui de bom grado ao casamento, sem amor, deixando-o nas páginas marcadas dos livros, escondidos, que me levavam noite adentro por universos pecaminosos, enquanto Horácio explicitava seus pecados pelas noitadas afora. Quando um choro rompia do berço, eu fingia que era meu, assim podia conter minhas lágrimas emprestadas nas suas. Minha febre alugada pelas suas viroses. Minha cólera embutida nas suas dores. Eu na carruagem da vida, vocês minhas amadas rodas, Horácio guiando os cavalos, até que, cada um para seu lado, eu fiquei só e perdida, observando a decomposição da madeira curtida, até não poder mais suportar as picadas dos cupins que infestavam a lembrança apodrecida.

Divorciada aos 55, eu que sonhava em completar as bodas de ouro… não via sentido. Foi revolta o que me tomou, bile amarga insuportável chata, dessas que nos transformam em cobra e destilam veneno em cada palavra. Não pedirei perdão por sofrer amargamente após perder toda a minha juventude cultivando algo que não era nada para ninguém a não ser para mim. Sei que não fiquei solitária pelos caprichos poucos dos anos que sobrevieram à separação: quantos vejo que cuidaram, dedicaram, abrandaram as fogueiras até esgotarem suas últimas forças e agora estão abandonados em suas doenças, em suas loucuras, em suas jaulas solitárias de velhice. A nós, a ninguém, não deveria jamais ser privada a vida.

Agradeço, no entanto, o abandono que me libertou. Podem dizer que estou sendo dramática, e estou, agora eu posso ser o que quero ser e não preciso mais ser o melhor do que me ensinaram que eu deveria ser. Sem minhas rodas ou guia eu ando e sinto o chão. Sem grandes expectativas já não me importo com os rumos do caminho. Não sei até aonde vou ou até quando poderei ir. Mas sei que meu coração ganhou nova vida, quando ao me olhar no espelho, em vez de ver a opacidade do que em mim se foi, eu via a vitalidade do que em mim nasceu. Das fissuras desenhadas na pele do meu rosto e do meu corpo nasceram sementes, brotaram mudas prontas para crescer no mundo.

Já não tenho nenhuma responsabilidade que me prenda, já não tenho nenhuma moral que me pode. Podo-me das folhas adoecidas, das raízes moribundas, expulso as pragas e o peso morto. Cultivo a terra das minhas experiências com o adubo do amor, aquele que eu pensei que havia perdido nas páginas dos livros, mas que encontrei quando me olhei no espelho, olhei bem fundo nos olhos, e vi um brilho tímido, que nunca saiu pela porta, que nunca se permitiu libertar diante de todo o pudor que me cercou desde o primeiro choro – aposto que até ao nascer eu fui discreta. Até eu perceber que eu era, o que só aconteceu há tão pouco.

Vocês me criticam agora, dizendo que eu estou velha para isso. Mesmo que a Horácio não dirijam palavra alguma que questionem sua vida de “jovem guarda”. Eu sofria calada e quase desisti. Mas eu vi que o meu corpo já não pertencia à sala, aos quartos, à cozinha ou ao jardim. Meu corpo jardim, meu quarto, nutre todo o alimento que preciso, faz sala à vida que chega. Meu corpo inteiro: meu! Eu aprendi: com a terapeuta mesma que vocês indicaram. E hoje dou gargalhadas ao receber pedradas daqueles de quem limpei a bunda branca suja de merda e lhes troquei a frauda sempre pontual, e mostrei-me tão boa e correta, conforme o bom e o correto que aprendi que assim o eram, que acreditaram muito mesmo nisso como verdade única.

Não entenderam que era por vocês. Apenas por vocês. Não era o que eu era. Se devo pedir perdão por algum erro é por ter sido tão boa e tão boba, é por ter me esforçado tanto em ser “completa” que pequei no zelo de afeto e de trato, sem me atentar à falta que fazia a falta. Aquela falta que faria com que vocês entendessem que a mamãe é mulher. Mas nem por isso perdão eu peço, pois Horácio nisso não me ajudava e eu não era obrigada a descobrir sozinha tão depressa. E se o fizesse, talvez, hoje fossem vocês cheios de estigmas, carregados das marcas das pedras alheias.

Eu vou seguindo meu fluxo, meu caminho. Não pretendo terminar minha vida ensaiando posar para o caixão. Acostumem-se com isso. O meu casamento é só o início. Mas, tragam caretas ou sorrisos, é com amor e carinho que as paredes cor-de-rosa os esperam para o papo e para o vinho. Aos solteiros, saibam, ainda jogarei um belo buquê. Eu insisto que venham, eu insisto que se descontruam. Sabem por quê? Vocês, meus anjinhos, sempre serão bebês em meu coração. Só que demonstraram tão bem, inclusive pelo sumiço, que não precisam mais de mãe, que a mãe se foi pelo precipício. Se ainda houver tempo, quem sabe, poderemos ser mais, ser mais do que mãe e filhos: poderemos ser amigos.

Aos deuses um bilhete do homem que perdeu a fé

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(Fotografia de Andrea Romito – I Tarocchi di Fumo)

Permanecia auto exilado em seu sítio, cercado de mato e bichos. Restos de cera e manchas de fogo requintavam a decoração. Quantos dias? Meses. Ano. Como todos os dias, acendeu uma vela e tentou fazer uma oração. A mente revoltava silêncios. Recusado ou recluso? Do Tarot de Marselha ele tirou novamente “O Eremita” em resposta ao pedido de recuperar a chama da vida em seu coração. Cansado de orações, rasgou palavras no papel, gritou feito louco para o vazio, jogou as palavras no rio. Deu um mergulho oco. Encharcou mais uma vez o colchão – dias secos, noites lágrimas.

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Como eu vim parar aqui? Nesse buraco de vida, nesse buraco de mundo? Me lembro que outubro, outrora, no ano que passou. Não tão passado assim, já que me rememora, meu coração dançava vivas, ao tempo e às expectativas, mesmo que quando, neste tempo mesmo, também chorava minha alma, como previsse o desencontro por vir.

Vivia como dançasse na chuva, tinha festins no coração e as desgraças eram desdobras de acaso. Nenhum descaso do destino que não se realizava poderia me abater. O mundo andava lentamente e eu corria na contramão, esperando o acontecimento. Acontecendo. Minhas esperanças frustradas me arrancavam o sono, me arrancavam lágrimas, mas do espírito não me arrancavam a luz. Prosseguia!

O que me trouxe então a este abismo? Onde dos homens não percebo presença de alma ou coração? Os amigos, parece, se encontram em outra dimensão. Estou restrito em emoções aos animais e às plantas. Poucas, mas mais do que nos homens eu sentia. Eu buscava antes um pranto de alegria e agora, seco, seco as lágrimas não vindas em velas coloridas que choram ante meus pedidos pouco ambiciosos.

Oro contra o meu ceticismo, aos deuses que ainda puderem me escutar, apesar da magia queimada na fogueira da intolerância. Rezo ao coro universal que cante a minha canção. Peço… apenas… um pouco de amor em meu coração, para que eu não precise seguir tão duro, enquanto cumpro minhas penas.

À moça de olhos tristes

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Há alguns dias você chegou e quebrou a minha rotina tranquila. Como se eu vivesse com plumas nos pés, seguia minha vida distraído, até ter minha leveza umedecida pelas nuvens da sua presença. Não é tempestuosa, nem intensa, mas como os dias mornos que lamentam a chuva finda em seu leito, lentamente deixando subir o vapor do passado, denso e embriagado de sol encoberto. Desde a primeira vez em que te vi, você parecia fugir de casa. Parece fugir de casa todos os dias, dia após dia, uma vida de fugas frustradas e retornos vãos.

Eu sei onde você começa a sua jornada, mas não sei onde termina. Seus olhos castanhos profundos estão sempre rodeados pelo azul opaco das noites mal dormidas. O pó com o qual você tenta velar os traços e as cores da solidão se recusa a cumprir sua função, por uma questão de ética, deixa exposta, ainda que coberta por um delicado véu de artifícios, a tristeza que guarda, a tristeza que cresce e já não pode ser escondida. Ele a condena silenciosamente, para que, talvez, alguém a salve. Todos nós precisamos, às vezes, de alguém que nos salve.

Como quem desconhece a invenção dos óculos escuros, você transforma seus próprios olhos em armações, vidrados eles entram e persistem como lentes intransigentes. Não permite que ninguém penetre ou seja penetrado. A distância elétrica da sua resistência passa pela roleta e buscando uma janela para a qual se vira inflexível. Ingênuos os que pensam que você busca pelas paisagens batidas e desgrenhadas da estética urbana. Eu sei que deseja apenas evitar os outros passageiros. Eu te observo discretamente, com ternura e medo, pensando, quem sabe, um dia me aproximar.

Mas seu corpo todo repele qualquer presença, como se todos os abraços fossem feitos de espinho. Quem pode julgar, sem saber, quantos espinhos suportou pela vida? Quantos espinhos te torturam ainda a alma? A lembrança, o trauma. Eu não sei, mas eu sinto, apesar da sua distância, sinto suas nuvens, encharcando minhas penas. Todos os dias eu sei onde você começa a sua jornada, você, talvez, saiba onde a minha termina. Eu desço levando suas essências perturbadas e doloridas, um perfume doce e despretensioso de quem se conformou com o vazio.

Hoje, como por vezes a vida faz graça para interromper o mormaço monótono da rotina, quando eu desci, o transito estava parado. Pude te ver de fora. Seus olhos vidrados não me viam. Não estavam longe, não estavam atentos, pareciam completamente voltados por dentro, absorvidos pela introspecção. Quase não piscavam, como temessem assim liberar as lágrimas. Os lábios não estavam curvos em qualquer direção. Comprimiam-se em linha como quem segurasse o choro, aprisionando-o na tensão de todos os músculos da face. As sobrancelhas pareciam ignorar todos os sentimentos que no rosto se exibiam, como quem se cansou de se pressionar tanto.

Não era rude, era leve, toda a sua tensão, todo o seu descaso com os próprios afetos, vivendo os seus dias, um atrás do outro, fugindo de casa, ignorando as dores, ignorando a todos, ignorando a tudo, voltada para dentro. Levava nos ouvidos a música singular. Eu já percebia, mas hoje pude ver, nos seus olhos, eu vi as notas que chegavam egoístas apenas aos seus ouvidos. Ao contrário do motivo que, suponho, cole o seu rosto à janela antes que qualquer olhar possa encontrar o seu, a música poderia ser apenas para ocultar os ruídos externos, mas você realmente ouvia. Ou ouvia a si mesma como uma canção? Não importa tanto, desde que haja música, há esperança.

Eu sigo meu rumo, todos os dias, dia após dia, desde de o dia em que as suas nuvens pesaram minhas penas, e levo seu olhar descaradamente triste como um novo olhar rondando o meu. Quando chego ao trabalho e vejo os rostos sorridentes, os cumprimentos automáticos, as conversas de sempre, alguma polidez e alguma estupidez trocando farpas, disputando a atenção, eu busco em todos os olhos a verdade que os seus revelam sem pudor.

Não é que todos carreguem uma tristeza como a sua, talvez não carreguem sequer tristeza alguma. Mas destes olhos seus, emoldurados do azul das noites mal dormidas, eu os vejo tão simplesmente sinceros, como quem cansou de fingir, e assumiu fugir de casa todos os dias. A sua fuga é o inevitável batente. É certo, não podemos parar sem maiores consequências. Estamos perdidos e seus olhos condenam essa perdição.

Então eu busco, um tanto cuidadoso para não ser descoberto em meu crime, busco os sentimentos mais profundos escondidos por trás de todos os olhos. Percebo que os olhos não são feitos apenas de íris e pupilas. Cada textura, cor, traço e expressão da pele que os cortinam, tudo diz respeito aos olhos. Mas, e os olhos, ao que dizem respeito? Nos olhos vivem caoticamente a verdade e a mentira de cada um. O inevitável do que se tenta evitar. Prestar atenção aos olhos alheios é desnudar ao outro sem permissão. Essa vulgaridade de conhecer sem pedir licença. O meu crime. Eu tenho mudado desde então.

Já não creio tão fácil no superficial que me apresentam. Suas nuvens pesando minhas penas me forçaram a fortalecer meus ossos ocos e finos para poder movimentar-me. Convivo com o desconforto de olhar nos olhos e perceber o quanto escondem. Há dores lá moça, há dores como a sua, muito mais bem protegidas. Há dores diversas. Há perversões e escuridão. Os sentimentos mais mesquinhos. Mas o que realmente me assusta é que há amor, há gentileza, há compaixão, há ternura. Tudo muito bem escondido também. Não importa o que escondam, escondem. As emoções bem guardadas, os desejos acorrentados. Quando se manifestam? Será que eles permitem vir o sono à noite, quando o silêncio profundo viabiliza os ruídos atormentados desses prisioneiros?

E então, como hoje eu te visse de frente pela primeira vez, através do vidro, sua fronte exposta em destaque com todos os demais em plano de fundo, como o ônibus fosse um quadro feito para destacar sua singularidade diante das sombras de perfil e costas ou rostos que mesmo de frente eram sombras, eu percebi, em débil reflexo, minha própria sombra.

Quando encontrei um tempo para roubar da minha própria reserva, encarei o espelho. Tentei chegar nos meus próprios olhos. Tentei descobrir o que eles escondiam, ou se eram sinceros. Busquei desesperadamente ver. Eu me encarava angustiado, devorando todos os traços, texturas, cores e formas. Entrei em choque. Eu olhava e não via. No vidro do espelho o que eu via eram os seus olhos. Toda a sua face. A sua imagem e lembrança. As suas nuvens. A sua fuga.

Dessa interação unilateral que temos, eu levo seu olhar comigo. Não como uma bagagem, mas como um vírus. Algo que tomou parte e conta do meu corpo, da minha mente, me transforma cotidianamente. Transforma o meu próprio, antes que eu pudesse conhecê-lo, o meu olhar. É apenas o inevitável, pois se antes eu não via como eu vejo, não buscaria nunca os meus olhos como agora. Não teria os seus me impulsionando nessa busca.

Eu mentiria se dissesse que não sinto o desejo de aproximação e mentiria se dissesse que sinto. Estou tão completamente tolhido da compreensão do que desejo que me limito apenas a ver e sentir, o que seja, como é. De tudo isso que disse, dessa angústia sua permeando meu ser, espero apenas, desejo, isso eu sei, que um dia você possa dar descanso aos seus olhos. Fecha-los em definitivo para o peso que carregam e, então, abri-los novos para tudo o que há por vir, alguma leveza, e que assim, eles possam manifestar densamente, intensamente talvez, tantos outros afetos, com a mesma beleza com que hoje manifestam a tristeza.

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Eduardo escreveu essa carta no horário de trabalho para dar vazão ao insuportável dos pensamentos que lhe vieram desde que essa moça, dos olhos tristes, passou cotidianamente a embarcar no mesmo ônibus que o levava em seu trajeto. Cuidou em tecer manuscrita e legível cada palavra, dobrou o papel cuidadosamente e endereçou à moça da melhor forma que podia: “À moça dos olhos tristes, deste ponto de embarque”. Ele precisava especificar, porque sabia que haviam muitas moças de olhos tristes por aí. Mas ele queria que chegasse àquela. Das intenções que o levavam a isso, poderiam ser um pouco egoístas, ou quem sabe, apenas nobres. Ele não queria violentar a tristeza da moça com frases fúteis de motivação. Nem a oferecer ajuda sem que ela pedisse, talvez sequer precisasse. Ele aceitava que a tristeza pudesse existir, como tantos outros afetos, apenas não deveria ser o único afeto… Uma questão de sobrevivência. De viver. Quis dizer isso a ela sem tentar mudar o que lhe ocorria sem a sua permissão. Respeitava o que via e admirava. Apenas. Respeito ou covardia? Assombrado por seus dilemas, sem saber o que fazer, fez apenas o que dava conta. Escreveu as palavras e jogou o bilhete pela janela do ônibus quando retornava para a casa, no ponto em que a moça sempre embarcava. Esperava que ela encontrasse. Temia que ela encontrasse. É contraditório como somos, por tão descostumados com as iniciativas improváveis, que se a tomamos, não sabemos bem se gostaríamos que dessem certo por medo da reação, por medos das consequências. Confortava-o apenas a certeza de que aquilo que admirava nos olhos da moça não era a tristeza, mas a sinceridade com que se manifestavam.

Antes que você feche a porta e o se vire nunca

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E se eu deixasse a mudança acontecer? Eu me pergunto. Como se ela me pedisse permissão. Como se a transformação fosse sempre premeditada, uma decisão. Mas, ela não pediu licença. Quando estava aqui, eu evitando envolvimento, perguntando “se(s)”, percebi, que enquanto me perco nas interrogações inseguras, na preguiça do novo pelo medo do novamente, enquanto eu me perco nessas indecisões imaturas, pode ser que quando finalmente eu respirar fundo e tomar coragem para ir de encontro, não exista mais. Pode ser que já.

Que enquanto eu me pergunto: e se eu me aproximo, você se encolhe, se afasta, se esconde? Eu escondendo o olhar das decepções projetadas, eu mesma, decepcionando, afastando, encolhendo os encontros na sombra do se. Enquanto eu penso, que se cedo as amarras para dar movimento às emoções, danço, em que sentido? Você então irá reforçar as suas e seguir rígido em outra direção? Eu então, danço só, por trás de paredes imensas, recuso a mão que me estende. E se eu toco, você me aperta, me sufoca? Então, por minha própria angústia, não consigo respirar. Resfólego como quem corre sem rumo, sem parar.

Das palavras que escuto com sorriso e silêncio, finjo às vezes não escutar, debato-me com a razão, sei lá se mesmo tão sã, dizendo que se assumo, que se me entrego, o que será? Se percebe conquistado esse mistério que te move, terá ele-eu outro destino que não uma prateleira de troféus? Respiro fundo, faço graça e finjo que não quero ser levada a sério. Se eu deixo as armaduras, as armas, os medos, você ataca? Você se defende? Você vem de encontro ou parte por já não ter a emoção do desafio?

Enquanto eu respiro a brisa tranquila da minha solidão, você me traz ventanias de palavras. Seria apenas o gosto de me abalar ou traz com elas as sementes das flores que canta em poesia? Então por que se distancia, dá um passo atrás se dou um passo à frente? Do que desconfia, se na minha sinceridade áspera eu apenas omito o que você parece querer ouvir? É que desde que me cansei de provar de palavras frívolas, eu coloquei os gestos no altar, idolatro as atitudes, cultuo atos. Somos assim tão discretos ou não passa de um ensaio? Sem saber eu sigo de soslaio, com a minha natureza de improviso.

Já sem poder ignorar o que me move, nem domar meus movimentos, eu sinto cada se como uma agulha tatuando advertências. Eu invento para mim a desculpa de não querer magoar, enquanto minhas perguntas denunciam o medo de me ferir. Mas somos ambos feitos de carne. Eu percebo que a mudança não pede licença enquanto te vejo fazer as malas. Antes, eu te chamei como quem estivesse de passagem. Agora eu queria te pedir para ficar, mas eu não sei se. O saco cheio de se: me esvazio na esperança de que não tenham se tornado nunca. Arrisco em silêncio, com a mina natureza de improviso. Perdi as palavras em trilha no caminho para você me encontrar.

Carta para um estranho

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Eu te vi dia desses, distante, fingindo concentração nos papéis enquanto se perdia na extensão da mesa. Parecia pedir licença, como se soubesse ser observado. Eu cedi. Desviei o olhar com a sua presença colada na minha perplexidade. Permaneci. E por vezes me desviava discretamente para o seu mundo. Desconhecido, isolado. Eu te assistia rodeado de bajulações. A vaidade e o orgulho saltando pelas pupilas presas à uma moldura desgastada, sombria, profunda, disfarçada com um verniz fino feito de sorrisos forçados. Seus gestos exageros e palavras treinadas como os de um ator de teatro. As frases prontas. O discurso lacônico. O que tinha que ser feito.

Por trás dos seus olhos eu imaginava declarações de amor queimadas. Cinzas. Sonhos rasgados. Contas em dia. Um álbum de retratos em linha do tempo para comprovar a maturidade adquirida. Um baú de segredos bem guardados, adornado em ouro e coberto de pó. Uma resistência intensa em viver apesar dos trejeitos de maquete. Uma resistência intensa de viver para manter a forma. Uma paixão pelo caos contida pelo medo da autodestruição. Inseguranças monstruosas que povoavam seus pesadelos pacíficos. Um tanto de homem escondido no bolso interno do terno. Eu não sabia quem era você, mas os que te abraçavam, te beijavam e compartilhavam mais dos seus dias, também não sabiam. Não sabem.

Eu te vi outro dia, exibindo o brilho falso de uma vitória fácil. Frágil por trás do olhar apaixonado esculpido em pedra sabão. Eu não sabia bem se você percebia o quando se perdia nas palavras, que se esvaziavam, minavam, minguavam quanto mais os sons saiam dos seus lábios. Vendo-o inteiro me contive tentando compreender a contradição. Com todos os dons que tem, por que age tão fraco, vestindo-se de armaduras tão pesadas que lhe privam o movimento? Nunca soube bem se é a ilusão do ápice ou o medo de alcançá-lo que impede tantos de ir além. Se assemelhava à uma figura saída de um baile nobre do século passado perdido entre as paisagens urbanas e suburbanas. Mas, outra vez antes eu te vi de calça jeans e óculos escuros e você também não parecia daqui. Não parecia de lugar nenhum. E esse estranho eu amava.

Sem nunca ter perdido a certeza da minha própria naturalidade, com provas se fizesse questão, eu pairei sem graça ante a ironia de te ver tão falso. Parece que se pintou de ouro, todas suas cores indiferenciadas então, uma escultura em movimento. Lento. Perdeu muito dos seus traços, alisados pelo material polido. Foi vencido pelos estereótipos quando podia ter vencido apesar deles. Um mal de muitos. Mais valia a carne em toda a sua decomposição, calor e tempo formando sulcos no rosto – linhas tímidas que se revelavam no sorriso torto. Era proposital, mas verdadeiro como não é o sereno e comedido esticar de lábios atual. Eu assisto à peça sem esperar pelo final, quando o ator deixa o personagem. Seriam agora um só? Casca de improviso ou fusão irreversível? Te entrego as interrogações para viver minha vida de reticencias. Foram-se as resistências. Algumas vitórias são amargas.

Deixei as armas no arsenal das ilusões para te assistir de longe. Aos poucos vou substituindo as esperanças do por vir pela lembrança do que foi. Eu vi. Quando sua luz era inteira você e não um artefato. Eu vi como quem está perto demais não pode ver. Tantos pensam que se conhecem pela proximidade, mas é apenas de uma certa distância que podemos ver mesmo – quando o observado não pode se esconder por trás das expectativas que acredita precisar corresponder. Eu vi, porque eu não era importante, então, você podia apenas ser. E era tão bem. Era. E talvez volte a ser algum dia, quando a maturidade realmente chegar e você não precisar mais encená-la. Quando finalmente perceber tudo de precioso que tinha e tudo de precioso que tem, tão lá dentro guardado, se não for antes molestado pela amnésia da amargura. Quando você se permitir parecer o que quiser, porque sabendo quem é, não tem medo que te julguem. Quando tiver noção de que a sua força não está no olhar dos outros, mas na sua capacidade de fazer.

Até lá eu te olho de longe, endosso a tristeza com distrações fúteis para que ela não me leve tão distante que eu não possa mais voltar, nem ver. Te observo como quando passo por um estranho na rua; e se ao meu lado, como um passageiro, mantenho o olhar perdido no vazio; enquanto fala eu escuto um palestrante, assisto uma peça, com sorte, escuto um canto, respondo como a um RH. Me canso e escolho sempre que posso o silêncio, uma presença quase imperceptível. Me perco em entender o que me mantém por perto – talvez um resquício vivo ainda emita alguma vibração, algum poder invisível de atração. Luto? Fico como quem fixa o olhar no céu escuro esperando pela luz da lua quando é lua nova. Fase? Às vezes eu vejo estranhos na rua eu te imagino como se fosse o que é qualquer um outro, naquele lugar, naquele uniforme, fazendo aquela atividade, com aquele carro ou aquela roupa outra. Chego a rir de te transfigurar para as situações mais absurdas e me dar conta de que ainda seria o mesmo. Mas você não sabe disso.

Ao sem sentido, como se fosse nunca

Sem sentido

“O mesmo bar, a mesma lâmpada, a mesma carne, mas todos em vibração, os sentidos multiplicados, intensos, elétricos, o coração quase parando de espanto, o espanto de ter encontrado no meio do deserto uma palmeira, uma palmeira de olhos claros, camisa verde, mãos brancas. Ter encontrado um cravo branco entres os caixotes de lixo atapetando a rua. Ter encontrado o espaço do silêncio dentro de um grito. Ter encontrado um ponto de apoio para o cansaço. Você não me vê, eu não te vejo, mas tenho o coração pálido, as mãos suspensas no meio de um gesto, a voz contida no meio de uma palavra, e você não vê o meu silêncio nem meu movimento dentro dele.” (Caio Fernando Abreu – A chave e a porta)

Agora eu gostaria de te encontrar pela primeira vez, como se nunca antes fosse. Como se fosse nunca. Como se fosse para sempre esse nunca, meio fim de mundo e nascente de tudo. Explosão de existências simples de existir demais. Eu não faria perguntas. Apenas diria, dizeres inocentemente imperativos de desejo: “Me fale sobre você” – “Como?” – Talvez perguntasse, como quem somos, nesse mundo cheio de interrogações precisas e cheias de respostas, perdidos que ficamos diante de interrogações infinitas e sem pretensões – impontuais – “Fale apenas, sobre você” – Eu responderia: “com silêncios ou poesia, com ruídos ou gritos, com metamorfoses ou métodos, à escolha, a sua escolha, sem defesas ou objetivos, sem as expectativas por quem quer saber, sem… um vazio de interesse de quem é inteiro e sabe – não se define”.

E você me acharia louca, talvez, e, quem sabe, amasse a loucura depois. Seria como se fosse, nunca, quando nos permitimos amar a loucura: eu amo sempre, você ama depois. Eu não sei o que viria, se seriam os êxtases do sopro ou as paixões das histórias, eu não gostaria de responder, nem de perguntar. Poderíamos falar simplesmente, como pessoas que se conhecem e se desconhecem nas próprias palavras sem saber o porquê, e se perguntam, e se dissolvem nas perguntas, e se enchem de dúvidas, e se esvaziam de tudo, e tão desamparadas de si se encontram, um ao outro, um no outro. Seria, como se fosse nunca, assim como seria, se fossemos infinitos apesar de tudo, apesar dessa totalidade que nos tolhe de existir – a busca.

Nós não teríamos caminhos ou protocolos, não teríamos sequer uma vida, a não ser uma vida – uma só. E saberíamos o quanto os sentidos não fazem sentido, assim como saudades e amor e vida. E sem sentido nós saberíamos viver – a vida: uma só, mesmo que fossem, vidas infinitas, mesmo que seja, uma só. Então poderíamos rir e falar. Poderíamos rir e calar. Poderíamos nos entregar ao silêncio dos gestos e dos olhos tagarelas sem desconcerto. Poderíamos ser canções inteiras de ontem e melodias seculares, poderíamos ser do amanhã e depois, ou de agosto. Não precisaríamos fazer sentido, e sem sentido, seriamos inteiros, como somos e não sabemos, como somos e não admitimos, como somos nos encontros que recusamos por ousarem em demasia à dentro – perto demais. Temos medo do escuro que guardamos para amanhã. Ou depois. Nunca conhecemos a luz.

Mas eu amo sempre, e eu penso, enquanto bebo com a lua, que nós poderíamos, não sei como, não sei quando, termos nos conhecido assim, sem perguntas, sem pretensões. Ter sido apenas, como ser é impossível, esse instante de gente que somos, sem medo dos julgamentos, saberíamos: nos entendemos. Como eu sei que nos entendemos, embora você não entenda. É perto demais e os olhos se confundem com lágrimas. É perto demais e parece que vamos nos consumir. É perto demais e a luz parece uma escuridão desoladora. Mas é dia. O sol nasce à meia noite e teremos sempre a lua como companhia. Enquanto o tempo vai eu penso, em vão, eu nunca fui muito de agir a não ser só, talvez, com a lua, e você, esse movimento violento, foi tão longe – um cometa. Perto demais – eu tive que sair de cena para não ver apagar até o fim. Eu te queria infinito.

Agora, nós poderíamos, e eu vejo, porque gosto tanto do alternativo e do descontínuo, do psicodélico e caótico irregular – de. É como o tempo nosso. Esse desencontro todo – um encontro sustenido. Um ruído insuportável se na linha. Uma harmonia irresistível se. Todo o memorável é desobediente. Por trás das armaduras despedaçadas, por trás dos remendos e das ruínas, é certo, somos inteiros como se fosse nunca e a primeira vez. Não fazemos sentido.

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